CAMINHOS DE PORTUGAL é uma rubrica do jornal Maisfutebol que visita passado e presente de determinado clube dos escalões não profissionais. Tantas vezes na sombra, este futebol em estado puro merecerá cada vez mais a nossa atenção. Percorra connosco estes CAMINHOS DE PORTUGAL.

 

ALTA DE LISBOA: 9.º classificado Pro-nacional AF Lisboa

Ensurdecedor.

No Complexo Desportivo do Alto do Lumiar, o futebol joga-se em silêncio, por momentos. O grito do mister, o barulho do passe, do remate, da bujarda, da bola nas redes, é substituído por um ruído tal que…nada nem ninguém se faz ouvir.

Nas bancadas, a perceção é exatamente a mesma: como se de uma outra dimensão se tratasse. No relógio marcava 21 horas quando o plantel do Alta de Lisboa subiu ao relvado para mais um treino.

Para lá do muro, o Aeroporto Humberto Delgado continua num vai e vem frenético, entre partidas e chegadas. Um pouco mais calmo, devido à hora, mas bastante audível.

De lá de cima, os pontinhos no relvado iluminado dão as boas-vindas ao país onde o futebol é rei. Lá em baixo, outros aproveitam para se divertir.

Assim que passam a Ponte 25 de abril, avistam logo as luzes do campo. Quando os misters metem muitos pinos no campo brincamos com eles e dizemos que ligaram do aeroporto, porque os aviões confundem as marcações e as luzes, pensam que é a pista e vão aterrar aqui (risos). São 200 metros, mas lá de cima parece perto. “Epá, não me digam!”, disse uma vez um adjunto que acreditou e tirou-os (risos).»

Vítor Gregório é um dos históricos do Alta de Lisboa e o espelho da alegria que o clube vive por estes dias. Depois de eliminar o histórico Salgueiros na Taça de Portugal, o próximo desafio é já no domingo, frente ao Famalicão, equipa da II Liga.

Em conversa com o Maisfutebol, o veterano capitão de equipa não escondeu o desejo de voltar a fazer uma gracinha na prova-rainha, ele que até apontou o golo que deu origem a uma reviravolta impressionante na eliminatória passada (3-2).

«Foi um sonho, tínhamos menos um jogador e demos a volta. Agora é mais difícil, mas vamos aproveitar o momento, divertirmo-nos e jogar sempre em altas, tal como o clube (risos)», contou, já com a voz rouca, depois de ter orientado um treino dos juniores com o barulho das turbinas como fundo.

«Pela minha voz nota-se que o barulho é muito. Quando ando aqui a treinar os miúdos é difícil, tenho de falar mais alto e depois só com chá de cebola (risos). No campo sou a voz de comando e estou sempre a puxar por eles, nem os aviões me impedem. Olhe, ainda não perdemos esta época, portanto continuem a vir os aviões»

Vítor Gregório é o capitão de equipa e a voz do treinador em campo (foto: Rúben Neves, MF)

Uma viagem com ponto de partida mas destino incerto

Aos 37 anos, Vítor voltou atrás na decisão de pendurar as botas para ajudar o clube que conhece desde sempre, mas que mudou de cara em 2005.

A União Desportiva Alto de Lisboa (UDAL) resultou de uma fusão entre o Clube Desportivo da Charneca e o Sporting Clube da Torre. O primeiro era um dos emblemas mais antigos da Associação de Futebol de Lisboa (hoje teria 84 anos), contando no palmarés com um título de campeão distrital em 1999/00 e outros feitos nas modalidades. O Sporting da Torre foi fundado em 1976 e debruçou-se mais sobre o futebol de formação. O campo na Ameixoeira, onde Cristiano Ronaldo ou Quaresma deram os primeiros toques nas camadas jovens do Sporting, foi atropelado por um troço do Eixo Norte-Sul.

Por forma a levar a cabo uma requalificação da zona, a Câmara Municipal de Lisboa propôs, então, a fusão entre os dois emblemas numa única e mais coesa entidade que representasse a «nova» Alta alfacinha.

Una, sim, porém dividida no início.

«Não foi uma fusão pacífica, porque os sócios sentiram que o Charneca iria perder muito, uma vez que era o clube com mais história e mais eclético. Mas o dirigente de então tinha dívidas e foi um pouco empurrado pela Câmara. Perante isto, os adeptos do Charneca nunca apoiaram esta fusão.»

Jorge Malacho, presidente do clube, relatou-nos os primeiros passos do novo emblema.

À época, explicou o dirigente, em troca da fusão, a autarquia local prometeu criar um complexo desportivo e requalificar o Campo Chão do Loureiro, ou Cova Funda, como carinhosamente apelidavam.

Mas, se o Complexo Desportivo do Alto do Lumiar é uma realidade e tem servido de casa ao Alto do Lumiar, apresentando boas condições para a prática desportiva, o mesmo não se pode dizer do velhinho recinto do Charneca.

Treze anos volvidos e o cenário é desolador.

«Está ao abandono. A Câmara fez protocolos, programas de intenções e tal. Por isso, ainda existe o campo e pagamos a renda. É para ali que queríamos ir, esta é uma casa emprestada, não é nossa. Mas até hoje foram só promessas, primeiro diziam que não havia dinheiro, depois pediram para arranjarmos um investidor, o que aconteceu mas viria a atraiçoar-nos. Houve quem tentasse ajudar, mas não deu em nada. Enfim. Fazemos isto por amor e é por aqui que temos de caminhar», vincou o presidente.

Cansada de esperar, a UDAL seguiu a sua vida e foi amadurecendo a olhos vistos. Abriu asas, quiçá inspirada nos vizinhos aviões, e cresceu, cresceu, cresceu, até que…

Quer crescer mais e não pode. Chegou ao topo e não consegue esticar mais. Temos mais de 300 atletas, todos os escalões A e B, mas não podemos fazer mais nada, porque não temos espaço, nem campos. Gostava de ter futebol feminino mas como? Não tenho hipótese. Não nos falta nada a não ser condições e se tivéssemos a nossa antiga casa já seria um apoio.»

O San Siro da Alta

Sem solução à vista quanto à residência oficial, aparentemente, o Alta de Lisboa vê-se forçado a partilhar o Complexo Desportivo do Alto do Lumiar com o Águias da Musgueira (sim, o de Renato Sanches).

«À imagem do que é o Milan e o Inter em San Siro, quando um joga em casa, o outro joga fora. Até os treinos são diferentes», explicou Jorge Malacho, para quem o facto de continuar a haver esta divisão entre clubes da mesma região não faz sentido.

Seria melhor uma nova fusão, total. Fazia-se um clube a sério, com protocolos bem definidos e datados. Tenho a certeza que o clube resultante da fusão andaria a morder os calcanhares dos clubes da II Liga daqui a três ou quatro anos. Com a matéria e as condições que temos, isso pode ser feito, mas só poderia estar aqui um clube. Assim é uma vergonha para a Câmara, porque tem clubes a quererem crescer e não deixa. Acredito que até chegaríamos mais longe do que o antigo Charneca.»

Jorge Malacho foi treinador do Charneca e agora preside à UDAL (foto: Rúben Neves, MF)

Na temporada passada, a UDAL esteve a quatro pontos de subir ao Campeonato de Portugal. Nesta segue invicto (dois jogos em atraso) e tem mais um desafio para a Taça. Dores de cabeça acrescidas para um clube cujo orçamento ronda os 1500 euros mensais para o futebol sénior.

«Neste momento, não tínhamos condições para disputar o Campeonato de Portugal. Sem alguém para nos ajudar num patamar superior seria impossível. Num jogo com o Alverca pagámos 84 euros de policiamento e 180 de arbitragem. Agora na Taça pagaremos mais de 400 euros para policiamento. No CPP era 1000 euros em organização de jogo, impossível para nós», sublinhou.

«Há quem faça 700 quilómetros e vem treinar ao final do dia»

O Complexo Desportivo tem mais olhares do que o costume. O jogo da Taça despertou a curiosidade de mais adeptos e também da comunicação social, o que causou uma reação positiva no grupo de trabalho, orientado por Paulo Henrique, técnico que não tem problema em admitir que os seus jogadores «não são os melhores», mas também «não viram a cara à luta».

«Rumo ao Jamor», gritam uns, «Famalicão já era», insurgem-se outros para os microfones.

Na realidade, quase todos os homens que agora carregam as balizas pelo campo fora, vêm de um longo dia de trabalho.

Vítor Gregório, por exemplo, praticamente não foi a casa naquele dia, entre o trabalho e as funções como técnico dos juniores do clube.

«Não é fácil, às vezes consigo ir a casa e tenho os meus filhos a perguntar se janto. Trabalho das 8h às 18h, na reciclagem do papel e não é fácil. Fazemos por gosto, porque com o orçamento que temos, só ajuda no gasóleo e pouco mais. É bom para desanuviar, sim, mas custa. Temos aqui proprietários de stands, bloqueadores de automóveis (risos), como o Santamaria, que é funcionário da EMEL, malta a trabalhar em centros comerciais, outros na distribuição, a fazer 700 Km por dia e a virem treinar depois, outros ainda que trabalham durante a noite, pegam às 3h. Até barbeiros…o Luís Carlos dá-nos sempre um toquezinho quando pedimos (risos)», revelou.

Plantel da UDAL é um misto de experiência e juventude (Foto: Rúben Neves, MF)

Um grupo de homens movidos pelo amor ao futebol e dispostos a honrar a história do clube. Do novo e dos antigos.

Ainda há pouco tempo, quando foi campeão de juvenis, Vítor foi a Fátima já de madrugada e levou duas camisolas, uma do Alta, outra do extinto clube.

Vim do Charneca e o Saraiva do Sp. Torre. Tentamos transmitir a quem vem o que era o Charneca. Houve muitos que se desligaram do clube devido à fusão, porque dizem que já não lhes diz nada. Antes de ser Alta de Lisboa, sou Charneca, estará sempre dentro de mim e tento incutir esse espírito nestes miúdos, muitos deles que tiramos do bairro e trazemos para o futebol.»

Planos para o futuro só mesmo o tempo o dirá. Pelo menos no que respeita ao clube, porque Vítor já tem tudo pensado: «Se eliminarmos o Famalicão, apanharmos um ‘grande’ e passarmos também, acabo a minha carreira de vez nesse dia (risos).»

Sonhar alto é algo que não incomoda o Alta, mas anda à procura de uma pista maior para levantar voo.

O Maisfutebol entrou em contacto com a Câmara Municipal de Lisboa, mas não obteve qualquer reação por parte da autarquia.