19 de dezembro de 1990, Estádio dr. Vieira de Carvalho, na Maia. Portugal defronta pela terceira vez a seleção dos Estados Unidos da América e vence por 1-0. O golo é de Domingos Paciência, logo aos 8 minutos de um particular com muito frio, bancadas cinzentas e pouco para contar.

27 anos depois, o filho Gonçalo está nos eleitos de Fernando Santos e tem tudo para se estrear pela Seleção A. Se marcar um golo nesta primeira internacionalização, o atacante do V. Setúbal - mas vinculado ao FC Porto até 2019 - repete o feito do pai, também num jogo de caráter amigável.

Um bom desafio, pois então.

Nesse jogo contra os EUA, Domingo faz apenas a segunda presença na Seleção A. O menino goleador do FC Porto faz 14 minutos contra Angola em março de 89, ainda no reinado do selecionador Juca, e tem de esperar 21 meses até voltar a ter uma oportunidade, já com Artur Jorge aos comandos.

Domingos com Luís Figo no Euro96

Domingos Paciência acaba a carreira com 34 internacionalizações/9 golos pela Seleção Nacional, com o ponto mais alto a surgir na chamada ao Euro-96. O último jogo é contra Moçambique, em agosto de 1998, pela mão de Humberto Coelho e no início da caminhada para o Euro-2000.

Com 29 anos, Domingos antecipa bastante o final da ligação à seleção. Em choque com o selecionador da altura, como explica em recente entrevista ao Observador.

«Num jogo com Moçambique, nos Açores, tive uma resposta esticada ao Humberto Coelho. Ele tirou-me ao intervalo. Disse-me ‘Domingos, estás bem?’ Estás bem, não; joguei em todo o lado em 45 minutos: à esquerda, à direita, no meio, atrás do avançado e depois saio. Depois também me saí com a história do Ferrari.Já estava no Tenerife e disse que a selecção era forte como um Ferrari e que era preciso ter mãos para aquilo.»

No debute pela Seleção A, Domingos tem 20 anos, 2 meses e 27 dias de idade. Gonçalo já não vai a tempo de bater esta marca. Se jogar contra os EUA em Leiria, o jogador do FC Porto terá 23 anos, 3 meses e 13 dias.

Nada que um golo não possa resolver.

PORTUGAL-EUA, dezembro de 1990:

FICHA DE JOGO

PORTUGAL: Silvino (Vítor Baía, 46'); João Pinto, Venâncio, Fernando Couto e Leal; Vítor Paneira (Jorge Couto, 67'), André, Semedo e Paulo Futre; Rui Barros e Domingos (Nelo, 67').

Selecionador: Artur Jorge

EUA: Tony Meola; Marcelo Balboa, Peter Vermes, Robin Fraser (Chris Anderson, 46), Jimmy Banks, Paul Caligiuri, Troy Dayak, Earnie Stewart, Dominic Kinnear, Tab Ramos e Desmond Armstrong.

Selecionador: Bob Gansler

Golo: Domingos (8') - veja o VÍDEO:

Pais e filhos na Seleção Nacional: uma lista de elite

 

Se Fernando Santos colocar Gonçalo em campo contra os EUA, a família Paciência será a sexta a unir pais e filhos pelos laços da Seleção A. Apenas a sexta.

Tal como o Maisfutebol lembra numa reportagem de 2015 - «Irmãos, pais e filhos: quando as quinas são um assunto de família» -, só em cinco ocasiões se verifica a passagem de testemunho dinástico na principal representação nacional.

Em junho de 1959, Raul Figueiredo, atleta do Belenenses, estreia-se pela equipa das quinas. 32 anos depois do pai, também Raul.

«Tamanqueiro», é assim o nome de guerra de Raul sénior, totaliza 17 presenças por Portugal entre 1925 e 1930. O registo do filho Raul é mais humilde: apenas três jogos.

O último golo de Domingos na Seleção (agosto de 1997):

A dupla seguinte é de respeito. Muito respeito. José Águas consegue 25 internacionalizações/11 golos de 1952 a 1962; Rui Águas, o filho, supera o número de presenças do pai (31) mas não o de golos (10).

As duas gerações Morato têm um pecúlio mais discreto. O pai, António, veste apenas por uma vez o manto sagrado em 1961. O filho, homónimo, vai um pouco mais longe: 6 internacionalizações entre 1985 e 1988 e presença nos convocados do selecionador José Torres para o México-86 - nunca sai do banco de suplentes.

Em outubro de 2007, Miguel Veloso é lançado por Luiz Felipe Scolari e inicia um trajeto importante na Seleção Nacional: 56 jogos/3 golos e presença em dois Europeus e dois Mundiais. António Veloso, o pai, apresenta também credenciais de relevo: 40 jogos de 1981 a 1994.

Finalmente, a família André. António André, inesquecível médio de Varzim e FC Porto - campeão da Europa pelos dragões em 1987 - totaliza 20 internacionalizações/1 golo e a presença no Campeonato do Mundo de 1986. O filho, André André, tem ainda muito a fazer se quiser igualar o pai: 4 presenças na Seleção A.

Domingos e Gonçalo Paciência podem juntar os respetivos nomes a este grupo de elite, muito restrito. A opção está nas mãos de Fernando Santos.