A batalha jurídica está bem viva porque Evans continua determinado em provar que a justiça inglesa se enganou em condená-lo. Mas há outra luta em curso que está, neste momento, ainda mais quente: a questão moral levantada pelos que não querem um homem condenado por violação a jogar futebol de alto nível.

A Inglaterra está dividida. As espingardas vão-se reunindo, mostram-se os dentes. Até governantes ingleses já se pronunciaram. O caso está a dar anda muito que falar – nas várias questões que levanta.

No Sheffield United desde 2009, Ched Evans realizou em 2011/2012 a sua melhor época de sempre (35 golos em 42 jogos). Foi em abril desse segundo ano que foi para a cadeia. O galês, então com 23 anos, foi cumprir uma pena de cinco anos de prisão pelo crime de ter violado uma rapariga de 19 anos em 2011.

Clayton McDonald, jogador do Walsall na altura, foi para o seu quarto de hotel com a jovem. Ched Evans foi lá ter posteriormente. Ambos tiveram relações sexuais com rapariga. Ambos foram acusados de violação devido ao estado de «intoxicação» em que estava a mulher que declarou não se lembrar de nada do que aconteceu. Ambos se declararam inocentes afirmando que não houve relações sexuais sem o consentimento da rapariga. McDonald foi absolvido. O seu amigo de infância condenado.

Governo pronuncia-se

Ched Evans não teve o pedido de recurso aceite pela justiça inglesa e foi cumprir uma pena que já previa sair em liberdade condicional dois anos e meio depois. A possibilidade de o avançado galês voltar ao Sheffield United começou a ser sussurrada por volta de abril. A primeira grande reação negativa ao seu regresso ao futebol de alto nível foi feita através de uma petição que, no dia da sua saída da prisão, chegou aos 150 mil assinantes.

Na véspera de Evans sair da cadeia, o nº2 do governo inglês avisava o Sheffield United de que os seus dirigentes deverão «pensar muito bem» sobre o assunto – numa citação, feita pelo «The Independent», do governante que foi eleito pelo círculo de Sheffield. A 17 de outubro, Evans saiu da prisão. No dia seguinte, sucederam-se as notícias sobre as questões que vão dividindo as opiniões de cada vez mais ingleses.

Um jornal inglês noticiou que os «blades» tinham oferecido a Evans um contrato de dois anos por 500 mil libras (cerca de 635 mil euros). O clube desmentiu a notícia num comunicado: «Um artigo no The Sun (no sábado) [dia 18] referindo que o Sheffield United ofereceu um contrato ao antigo jogador Ched Evans é falsa e prejudica o clube.» A mesma missiva termina dizendo que os responsáveis do clube continuam «a deliberar sobre qualquer decisão de longo prazo sobre Ched Evans».

Charlie Webster é uma conhecida apresentadora de televisão na Inglaterra que é também embaixadora da fundação do Sheffield United, o seu clube, da cidade onde nasceu. A sua posição foi contundente. «Muito poucas pessoas poderiam regressar ao mesmo emprego como o faziam antes de serem condenadas por violação.» A estrela Webster foi também ela vítima de violação. E é atualmente também membro do mistério da Justiça para as Vítimas. Na «BBC5» tomou uma posição de força ameaçando deixar o clube, como a própria reproduziu nas redes sociais.

A família de Evans está do outro lado da barricada quer na prova da inocência de Ched quer na luta pela sua reabilitação. Um site próprio para a defesa judicial do jogador de futebol está atualizado ao pormenor com todos os argumentos do condenado e todas as falhas que apontam ao processo.

A sua irmã Kylie Evans tem sido uma das mais ativas na refutação quer de notícias, quer na transmissão do apoio de muitos que se manifestam também online. Na defesa de Ched, Kylie não só tem sido eco de vários apoios, como entrou numa guerra particular com Webster – que rotulou de «hipócrita» a propósito de uma confissão a respeito de Mike Tyson (também ele condenado por violação). E também retransmitiu um flagrante da apresentadora apanhado por um dos defensores do seu irmão.

O presidente da Associação de Futebolistas Profissionais manifestou a sua posição dizendo, segundo o «International Business Times», que os britânicos beneficiarão de Evans voltar a jogar por causa dos impostos que ele pagará. Ched Evans quer não só voltar a jogar como quer limpar o seu nome e que se prove que foi erradamente condenado. A estratégia atual dos seus advogados continua a ser a de provar que as relações sexuais com a rapariga de 19 anos foram consentidas e que não houve violação para que seja anuldada a condenação que passou a carregar.

A sucessão de acontecimentos após a sua saída da prisão não tem parado e foi também no dia seguinte que ficou a saber-se que a Comissão de Revisão de Casos Criminais mostrou intenção de analisar o seu caso mais rápido do que é costume. «Normalmente, demoraria cerca de 18 meses para que a comissão examinasse uma alegação de erro judicial», escreve o jornal «The Guardian» frisando que «pelo contrário, a comissão tomou a pouco habitual decisão de examinar o caso de Evans nas próximas semanas» referindo as palavras da própria entidade.

Ched Evans também não se remeteu ao silêncio e, na quinta-feira, publicou um vídeo onde está ao lado da namorada para se desculpar perante os seus, afirmando a sua inocência e mostrando o desejo de voltar a jogar futebol profissional.