A 15 de dezembro de 1993 (completam-se no domingo 20 anos), Cherbakov sofreu o acidente que lhe mudou para sempre a vida. O seu Renault 21 ficou desfeito depois de desrespeitar um sinal vermelho e ser abalroado por outro carro que entrava na Avenida.

Atingiu o carro do ucraniano mesmo no centro, projetando-o contra outro, que estava em sentido contrário a aguardar o sinal verde. Cherbakov foi levado para o hospital, sobreviveu mas perdeu a capacidade de andar. Acabou o gosto de ter a bola no pé, mas não foi o ponto final no futebol.

Vinte anos depois, o Maisfutebol falou com Cherbakov e encontrou, nas palavras do próprio, um homem diferente. Naturalmente diferente, claro está.

«Faz vinte anos não é? Já sei, já sei...», atalha. Nem espera a primeira pergunta e num português quase perfeito começa a contar como está. «A vida não acaba. Estou vivo, tenho trabalho, uma saúde normal. Só não ando. Mas estou vivo e foi sempre isso que me interessou», assegura.

Naquela noite trágica, Cherbakov, com 22 anos, regressava do jantar de despedida de Bobby Robson. O técnico tinha sido despedido por Sousa Cintra após a eliminatória com o Casino Salzburgo, perdida na Áustria, no prolongamento, depois de uma vitória por 2-0 em Alvalade.

Dois dias antes, a 13 de dezembro, Cherbakov cumprira o seu último encontro como jogador de futebol, frente ao Beira-Mar, em casa. Foi titular e saiu a um quarto-de-hora do fim para dar o lugar a Juskowiak. O Sporting ganhou 1-0 na estreia de Carlos Queiroz. Tudo caminhava para a normalidade.

«Não usava bem a cabeça, foi culpa minha»

Depois veio o acidente, a recuperação e a fase dura de encarar o inevitável: era o fim da carreira. «Foi a fase mais difícil, sabe? Aceitar tudo foi duro. Todos os anos neste dia lembro-me do acidente, claro. Foi mau. Perdi as pernas, perdi o futebol. Mas a vida continua», remata.

Cherbakov é hoje olheiro do Lokomotiv de Moscovo. Continua ligado ao futebol e é essa ligação que o alimenta e o faz encarar todas as dificuldades da vida. Algumas até passam despercebidas às multidões: «Para quem está numa cadeira de rodas a Rússia é difícil. Se estivesse aí em Portugal era mais fácil para mim. Aqui há muita neve, muitas escadas. Mas consigo levar uma vida mais ou menos normal.»

Sem muita vontade de recordar o acidente que lhe roubou os sonhos, prefere guardar o que há para ver de positivo: servir de exemplo para os outros.

«Muitos jogadores na Rússia, depois do acidente, vinham ter comigo e diziam-me obrigado. Depois do que me aconteceu eles já não cometiam o mesmo erro. Ao menos sirvo de exemplo para eles», continua.

Hoje, Cherbakov sabe que nunca deveria ter entrado naquele carro na noite de 15 de dezembro de 1993, depois do jantar e perto da meia noite. «Teria apanhado um táxi depois da festa se fosse hoje. Mas era novo, tinha vinte anos, não usava bem a cabeça. Era maluco. Foi culpa minha», assume.

Figo, Porfírio e os sonhos que fugiram

O dia-a-dia de Cherbakov é hoje diferente. Ainda faz reabilitação três vezes por semana e junta-lhe sessões na piscina. «O resto do tempo é para trabalhar no Lokomotiv», explica.

«Muita coisa mudou para além do que toda a gente vê. Não ando, não é? Mas também mudou muito na minha cabeça. Sou muito diferente porque esta vida difícil que levo obrigou-me a ser. Mas continuo perto do futebol, o que é bom», sublinha.

Do Sporting do seu tempo ficam as saudades. «Que pena não termos ganho um título», lamenta.

«Estive em Portugal em julho, sabe? Fui visitar uns amigos. Não tenho muitos aí, mas os que são, são bons», garante.

Do futebol guardou poucos contactos: «Falo algumas vezes com o Figo e o Porfírio.»

«O Figo era grande jogador. Ganhou uma Bola de Ouro. Se calhar, se não fosse o acidente, tinha ganho também. Fui Bota de Ouro no Mundial de 91, em Portugal, e acho que podia chegar lá. Tinha muita esperança mesmo. Acho que era capaz», encerra.

Recorde os golos de Cherbakov no Mundial Sub-20 de 1991