O Besiktas é um velho conhecido das equipas portuguesas. É um clube que desde a chegada de Senol Günes tem dominado o futebol turco. Em dois anos, as águias negras conquistaram por duas vezes o campeonato, de forma consecutiva, para além de uma Supertaça turca.

O bicampeão turco começou o primeiro jogo oficial com a perda da Supertaça, derrota por 2-1 frente ao Konyaspor. A partir daí, somou três vitórias e um empate. Esse conjunto de resultados permite-lhe chegar a Portugal com ares de líder do futebol turco, ainda que em igualdade pontual com o Galatasaray.

Porém, é importante salientar que os resultados espelham boa parte do que é o futebol do Besiktas: um quarteto ofensivo de grande qualidade individual, que assume muitas vezes uma postura anárquica durante os encontros, em contraste com enormes debilidades defensivas tanto em organização como em transição. Estranho, se pensarmos que conta com jogadores de craveira mundial no onze mais utilizado por Günes, embora grande parte do problema resida na postura e comportamentos defensivos enquanto equipa.

No plantel do Besiktas há velhos conhecidos e com grandes ligações a Portugal: Pepe e Quaresma, jogadores que fazem parte do núcleo duro de Fernando Santos. Em comum, está o facto de terem escrito em conjunto uma parte da história do FC Porto, adversário desta quarta-feira. Para além dos ex-portistas, há ainda Anderson Talisca, jogador que pertence aos quadros do Benfica.

Nos restantes elementos do plantel,  existem ainda jogadores de qualidade mundial e que merecem especial atenção: Álvaro Negredo, Jeremain Lens e Ryan Babel.

Senol Günes montou a equipa em 4x2x3x1 em todos os jogos disputados até ao momento, independentemente das peças que possa mexer. Em situações de desvantagem, o técnico de 65 anos recorreu ao 4x4x2 clássico, juntando Álvaro Negredo e Tosun na frente.

Médios na mesma linha e demasiado recuados. Laterais (assinalados) pouco projetados.

Uma das principais limitações do adversário do FC Porto está na primeira fase de construção, sobretudo devido ao posicionamento dos médios que baixam simultaneamente. Mesmo as saídas pelos laterais são poucos eficazes, o que obriga muitas vezes os centrais a recorrem a um jogo mais direto.

Nesta primeira fase de construção, por vezes, o médio mais recuado (por norma Atiba Hutchinson) coloca-se no meio dos centrais para uma saída a três, com o outro médio do duplo pivot a recuar bastante para receber à entrada do meio-campo adversário. Quando não fazem saída a três, os dois médios acabam por pisar terrenos muito próximos, o que impede a progressão da equipa de forma apoiada e obrigam os centrais, por norma Pepe, a fazer passes longos para os homens mais adiantados.

Inclusive, é comum ver Talisca, a principal figura da equipa, procurar muitas vezes espaço nas costas dos médios adversários. Contudo, nem sempre a bola lhe chega em perfeitas condições, daí que, muitas vezes recue demasiado para pegar no jogo. Aquando desse momento, Quaresma e Babel acabam por ser os jogadores mais solicitados.

Para ligar o jogo pelo chão, a referência é Talisca, que deambula por toda a frente de ataque ou então é Ryan Babel que procura zonas mais interiores para, em condução, romper linhas. A partir daí tentam servir Quaresma, Tosun, Ozyakup, médio que faz vários movimentos de rotura, ou a subida dos laterais.

 

Saída a três com Babel a procurar jogo interior. Neste jogo, sem Talisca, era Ozyakup a tentar receber entrelinhas.

A grande virtude desta equipa, é saber explorar aqueles que são os seus pontos mais fortes, ou seja, a promover situações vantajosas para a capacidade técnica e individual do quarteto ofensivo sobressair. Nem sempre o fazem melhor forma, diga-se. Porém, quando Quaresma, Babel, Taslica ou até mesmo Tosun conseguem receber de frente para os marcadores mais diretos, o nível de jogo ofensivo da equipa sobe substancialmente para outros patamares. Patamares bastante interessantes, saliente-se.

Em suma, é uma equipa que quer jogar e ter bola, embora nem sempre saiba qual a melhor forma de o fazer. Acabam por ser as qualidades individuais a fazerem a diferença e a disfarçarem as dificuldades do Besikas para romper equipas bem organizadas.

Bolas paradas:

 

Marcação mista: um homem na zona do primeiro poste e outro fora de área enquanto os restantes fazem marcação individual.

O Besiktas é equipa que aproveita o quinto momento do jogo, bolas paradas entenda-se, para chegar ao golo. E com algum sucesso, diga-se de passagem, tendo em conta que marcou em jogos contra o Konyaspor e dois contra o Antalyaspor. Não têm um alvo específico para colocar a bola, embora procurem sistematicamente os jogadores mais altos, como Pepe, Tosic ou Talisca.

Contudo, neste capítulo do jogo a equipa sofre defensivamente e a explicação para isso é bastante simples. A formação de Günes opta por fazer uma marcação mista, ou seja, um homem na zona do primeiro poste e outro fora da área, com os restantes a marcarem homem a homem. Por isso, contra equipas fortes no jogo aéreo, os turcos acabam por conceder oportunidades de golo.

Organização e transição defensiva

Defensivamente, o Besiktas sofre e muito. Não pela qualidade individual dos seus intérpretes, mas pela forma como o técnico turco pede aos seus jogadores para defenderem. No momento defensivo, as referências de todos os jogadores são o homem e nunca o espaço. É comum ver os extremos a fazerem «piscinas» atrás dos laterais contrários, enquanto o lateral do Besiktas persegue o extremo que pisa terrenos mais interiores.

 

Primeira linha de pressão ultrapassada e com os médios demasiado presos às marcações individuais o espaço acaba por surgir. Babel (assinalado na imagem) a seguir o lateral contrário ao longo de todo o corredor.

Outro erro primário, é o espaço entrelinhas que a equipa deixa sistematicamente após a perda da bola. Não reage à perda da bola, permite a transição adversária e depois, é frequente o médio mais recuado e a linha defensiva, verem os médios e extremos contrários aparecem em excelentes condições para romper em condução ou para ligar jogo. Uma lacuna que pode ser muito bem aproveitada por este FC Porto, que coloca Brahimi e Corona bem dentro do bloco contrário.

A pressão na saída de bola adversária é uma lacuna que pode vir a ser explorada se houver qualidade e acima de tudo verticalidade na circulação de bola. Günes pede a Talisca para se juntar a Tosun para impedirem que a bola entre nos centrais, enquanto Babel e Quaresma caem nos laterais, ao invés de colocar o avançado a fechar um central e, do outro lado, um extremo dividir o espaço entre central lateral, com o Talisca a pegar no médio mais defensivo.

 

Talisca junta-se a Tosun na pressão aos centrais, Ozyakup encosta no médio defensivo. Extremos acompanham laterais contrários. Hutchinson, atraído pela bola, deixa espaço nas costas e Quaresma, preocupado com o lateral, não fecho espaço interior.

Com o quarteto ofensivo a encostar homem a homem no adversário, é Ozyakup, um dos médios do duplo-pivot, que salta ao médio defensivo contrário. E é neste momento que a equipa se desintegra, assim que a equipa contrária avança a primeira linha de pressão como se pode ver na imagem.

A linha mais recuada – médio defensivo incluído – não avança e não encurta o espaço entrelinhas. Mantém-se baixa e permite que os médios/extremos recebam dentro do bloco contrário, livres de marcação e de frente para o jogo. O mesmo aspeto acima referido apenas com a atenuante de ser num momento de jogo diferente.

Os dragões podem, obviamente, explorar este espaço entrelinhas. Por exemplo, colocando os extremos por dentro ou até mesmo fazendo baixar um dos homens da frente para receber nesse mesmo espaço. Contudo, devem evitar procurar passes em profundidade para as costas da defesa do Besiktas. Nesse aspeto, Pepe, que é rapidíssimo a dobrar os seus companheiros, consegue anular facilmente essas tentativas.

Em suma, caso os portistas façam uma ocupação racional do espaço, circulem a bola a toda a largura (sem esquecer o passe vertical), sustenham a imprevisibilidade do quarteto ofensivo e sejam inteligentes a explorar o espaço entrelinhas, têm condições mais do que suficientes para derrotar as águias negras.

A FIGURA: Taslica

É o jogador mais importante de toda a manobra ofensiva do Besiktas. Assume-se como o criativo da equipa, em qualquer posição da frente de ataque e é um jogador que vai requerer especial atenção da equipa do FC Porto. Não pode ter espaço para executar e pensar, nem para atirar de longe, uma das principais características do seu jogo. Controlando o que Talisca oferece ao jogo e os extremos, o FC Porto fica, por aquilo que já se viu esta temporada, mais perto de vencer o jogo. Para além do canarinho, os portistas deverão ter em conta Ryan Babel. Partirá do corredor esquerdo do ataque, mas tem liberdade para percorrer espaços interiores ou para surgir no flanco contrário junto a Quaresma. Conjuga, no seu talentoso pé direito, um forte pontapé, boa capacidade de drible e de passe. A ameaça para a baliza de Casillas começará, inúmeras vezes, nos pés destes dois homens.