Ubaldo Fillol foi o melhor guarda-redes argentino de todos os tempos. É verdade que a amostra não é famosa, apesar de um Itália-90 recheado de penáltis defendidos por Sergio Goycoechea e de muitos se lembrarem ainda de El Loco Gatti, mas Fillol era, mais do que todos os que o antecederam e ainda dos que lhe sucederam, um verdadeiro pioneiro. Foi dos primeiros a deixar o conforto dos postes para sair a cruzamentos e apresentava uma elegância fora do comum e uma elasticidade que lhe permitia voos e defesas verdadeiramente incríveis.

Em 1978, a Argentina organiza o seu próprio Mundial, carregado de peso político por culpa da ditadura imposta por uma junta militar. O país das Pampas esquece-se das atrocidades nas ruas com os golos nas canchas e assiste à caminhada da sua seleção até à final, no Monumental de Nuñez, em Buenos Aires. O adversário é uma Laranja Mecânica órfã de Johann Cruijff, mas ainda assim cheia de talento.

Com 0-0 no marcador, a Holanda ameaça. Jansen leva a bola pela direita e cruza para o segundo poste. Dois argentinos atrapalham-se e a bola sobra para Johnny Rep. O remate é fortíssimo, com o pé direito, parece ser indefensável. A distância, a escassos metros, não dá muito tempo de reação. No entanto, Fillol tinha tudo isso: a elasticidade e os reflexos para detê-lo.

Os argentinos recordam hoje tanto os golos de Mario Kempes e Daniel Bertoni, que valeram o primeiro título, como aquela estirada para a esquerda.

«É a defesa que mais recordo na minha carreira. No estádio do River, na baliza que dá para o Rio de la Plata. Imaginem: final do Campeonato do Mundo, com 0-0 no marcador. São coisas que acontecem poucas vezes na vida...»

Pato Fillol nem estava para jogar esse Mundial em casa. Dizia-se que anos antes tinha recusado uma convocatória de César Menotti por este não lhe ter garantido a titularidade. O selecionador reagiu assim: «Ao que parece, Fillol pensa que é Pelé, mas não o é.» Só que Hugo Gatti lesionou-se no joelho e surgiu então a grande oportunidade.

O guardião estreia-se com 18 anos no Quilmes. Em 1972, assina pelo Racing e defende seis penáltis numa época, um recorde. No ano seguinte está no «seu» River para ganhar sete campeonatos. Seguem-se Argentinos Juniors, Flamengo, Atlético Madrid, de novo o Racing, depois o Vélez e o abandono em 1990.

Estreia-se na seleção no Mundial de 1974, num jogo com a Alemanha. Com a albiceleste eliminada, o selecionador Vladislao Cap deixa de fora o titular e o suplente recusa-se a jogar. Vai para o campo o terceiro portero. Fillol, claro. Daí a ser eleito melhor guarda-redes do Mundial daí por quatro anos é um pequeno passo.

Em 1982, está discreto. Falha a fase final de 86, no México, e novo título mundial, depois de ter sido titular em praticamente todos os jogos de qualificação. Pumpido, Zelada e Islas foram os escolhidos por Carlos Bilardo, sem qualquer explicação.

O futebol não tratou Ubaldo Fillol como devia. Ao olharmos novamente para aquela defesa no Monumental percebemos hoje que estava ali tanto do guarda-redes moderno. Nesse ano longínquo de 1978, no Mundial dos papelinhos.

Outras anatomias:

Peter Schmeichel, 26 anos depois de Gordon Banks

Bogdan Lobont: o romeno que se travestiu de Schmeichel em San Siro

A dupla-defesa impossível de Coupet em Camp Nou

San Casillas repete o milagre dois anos depois no Sánchez Pizjuán

David Seaman a puxar a cassete atrás à beira dos 40 anos

Buffon mostra aos 20 anos os primeiros poderes de super-homem

Esqueçam o líbero, este é o Neuer de entre os postes e é do melhor que há

Holandês voador que realmente sabia voar só mesmo Van der Sar

Só Petr Cech é mais rápido do que um pensamento

Dasaev: uma cortina de ferro no último Mundial romântico

Camp Nou, agosto de 2011: a prova que Valdés era tão bom como os melhores