É sim senhor.

É sobretudo a história do miúdo que viveu entre contrastes: Portugal e a Alemanha, pobreza e riqueza, bacalhau com natas e spaetzle.

Mas por partes.

Antes de mais convém desfazer um equívoco. Na véspera do jogo do Sporting com o Schalke, muito se tem escrito sobre o regresso de Cedric a Gelsenkirchen: é falso, não há aqui nenhum regresso. Quanto muito há um regresso, sim, mas à Alemanha.

«O Cedric não nasceu em Gelsenkirchen, nasceu em Singen, no sul da Alemanha» , diz o irmão Kevin Soares ao Maisfutebol.

Kevin Soares, convém referi-lo, é o irmão três anos mais velho de Cedric. Acompanhou-o toda a vida, foi ele por exemplo que o levou para o Sporting aos seis anos de idade, e é também ele que nos vai guiar nesta viagem.

« É uma enorme confusão que começou por surgir no Wikipedia. Talvez por se falar no interesse do Schalke 04 no Cedric, alguém tenha escrito isso.»

«A população da Alemanha usa muito o Wikipedia: nós desconfiamos sempre, eles acreditam muito. Reparei nisso no Colégio Alemão, estão sempre a utilizar o Wikipedia como fonte para tudo. A partir daí tornou-se uma verdade absoluta. Mas é falso. Nós nem sequer conhecemos a cidade de Gelsenkirchen», sorri.

Desfeito este equívoco, convém dizer que as raízes alemãs de Cedric já vêm de longe. Começaram nos avós, tanto paternos como maternos. Os pais conheceram-se aliás na Alemanha, casaram, tiveram dois filhos. Em 1991 nasceu Cedric Soares.

«Os meus pais têm vinte anos de Alemanha.»

Quando Kevin Soares estava quase a fazer seis anos, os pais decidiram que queriam que os filhos estudassem em Portugal. 

O regresso a Portugal e o Colégio Alemão no início de tudo

Por isso fizeram as malas e viajaram para o Montijo. Onde nessa altura já estavam os avós maternos de Cedric e onde aliás ainda hoje vive toda a família: a exceção é precisamente Cedric, que comprou casa em Lisboa, embora vá praticamente todos os dias almoçar a casa da mãe, quando sai da academia ali ao lado, em Alcochete.

«Eu quando vim só falava praticamente alemão. Fiz da primeira à quarta classe no Montijo. Depois em 1998, quando é inaugurada a Ponte Vasco da Gama, o meu pai inscreveu-nos no Colégio Alemão, em Telheiras. Mesmo ao lado do antigo Estádio de Alvalade. Era só passarmos o viaduto e estávamos no campo de treinos.»

Ora nessa altura, com nove anos, Kevin jogava futebol no Samouco.

Com o Sporting ali tão perto, foi só dar um passinho: o pai levou-o aos treinos de captação e ficou, mais tarde Kevin levou o irmão Cedric, que tinha feito seis anos.

«As escolinhas eram para miúdos a partir dos sete anos, mas o mister Luís Dias viu potencial no Cedric e ele ficou. Nós treinávamos às terças e quintas-feiras, ele treinava só às terças e não podia competir. Quando fez sete anos foi inscrito.»

Já passaram dezassete anos. Tirando aliás uma época de empréstimo à Académica, na transição para sénior, Cedric jogou sempre no Sporting. Ele é o jogador do plantel com mais anos de casa: Rui Patrício e Adrien chegaram três anos depois.

«É curioso mas se não fosse a influência alemã, nunca teríamos ido para o Sporting.»

Estudar com meninos ricos, jogar com crianças desfavorecidas 

É curioso também os contrastes que se estabeleciam entre as duas realidades. Foi no meio desses enormes contrastes que Cedric cresceu.

«No Colégio Alemão vivíamos no mundo ideal, colégio privado, onde toda a gente tem muito dinheiro. No Sporting era o oposto, muitos miúdos com graves problemas financeiros, que passavam verdadeiras dificuldades», conta.

«Nós tínhamos de conviver com dois tipos completamente diferentes de pessoas. De manhã estudávamos com o filho do Sócrates, à tarde treinávamos com o filho de uma prostituta. É um exemplo terrível, mas isso acontecia mesmo.»

Kevin diz que sempre se deram bem entre os dois mundos, mas que era complicado: valeu-lhes nessa altura a educação que recebiam em casa.

«Nunca é uma transição suave. No treino não podias contar um episódio que alguém te tinha contado, se não os meninos pobres ficavam revoltados, na escola não podias contar o que ouvias no treino se não os meninos ricos ficavam escandalizados.»

Cedric sempre teve a sorte de ter uma família muito próxima. Todos os dias, por exemplo, depois do Colégio Alemão o avô ia buscá-lo e levá-lo a almoçar ao Montijo, para não ficar das 13 às 18 horas sozinho em Lisboa.

Era nessa altura que enchia a barriga. Spaetlze, salsichas alemãs, bife alemão com molho à caçador, que o lateral ainda hoje compra no Lidl e no Aldi: supermercados onde encontra tudo o que precisa para matar saudades da gastronomia alemã.

No entanto, e apesar de toda a proteção familiar que o envolvia, só com muita força de vontade Cedric nunca desistiu do futebol.

«O Sporting passou a treinar em Pina Manique e ele, com sete, oito, nove anos, apanhava o 50 em Alvalade para Pina Manique. Muitas vezes tentaram assaltá-lo. Mas teve sempre sorte: ou fugia, ou alguém se metia à frente, enfim. Apesar disso nunca quis desistir», conta o irmão.

«Eu sempre tive muito presente na minha cabeça que queria estudar, porque tinha dúvidas que chegasse longe no futebol. Ele nunca teve dúvidas que ia ser jogador.»

Kevin jogou no Sporting quatro anos, depois saiu por vontade própria. Licenciou-se em Gestão de Empresas e hoje trabalha na área do controlo financeiro. Fala bem, com um vocabulário rico, e não diz nada que não seja refletido.

Estudou no Colégio Alemão do 5º ao 12º ano. Cedric, por outro lado, estudou da primeira classe ao nono ano. Os treinos bidiários obrigaram-no a mudar-se depois para uma escola em Alcochete. 

A língua e o muito de alemão que há em Cedric

No Colégio Alemão, refira-se, todas as aulas eram dadas em alemão à exceção de História de Portugal, que era em português. Por isso o alemão flui-lhes naturalmente.

Mas há mais do que apenas a língua dentro de Cedric.

«Há a influência da disciplina, do profissionalismo e da entrega. Se reparar o Cedric não é um lateral de pegar na bola e fintar dois ou três, é muito mais de procurar tabelas. Tem muito aquela filosofia alemã do  ' juntos somos todos e cada um mais fortes do que cada um individualmente ' .» 

Mas há mais.

«É muito rigído com os horários, está em casa sempre antes da meia noite, nunca se diverte depois de um mau resultado, preocupa-se muito com a alimentação, cuida do corpo, quando tem uma lesão trata-se em casa com gelo, enfim...»

Esta noite, quando entrar em campo, vai ser a primeira vez que joga na Alemanha com a camisola do Sporting.

«Vai ser especial para ele. Os meus dois primos e o meu tio que vivem em Singen vão fazer 600 quilómetros para apoiá-lo. Acho que vai ter uma motivação extra.»

O tio fez recentemente aliás mais de mil quilómetros para o ver na Dinamarca. O irmão e os pais foram a Paris, dias antes, ver a estreia pela seleção nacional.

«Praticamente nunca perdemos um jogo dele, em casa ou fora.»

São uma família muito unida: ou não fossem todos eles... sportinguistas.

«Todos. Tenho de pensar muito para me lembrar de um familiar que não seja sportinguista. Eu, o meu irmão, os meus pais, os meus tios, os meus primos, os meus avós, tanto do lado materno como do lado paterno... É tudo sportinguista.»

«Por isso já pode imaginar a alegria do Cedric quando com seis anos foi jogar para o Sporting. Aquilo era um sonho...»

É esse miúdo que conquistou o mister Luís Dias por ser reguila e ter muita genica que esta noite vai entrar em campo, pelas 19.45 horas, no Veltins Arena, com a camisola do Sporting. Provavelmente para cumprir outro sonho.