artigo atualizado: hora original 23:41, 17-05-2018

Um amigo meu diz que a filha chorou na terça-feira.

A minha irmã ligou-me em pânico à espera que lhe dissesse que era tudo mentira.

Um outro amigo contou-me que nem tem forças para sair de casa, ir ao café, estar com as pessoas. Tem vergonha. Isso mesmo, vergonha.

Pelo Sporting.

O que aconteceu no domingo, na segunda-feira, na terça de manhã, à tarde e à noite, o que tem acontecido nos sete dias mais trágicos a história do Sporting envergonha a gente de bem.

Eu lamento por eles, mas não deixo de concluir que a vergonha que sentem é a melhor notícia que o Sporting pode ter neste momento. Porque envergonhando-se, honraram o espírito do clube.

O que aconteceu em Alcochete, na agressão aos jogadores e na entrevista de Bruno de Carvalho, foi um ataque direto ao coração do Sporting: ao orgulho dos adeptos em ser sportinguistas.

Ganhar e perder é bom e mau, pode ser sublime ou trágico, mas é só isso. É desporto.

Pode atacar a vaidade, a ostentação ou a altivez, mas não vai mais longe do que isso. Não ataca o brio ou a dignidade. Não ataca a honra.

Os escândalos que têm marcado os últimos dias, nesta presidência de Bruno de Carvalho, atacaram o que de mais sagrado o Sporting tem: o orgulho dos adeptos.

Faz-me lembrar a história do capitão da seleção australiana de críquete que fez batota e que se denunciou, pedindo desculpa. Disse que envergonhou o espírito que é inerente à honra do críquete.

É disso que se trata, de saber que havia um sentido de honra intrínseco ao Sporting, que Bruno de Carvalho quis combater desde o início. O presidente nunca escondeu algum enfado com a conversa de que o Sporting era um clube diferente: para ele não era, era apenas um clube que não ganhava.

Por isso, e para ganhar, estava disposto a tudo. Sempre com o argumento de que o clube tinha sido devolvido ao povo. Como se o povo não pudesse ter orgulho no que era antes o Sporting.

Toda esta conduta levou, de uma forma ou de outra, aos acontecimentos de terça-feira: um clube que se encheu de ódio até cair no absurdo. E cobrir-se de vergonha.

Felizmente cobriu-se de vergonha.

Ter vergonha, lá está, é o melhor sinal de que o espírito do clube está defendido: neste momento só tendo vergonha se pode defender a honra do Sporting.

«Box-to-box» é um espaço de opinião da autoria de Sérgio Pereira, editor do Maisfutebol, que escreve aqui às quintas-feiras de quinze em quinze dias.