O futebol italiano é ainda hoje associado à contenção defensiva, por culpa da influência que o catenaccio de Helenio Herrera granjeou entre as equipas do calcio, tornando-as essencialmente especialistas na cínica arte do engodo antes de desferir o golpe fatal.

O Milan dos finais dos anos 80 é muito diferente. Arrigo Sacchi, influenciado pelo totalvoetbal holandês dos anos 70, monta uma das melhores equipas de todos os tempos. Para isso, muito contribuem os três melhores jogadores do país das tulipas de então – Marco van Basten, Ruud Gullit e Frank Rijkaard –, enquadrados num conjunto pontuado por talento indiscutível (Roberto Donadoni, Paolo Maldini e Franco Baresi) e grande rigor (Ancelotti, Colombo e Costacurta).

A sua entrada no emblema de Milão não é, no entanto, consensual. O profeta de Fusignano, que nunca jogou a alto nível e sobreviveu muitos anos como vendedor de sapatos, contraria todas as críticas que caem sobre si assim que se senta no banco em San Siro. Uma frase ficou famosa:

Nunca pensei que para ser um jockey precisava de ser um cavalo primeiro.»

Vinte anos depois, os rossoneri vencem a terceira Taça dos Clubes Campeões Europeus, e repetirão o feito, no ano seguinte, frente ao Benfica de Sven-Goran Eriksson. É em 1989, em pleno Camp Nou, depois de terem massacrado o Real Madrid na eliminatória anterior, numa espécie de passagem de testemunho entre os dois gigantes continentais, que o seu futebol de pressing alto, linhas subidas, marcação à zona sem líbero e com recurso ao fora de jogo, sentido coletivo e explosão ofensiva atinge o ponto mais alto.

Na manhã seguinte ao jogo com o Steaua, acordei com uma sensação que nunca tinha experimentado. Tinha este pouco usual sabor na minha boca. Apercebi-me que era a apoteose do trabalho da minha vida» (Sacchi)

Gullit marca o primeiro no Camp Nou

O caminho até à final

Milan eliminou o Vitosha (Bulgária), o Estrela Vermelha (Jugoslávia) no desempate por penalties, o Werder Bremen e, como já referido, o Real Madrid, com 1-1 no Bernabéu e 5-0 em casa.

O encontro com o conjunto de Belgrado, na segunda eliminatória, ficara marcado pelo susto que viveu Roberto Donadoni em pleno relvado. O internacional italiano, deixado inconsciente por choque horrível com um adversário, foi salvo pelo médico do conjunto jugoslavo, que lhe quebrou o maxilar para abrir passagem ao ar para os pulmões.

Os romenos deixaram pelo caminho Sparta Praga, Spartak Moscovo, IFK Gotemburgo e Galatasaray.

Um rolo compressor

Perante um Steaua em que pontuavam nomes como Petrescu, Hagi e Lacatus e que tinha vencido pela primeira vez o troféu três anos antes, em Sevilha, numa final decidida nos penáltis com o Barcelona, o Milan entrou decidido a não deixar fugir a oportunidade. A primeira vez que os romenos pisam a área transalpina, numa meia-oportunidade desperdiçada por Piturca, surge apenas aos 41 minutos, com o resultado em 3-0.

Jogámos o nosso melhor futebol desde o primeiro minuto. Foi a demonstração da grande confiança que tínhamos ganho» (Mauro Tassotti)

Abafando por completo o conjunto de Anghel Iordanescu, os italianos massacram no ataque. O primeiro golo surge com naturalidade aos 18 minutos. Colombo atira de longe com o pé esquerdo, e os seus colegas reagem sempre primeiro do que os adversários à defesa incompleta do guarda-redes. Van Basten fez uma primeira recarga, e Gullit tem a segunda logo depois, já sem Lung na baliza, para um 1-0 fácil.

Dez minutos depois, 2-0. O Milan não consegue criar perigo num pontapé de canto, mas reage voraz à perda de bola. Colombo e Donadoni pressionam e a bola chega ao flanco a Tassotti. O lateral cruza, e Van Basten reage primeiro do que Ungureanu, assinando belo cabeceamento para as redes.

Se existe uma exibição perfeita deve ter sido esta» (Mauro Tassotti)

Mais uma imagem do primeiro golo. Guillit marca à segunda recarga

Outros dez minutos, e 3-0. Mais uma recuperação na transição do adversário, a bola chega a Donadoni na esquerda. Gullit segura o cruzamento, e remata de seguido para mais um golo de belo efeito. Estava resolvido.

Mesmo assim, o 4-0 chega minuto e meio depois do intervalo para acabar com dúvidas que ainda houvesse. A passe de Rijkaard, Van Basten remata cruzado para o segundo bis da partida.

Aí sim, o Milan gere. Mas se ganhar por 5-0, 6-0 ou 7-0 não será escândalo. Virdis, que substitui Gullit a meio da segunda parte, falha ele mesmo duas ocasiões, uma quase debaixo da trave.

Cheguei ao fim exausto. Nunca tive em toda a minha vida de lidar com tantos remates» (Silviu Lung)

O que significou

O triunfo do futebol ofensivo mas equilibrado do Milan ajuda a mudar um pouco as mentalidades no futebol italiano, com muito lastro atrás e muita agressividade nas pernas.

Tinha, no entanto, um senão. A filosofia conquista apenas um título italiano e duas Taças dos Campeões em quatro anos, o que parece manifestamente pouco. A abordagem é tão exigente que se torna muito complicado manter o nível durante toda a época. Arrigo Sacchi, meticuloso e obsessivo, consegue aplicá-la nas noites mais importantes.

O onze da final

FICHA DO JOGO

Steaua-Milan, 0-4

Final da Taça dos Clubes Campeões Europeus

Estádio Camp Nou, em Barcelona

24 de maio de 1989

Árbitro: Karl-Heinz Tritschler (Alemanha Federal)

STEAUA – Lung; Petrescu, Ungureanu, Bumbescu e Iovan; Stoica, Minea, Hagi e Rotariu (Balint, 46); Lacatus e Piturca

Treinador: Anghel Iordanescu

MILAN - Galli; Tassotti, Costacurta (Galli, 75), Baresi e Maldini; Colombo, Rijkaard e Ancelotti; Gullit (Virdis, 59), Van Basten e Donadoni

Treinador: Arrigo Sacchi

Marcadores: 1-0, Gullit (18); 2-0, Van Basten (27); 3-0, Gullit (39); 4-0, Van Basten (47)

Primeira parte:

Segunda parte:

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ANATOMIA DE UM JOGO é uma rubrica de Luís Mateus (@luismateus no Twitter), que recorda grandes jogos de futebol do passado. É publicada de três em três semanas na MFTotal.