*Com Pedro Jorge da Cunha

CAMINHOS DE PORTUGAL é uma rubrica do jornal Maisfutebol que visita o dia-a-dia de determinado clube dos escalões não profissionais. Tantas vezes na sombra, este futebol em estado puro merecerá cada vez mais a nossa atenção. Percorra connosco estes CAMINHOS DE PORTUGAL. 

SANTA MARIA FUTEBOL CLUBE

Diz-se que toda a gente tem direito aos seus 15 minutos de fama. Se transportarmos essa máxima para o futebol, em Barcelos mora uma equipa modesta que ganhou o gosto pela ribalta. O Santa Maria seria mais um emblema humilde do Campeonato Nacional de Seniores (CNS) se não existisse a Taça de Portugal. Mas na «prova rainha», a equipa da freguesia de Galegos, em Barcelos, agiganta-se. E já lá vão dois anos seguidos a tombar gigantes.

Se uma vez pode ser por sorte, repetir a proeza já não é para todos. O Maisfutebol quis saber, portanto, o que tem de especial esta equipa, que ocupa atualmente o 8º lugar da Serie A do CNS. Uma equipa que já em 1991/92 fazia sofrer os maiores clubes de Portugal, como comprova esta reportagem do inesquecível Domingo Desportivo.

 

Francisco Portela, o presidente, não tem dúvidas. É o trabalho que faz a diferença. «Temos uma enorme crença nos valores individuais e coletivos deste clube», explica, em conversa com o nosso jornal.

O Santa Maria é um clube igual e, ao mesmo tempo, diferente de tantos outros no CNS. «Todos vivem um momento delicado a nível financeiro. É uma prova muito ingrata, com despesas elevadas e parcas receitas. Por exemplo, as receitas dos jogos sociais não são pagas há três anos. Estamos a falar de milhares de euros que fazem a diferença», explica o dirigente.

Ao mesmo tempo, lembra o que separa o Santa Maria dos rivais: «Somos um clube de uma aldeia com três mil habitantes a lutar contra equipas de capitais de distrito.»

«As pessoas começam a apaixonar-se pelo Santa Maria»

Se Francisco Portela é o líder do clube, Nuno Sousa comanda a equipa. O técnico sublinha a «estabilidade diretiva» do Santa Maria que ajuda a que a máquina funcione na perfeição. E chama gente ao Estádio da Devesa.

«Nos últimos dois, três anos sinto que há mais adeptos a seguir a equipa. É um clube de freguesia, ambiente familiar e a ligação é boa. As pessoas começam a apaixonar-se pelo Santa Maria», considera.

O treinador recorda que o plantel é «completamente novo» o que se refletiu num início de temporada abaixo das expectativas. «Entraram 13 jogadores novos. Mas estamos agora num ciclo muito bom, com quatro jogos seguidos sem perder. Nos últimos três nem sofremos golos», sublinhou.

TCHIKOULAEV: apelido famoso a comandar a defesa do Santa Maria FC

A vitória na Taça foi, naturalmente, a que mais tinta fez correr. «Tanto a do ano passado, frente ao Nacional, como esta, são fruto da estabilidade», explica Nuno Sousa.

«Quando apanhamos uma equipa grande, o Santa Maria eleva-se e confirma aquilo que eu acho que temos: qualidade técnica e emocional. Os jogadores sentem contra atletas que lhes são superiores que o nosso plano de treino é muito parecido com o deles. Não tenho dúvidas que frente à Académica fomos superiores em muitos períodos do jogo. Aposto que daqui a dois ou três anos, alguns dos meus jogadores vão estar na I Liga», vaticina.

Francisco Portela anui. Afinal esse será a maior vantagem do triunfo, além, claro está, do prestígio inerente. «Estas vitórias ajudam, principalmente, pela visibilidade que dão aos nossos atletas, que são jovens e que nos podem proporcionar bons negócios», lembrou.

O «peladão» onde cresceram Nelson Oliveira ou Hugo Vieira

Ver partir figuras do clube é algo a que, de resto, o Santa Maria está habituado. Também é para isso que trabalha. Do forno do clube de Galegos saíram projetos interessantes. Nelson Oliveira, do Benfica, é o mais conhecido. «É um orgulho ter um jogador formado aqui na seleção nacional», admite o presidente.

Mas há mais. Hugo Vieira, agora no Torpedo Moscovo; Carlos Fonseca, que deu nas vistas no Feirense e está no Slavia Sofia; ou Paulinho, do Gil Vicente.

A formação é boa, mas o clube quer mais. «A nível de infraestruturas estamos longe do que gostaríamos. Temos um relvado, onde treina a equipa sénior todos os dias e depois um ‘peladão’ de 90 metros onde metemos os outros escalões. Temos a ambição de ter um sintético com outras condições, mas, já se sabe, não é fácil», lamenta.

Portela lembra que o clube divide com o Gil Vicente os pedidos camarários o que não ajuda. «Temos de trabalhar com o que temos. Se não há mais, continuaremos a formar os Nelson Oliveira e os Vieiras no pelado», promete.

Para o fim fica o futuro na Taça de Portugal. O Santa Maria recebe o Santa Eulália, também do CNS, em busca de fazer história outra vez. Não pelo nome do adversário, mas porque nunca chegou aos oitavos-de-final.

Nuno Sousa fala numa «crença muito grande» em conseguir. Francisco Portela também acredita e deixa o desejo, caso consiga: «Depois, queremos receber um grande.»