Que esperar das eleições do Benfica?
Duas coisas: isto ou nada.
Isto se houvesse dois ou mais candidatos.
Nada se apenas Luís Filipe Vieira avançasse.
Isto é o que estamos a ver desde o fim-de-semana.
Isto é um conjunto de truques de comunicação, tentativas vãs de ocupar espaço e discutir pessoas em vez de elaborar sobre ideias.
Na verdade, aceito, não há muito para discutir no Benfica.
O treinador só ganhou uma vez, mas nenhum sócio tem uma ideia melhor.
A venda do meio-campo titular deu confusão, mas já passou. E ninguém pode dizer que faria diferente.
As contas não são brilhantes, mas os sócios do Benfica já elegeram uma vez Vale e Azevedo. Ficou provado que o assunto pouco lhes diz.
A estrutura do futebol é pouco clara e o presidente às vezes parece que manda mesmo em tudo aquilo, outras vezes sai de cena. Mas é assim há tantos anos que já ninguém estranha.
O Benfica ganha poucas vezes o campeonato, é verdade. Mas tal sucede desde o início dos anos 90. Nas últimas décadas, o clube festejou apenas três campeonatos. Para muitos benfiquistas, já é normal. Nasceram assim.
O clube lamenta muitas vezes a arbitragem, mas a julgar por programas de televisão e fóruns, parece que todos os adeptos são assim. Os benfiquistas apenas perdem mais vezes do que os portistas.
Na verdade, discutir o Benfica seria procurar resposta para uma única pergunta: como se faz para ganhar ao F.C. Porto?
Seria normal que esse fosse o tema da campanha dos candidatos a presidente do Benfica: diz a realidade que nas últimas décadas temos sido muito mais fracos do que o F.C. Porto, propomos o seguinte para acabar com isso.
Acontece que o tema é delicado. Luís Filipe Vieira ganhou duas vezes, o que é melhor do que Vale e Azevedo. Mas não é grande coisa. Rui Rangel não tem nada que o recomende para esta conversa. Não pode dizer estão a ver, eu fiz assim, deu certo. Não fez, não sabe. Se ganhasse seria mais um a precisar de aprender.
Temos portanto um cenário estranho: há um tema, mas ninguém quer falar sobre ele. Sobra o resto. E o resto, do meu ponto de vista, é nada.
Claro que do ponto de vista dos candidatos não é. Daí as entrevistas, os comunicados, a agitação que vai por blogues e fóruns da cor.
Como não se pode falar sobre o F.C. Porto, discute-se o benfiquismo de cada um. O benfiquismo de Vieira, as quotas pagas a outros emblemas, a lista de Vieira, a passagem de Moniz e Varandas de uma para a outra margem, outra vez o benfiquismo, agora dos que trabalham com Vieira. Por fim as quotas de Rangel e por aí fora.
Discutir o benfiquismo é certamente uma tarefa nobre. Em tempos que já lá vão, o clube chegou a organizar congressos sobre a mística, as assembleias gerais eram concorridas e apaixonadas. Mas livres, apesar de tudo.
Acontece que esse Benfica já não existe. Pelos vistos, ficou desse tempo a vontade de discutir o benfiquismo. Infelizmente, uma discussão enviesada, pobre, pequena. Curiosamente, esta linha de campanha prejudica ambos os candidatos. Rangel não se afirma pela diferença (e podia, se soubesse resistir). Luís Filipe Vieira acentua a ideia de pessoa pouco aberta às opiniões dos outros, incapaz de gerir com segurança as críticas.
Estas eleições estão destinadas a ser mais um momento pouco glorioso da história do clube.
O Benfica merecia mais.