O Brasil, campeão do mundo dois anos antes, ainda não ganhou o ouro olímpico no futebol. Mario Zagallo acredita obviamente, como qualquer brasileiro que se preze, que tem de ser desta. O selecionador leva consigo novamente para os Estados Unidos três campeões: Aldair, Bebeto e Ronaldo, embora o último, a quem ainda chamam Ronaldinho, não tenha saído do banco em 1994.

Da Nigéria espera-se a confirmação. No fundo, espera-se que o futebol africano confirme finalmente o seu potencial, através, desta vez, das Super Águias. Mas é mais do que uma simples expetativa, convém sublinhar. Na última década, ganhou o Torneio Mundial de sub-16 em 1985 e terminou em segundo dois anos depois. Acabou ainda os Mundiais sub-20 de 1985 e 1989 respetivamente no terceiro e segundo lugar. Faltava que o sucesso subisse aos seniores.

Ronaldo decidira o primeiro round

Depois de ter vencido a Hungria (1-0) e o Japão (2-0), a Nigéria do holandês Johannes Bonfrere teve pela frente, em Miami, o Brasil na terceira jornada do Grupo D. Perdeu por 1-0, com golo de Ronaldo, aos 31 minutos. Mesmo assim, terminou em primeiro, e continuou o seu percurso, com 2-0 ao México do colorido Jorge Campos, nos quartos de final.

Já os canarinhos tinham sido surpreendidos pelos japoneses (1-0) na estreia, castigando depois a Hungria (3-1). O triunfo de Miami foi fundamental para que seguissem em frente.

As Super Águias antes do pontapé de saída

O início do melhor futebol olímpico de sempre

Athens, na Geórgia, vai assistir ao melhor jogo olímpico de sempre, espécie de opinião generalizada. Zagallo deixa Rivaldo no banco, preferindo Juninho, e quando muitos ainda não se sentaram nos bancos, já Bebeto está caído em zona frontal, depois de falta de Amunike, jogador do Sporting e membro da seleção da Nigéria que tinha estado no passado Campeonato do Mundo.

Flávio Conceição – quantos de vós vão perguntar: não foi o Roberto Carlos? – marca o livre forte e rasteiro, a bola perfura a barreira e desvia de trajetória, traindo Dosu. No primeiro minuto de jogo, o Escrete tem a passadeira estendida para chegar à final.

Todos parecem convencidos menos os africanos, que assumem o assalto à baliza de Dida. O Brasil está aparentemente perdido, sem perceber como travar as constantes movimentações dos nigerianos, aparecendo um pouco por todo o lado. Amokachi sobressai.

O envolvimento das Super Águias colhe frutos aos 20 minutos. O lateral Oparaku envolve-se no ataque e da direita cruza com o pé esquerdo para o outro lado da área. A receção de Babayaro é perfeita, o arranque ganha um metro de espaço a Zé Maria para o remate cruzado. A bola vai para fora, mas Roberto Carlos precipita-se e mete o pé. Autogolo. Justiça por linhas tortas, as do remate.

Johannes Bonfrere, o selecionador nigeriano

Sofrer no contra-ataque

Quando a Nigéria ainda se lamenta por um falhanço na área brasileira, Ronaldo ultrapassa Taribo West pela direita e atira, não ouvindo os gritos de Bebeto desmarcado na área. Dosu defende, mas a posição das mãos trai-o e a bola sobre para o goleador brasileiro, que só tem de empurrar. O Brasil está de novo na frente aos 28 minutos, num encontro muito equilibrado.

Aos 37, golaço e 3-1, para tudo parecer decidido e marcar o ponto de partida para mais uma das melhores recuperações da história. Bebeto, recuado, levanta para o peito de Juninho, que assiste de imediato Flávio Conceição. A finalização é perfeita, e poucos agora acreditam que uma equipa como o Brasil se volte a deixar apanhar.

O penálti falhado de Okocha, que engana Zagallo

A meia-hora do fim, Flávio Conceição derruba na área Amokachi – que jogo! –, mas Dida defende em queda, com a canela direita, e deixa Okocha de joelhos a pensar na vida. Mario Zagallo entende que é altura de começar pensar na final com a Argentina, que já tinha vencido Portugal por 2-0. Juninho é o primeiro a sair, para dar lugar a Rivaldo. Ronaldo, a cinco minutos dos 90, entregará o lugar a Savio, mas nessa altura já os africanos reduziram.

Juninho estava cansado, precisávamos de ter mais força no meio-campo. Ronaldo tinha uma contusão no joelho e dores musculares» (Zagallo)

Estou desapontado porque ainda me senti muito bem» (Juninho)

Aos 78, o Brasil tem um contra-ataque para matar o jogo, mas Rivaldo deixa-se anular de forma incrível por Taribo West. A bola chega a Amokachi, que faz de Pelé quando (lembram-se?) pôs em Carlos Alberto em 1970. O jogador do Everton dá um toque para o lado, onde aparece Ikpeba, sobre a esquerda, a rematar de primeira, rasteiro, batendo Ikpeba pela segunda vez.

Mas ainda não acabou.

Uma insistência de Amokachi vale um lançamento lateral. Faltam segundos para o apito final e a confirmação do Brasil como finalista. Okocha pega na bola e lança-a longa, e esta cai num desprotegido Fatusi. O remate enrola e bate em Aldair e sobra para Kanu. Qualquer outro, naquele momento, com tanta pressão, tão perto da linha de golo, teria rematado de primeira. Não ele. Levanta com o pé direito e passa-a por cima de um Dida em mergulho. Incrível!

A festa de Kanu no primeiro golo, captada pelas câmeras

Morte súbita, por Kanu

No quarto minuto do prolongamento, a Nigéria chega ao Golo de Ouro, à morte súbita do favorito Brasil. Pontapé longo, a bola bate nas costas de Ikpeba e fica na posse de Kanu. Aldair fica para trás e Ronaldo Guiaro, o do Benfica, já não chegará a tempo. Dida é batido. O Brasil, de rastos.

Um golo típico. Marquei muitos assim pelo meu clube, o Ajax. Vi que os defesas estavam viradas para mim, por isso driblei e rematei» (Kanu)

Viemos cá ganhar o ouro, e agora apenas podemos ficar com o bronze. Para o Brasil não é grande coisa» (Juninho)

História na linha de produção

Com a vitória na final frente à Argentina, depois de ter enfrentado de novo duas desvantagens antes de vencer por 3-2, a Nigéria tornar-se-á na primeira seleção africana, e não-europeia e sul-americana, a conquistar o ouro olímpico. A um minuto do fim (mais uma vez!), o herói será Amunike, autor do remate que baterá Pablo Caballero pela terceira vez.

O Brasil goleará Portugal por 5-0, com três de Bebeto, e garantirá o pódio.

Mas a festa, essa, foi africana.

Isto significa tudo para a Nigéria. O futebol é a única coisa que nos une. Para o povo do meu país é o dia mais feliz das suas vidas» (Okocha)

Garanto-vos que no momento em que fala convosco toda a gente em África está a celebrar. Ninguém vai dormir esta noite, toda a gente estará feliz. Isto é para todos os países africanos» (Oliseh)

FICHA DO JOGO

Estádio Sanford, em Athens, Estados Unidos

Meias-finais do Torneio Olímpico

31 de julho de 1996

Nigéria-Brasil, 4-3 a.p.

Árbitro: José-María García Aranda (Espanha)

NIGÉRIA – Dosu; Oparaku (Oruma, 82), Uche, West e Babayaro; Kanu, Lawal, Okocha e Amunike (Ikpeba, 45); Babangida (Fatusi, 67) e Amokachi

Suplentes não utilizados: Emmanuel Babayaro; Obafemi, Oliseh e Obiekwo

Treinador: Johannes Bonfrere

BRASIL – Dida; Zé Maria, Aldair, Ronaldo Guiaro e Roberto Carlos; Amaral, Zé Elias e Flávio Conceição; Bebeto, Juninho (Rivaldo, 67) e Ronaldo (Savio, 85)

Suplentes não utilizados: Danrlei; Narciso, André Luiz, Marcelinho Paulista e Luizão

Treinador: Mario Zagallo

Golos: 0-1, Flávio Conceição (1), 1-1, Roberto Carlos, na p.b. (20); 1-2, Bebeto (28); 1-3, Flávio Conceição (38); 2-3, Ikpeba (78); 3-3, Kanu (90); 4-3, Kanu (94)

Disciplina: cartão amarelo a Roberto Carlos (23), Oparaku (31), Babangida (39), Lawal (53), Rivaldo (73) Ronaldo Guiaro (86) e Amokachi (87)

O jogo completo:

Outras anatomias:

1953: Inglaterra-Hungria, o jogo que mudou o jogo (e um país)

1958: Brasil-URSS, Garrincha, Pelé e os melhores três minutos da história​

1967: Celtic-Inter, a primeira ferida mortal infligida ao catenaccio

1970: Itália-Alemanha, o jogo do século

1973: Ajax-Bayern, o futebol nunca foi tão total

1974: RFA-RDA, o dia em que a Guerra Fria chegou ao Grande Círculo

1977: Liverpool-Saint-Étienne, o milagre que cria quatro Taças dos Campeões

1980: Argentinos-Boca Juniors, e o melhor guarda-redes chama gordo a Maradona

1982: Brasil-Itália, morre o futebol ou a sua ingenuidade?

1982: França-Alemanha, o jogão que o crime de Schumacher abafou

1986: Argentina-Alemanha, a vitória de uma nova religião

1988: RFA-Holanda, vingança servida fria, no país rival e com golo no fim

1991: Inter-Sampdoria, o conto de fadas italiano

1992: Leverkusen-Estugarda, três quase-campeões a cinco minutos do fim

1994: Milan-Barcelona, o fim do sonho do Dream Team

1994: Leverkusen-Benfica, empate épico sentido como grande vitória

1999: Bayern-Manchester United, o melhor comeback de sempre

2002: Real-Leverkusen, a marca de Zidane e dos Beatles de Madrid

2004: Holanda-Rep. Checa, o futebol de ataque é isto mesmo

2004: Sporting-FC Porto, o clássico da camisola rasgada

2005: Milan-Liverpool, o fim do paradigma italiano

2005: Argentina-Espanha, a primeira página da lenda de Messi

2009: Liverpool-Real Madrid, pesadelo blanco aos pés da besta negra

2009: Chelsea-Barcelona, Ovebro vezes 4, Iniesta e o início do super-Barça​

2010: Barcelona-Real Madrid, a manita ao melhor do mundo​

ANATOMIA DE UM JOGO é uma rubrica de Luís Mateus (@luismateus no Twitter), que recorda grandes jogos de futebol do passado. É publicada de três em três semanas na MFTotal.