Depois do Adeus é uma rubrica do Maisfutebol dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como sobrevivem aqueles que não continuam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para spereira@mediacapital.pt

A conversa com o Maisfutebol acontece enquanto conduz: é extremamente difícil, aliás, encontrar Miguel Simão a fazer outra coisa que não conduzir. Afinal de contas esta é a vida dele hoje em dia e é algo que o faz feliz.

«É transporte de luxo. Transportámos personalidades que vêm ao país, figuras públicas, altos quadros de grandes empresas, enfim», começa por contar.

«Trabalhamos muito com as multinacionais e há várias grandes empresas sediadas no Luxemburgo, levo administradores para a esquerda e para a direita, por isso há sempre trabalho, nunca tenho tempos mortos. Sempre gostei de conduzir e é algo que me dá prazer. Neste momento estou bem e com a minha vida estabilizada.»

Miguel Simão recorda que andar dentro de um carro de luxo a transportar pessoas conhecidas também lhe permite ficar com algumas histórias para contar.

«Olhe, transportei por exemplo o Ennio Morricone quando veio atuar ao Luxemburgo. Levei-o à sala de espetáculos e fiquei lá a ver o concerto, enquanto esperava por ele para o transportar de novo ao hotel. Não gostei da música, não é o meu estilo, mas foi engraçado. Depois, dez minutos antes do fim do concerto, saí para estar dentro do carro com tudo pronto quando ele saísse, tem de ser», lembra.

«Também já transportei pessoas que me reconhecem dos tempos de jogador. Sobretudo os escoceses lembram-se de quando joguei no St. Johnstone. Mas também já aconteceu com um japonês, que até tinha o meu cromo dos tempos do Sanfrecce Hiroshima.»

 

O futebol vem sempre dar à conversa. Afinal de contas é um ponto incontornável na vida de Miguel Simão: foi no futebol que tudo começou.

Os leitores mais jovens podem até não se lembrar, mas Miguel Simão fez parte da Geração de Ouro do futebol português. Foi internacional desde os sub-16 até aos sub-21 e só não esteve no Mundial de Lisboa, em 1991. Vestiu a camisola da Seleção Nacional mais de vinte vezes, nas camadas jovens.

«Tenho várias e grandes memórias desses tempos. Fui campeão europeu de sub-16, fui terceiro classificado no Mundial de sub-17 que se realizou na Escócia, joguei com grandes nomes do futebol mundial como Figo, João Pinto, Jorge Costa, Abel Xavier...», recorda.

«Tínhamos um grupo muito bom. Lembro-me que fazíamos muitos estágios e uma vez, num estágio no Aparthotel do Estoril, desapareceram uma série de gelados. A gerência fez queixa e o Carlos Queiroz quis saber quem tinha roubado os gelados. Nós sabíamos mas ninguém disse. No fim fomos todos castigados mas ninguém acusou o colega.»

Miguel Simão fala a sorrir, percebe-se do outro lado da linha. O futebol traz-lhe gratas memórias.

«Joguei em bons clubes como o Nacional, a Académica, o Salgueiros. Na Escócia joguei na Taça UEFA, inclusivamente fiz um golo ao Mónaco, que ontem perdeu com o meu clube, o FC Porto - pode escrever que o FC Porto é o meu clube, agora já o posso dizer. Estava a ver o jogo e a dizer ao meu filho: estás a ver, o pai jogou naquele estádio. E ele: a sério? Sim, a sério, a sério», adianta.

«Só estive um ano e meio na Escócia, por exemplo, mas tive um impacto muito grande. Ainda no ano passado fui lá homenageado pelos adeptos. Estive lá quatro ou cinco dias, fui ao estádio em dia de jogo, fui ao centro do relvado receber um aplauso e eles cantaram o cântico que me cantavam quando era jogador. Isto 18 anos depois... é sem dúvida qualquer coisa de especial.»

Miguel Simão olha por isso com orgulho para o passado, que começou nas camadas joves do Boavista, passou por Nacional, Feirense, Académica, Salgueiros e Desp. Aves antes de emigrar para o St. Johnstone, da Escócia, e para o Sanfrecce Hiroshima, do Japão, numa passagem breve antes de voltar a Portugal, ao Moreirense e ao Fafe.

«Fiz uma carreira que me permite ir ao youtube e matar saudades, porque o que fiz está lá. Posso dizer que o futebol me deixou momentos bons, que me enchem o coração.»

Foi aliás o futebol que o colocou até onde está hoje: com uma profissão do chauffeur de carros de luxo, estável, no Luxemburgo, ao lado da família e dos amigos.

«Quando saí do Fafe fui jogar para a Alemanha, mas tive uma lesão grave que me obrigou a acabar a carreira profissional aos 32 anos. Já antes disso pensava no que podia fazer após o final da carreira e abri um restaurante em Braga que não correu bem», conta.

«Depois dessa lesão, surgiu a possibilidade de ir jogar para uma equipa amadora no Luxemburgo e através de uma pessoa do clube trabalhar como motorista de um minibus. Foi o que fiz. Entretanto abri também uma lavandaria que ainda mantenho aqui no Luxemburgo. Mais tarde surgiu a possibilidade de deixar os minibus e mudar-me para estar empresa de taxis de luxo e aqui estou.»

Hoje não se arrepende da decisão que tomou.

«A adaptação ao Luxemburgo foi muito fácil, porque há aqui muitos portugueses. Para quem esteve no Japão, o Luxemburgo é como viver em casa. É um país que acolhe bem e onde me tratam com carinho. Neste momento não penso, aliás, regressar a Portugal, até porque o meu filho estuda aqui e tenho a minha vida estabilizada aqui.»

A conversa é interrompida quando Miguel Simão diz que se aproximam uns senhores de gravata que devem ser os clientes que espera. Afinal não são e há tempo para mais uma pergunta: muitas saudades do futebol?

«Muitas, claro. Mas continuo ligado ao jogo, como uma espécie de scout. Como conheço muita gente em África e nos Balcãs, quando vejo um jogador com talento indico-o a clubes portugueses. Para além disso, jogo todos os sábados com amigos. Futebol de cinco, claro, que com esta barriguinha já não dá para correr um campo de futebol todo», sorri.

Os clientes devem estar a chegar e não se ocupa mais tempo a Miguel Simão.

Obrigado e boa viagem.

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