Comecemos pela última, até porque durou meia dúzia de dias. Disse o presidente do Benfica depois da vitória em Guimarães que ninguém parava a equipa. Chegou o Galatasaray e acabou com sete meses sem perder na Luz. O presidente dos «encarnados» estivera muito bem até ter aberto a boca. Falou de mais, como foi costume nos últimos anos.
A versão dos jornais desportivos merece um parágrafo um pouco mais longo. O Benfica tem tantos adeptos como F.C. Porto e Sporting juntos, pelo menos é o que me diz a experiência de quase nove anos à frente do Maisfutebol, acrescentada de outros indicadores. Só os responsáveis editoriais sabem se este facto influencia as análises que assinam e as primeiras páginas que fazem. Mas que, de uma forma geral, tendem a exagerar as qualidades do Benfica. Esse parece-me um dado difícil de contestar (e às vezes até reconhecido, com suave leveza). O exemplo de Guimarães foi apenas o último. O que os «encarnados» jogaram frente ao Vitória foi claramente menos do que os jornais desportivos reflectiram no dia seguinte. Enfim, só eles saberão o motivo.
Por último a versão de Quique Flores, de longe a mais interessante.
O treinador do Benfica tem mantido a coerência. Quando perde e quando ganha, diz sempre o mesmo: ainda não está onde queria. Tem toda a razão. O Benfica ainda não conseguiu 90 minutos equilibrados e para quem deseja ver, os defeitos estão à vista. O potencial também, por isso é justo acreditar que um dia este conjunto de jogadores formará uma equipa forte. Mas a realidade ainda é diferente do desejo.
O treinador tem tido o enorme mérito de não vender gato por lebre, com uma honestidade cativante e uma educação que faz bem ao futebol português. Sem piadas aos rivais, sem discursos redondos, sem murros na mesa, sem hostilizar os seus jogadores. O Benfica precisava de um treinador assim, com dimensão.
Depois, é justo reconhecer que o Benfica está hoje melhor do que há três meses, o que diz alguma coisa sobre o trabalho do treinador. Quique Flores encontrou uma defesa, definiu o meio-campo e tem rodado com oportunidade as unidades da frente, as que mais se desgastam.
O treinador espanhol chegou e montou um sistema. Quatro defesas, dois médios mais ou menos defensivos, dois alas e dois avançados. O perfil dos alas altera-se conforme a opção para a direita é Ruben Amorim, Di María ou Carlos Martins. O ataque também se movimenta de forma distinta com Suazo, Cardozo, Aimar e Nuno Gomes.
Até ver, o sistema de Quique Flores está longe da afinação. Por vezes, o facto de existirem três linhas demasiado estáticas torna o Benfica parecido com um conjunto de «matraquilhos», onde só Suazo se mexe o suficiente para ocupar algum do espaço que sobra. O jogo de quinta-feira foi um exemplo eloquente. O Galatasaray colocou jogadores (Meira e Lincoln, sobretudo este último) entre os sectores «encarnados» e andou mais ou menos por onde quis.
No final, Quique explicou que não adiantava mudar o sistema, até porque os jogadores devem actuar com base no que fazem nos treinos. Tem razão. Mas só em parte. É capaz de ser difícil construir tudo ao mesmo tempo, mas é urgente que o Benfica encontre uma forma de defrontar as equipas que se apoiam em jogadores rápidos, talentosos e fazem do meio-campo a sua força. Aliás, já foram visíveis as dificuldades face a adversários assim em outras ocasiões. Leixões e Penafiel são apenas dois exemplos. O Galatasaray é o último e mais eloquente.
Num jogo como o de ontem, o Benfica poderia ter ficado mais equilibrado com Carlos Martins à frente de Yebda e Katsouranis e Aimar, Suazo e Reyes na frente. Mas, claro, não é assim que o treinador anda a trabalhar e não há razões para desconfiar do que anda a fazer. Esta coerência/teimosia (escolha o leitor) pode é não ser suficiente em algumas noites. Na quinta-feira foi de menos.Comentar este artigo
