José Mourinho é e será sempre um dos melhores treinadores de sempre. Fez evoluir o treino primeiro em Portugal e depois por onde passou, espremeu os jogadores até ao limite da sua qualidade, motivou-os até ao ponto em que cada um deles passou a acreditar que era o melhor do mundo, dominou por completo os mind games, influenciou antes e durante todos os jogos.

Levou o FC Porto a dominar a Europa, o Chelsea a um primeiro título ao fim de 50 anos, o Inter a uma Champions que lhe fugia há 45, conseguindo o primeiro treble de sempre em Itália, e o Real Madrid ao triunfo na liga espanhola perante o melhor Barça de sempre. O Special One foi um revolucionário e terá um capítulo com muitas páginas na história do jogo. Aconteça o que acontecer.

Só que nem todas elas serão assim tão positivas. Os últimos anos, intervalados com um novo título pelo Chelsea, não têm sido brilhantes e são muitas as insinuações de que terá perdido o toque de Midas.

O que Mourinho tinha de inovador ainda há cinco ou seis anos hoje parece obsoleto. Será?

O futebol europeu evoluiu com novas ideias.

Pep Guardiola, apesar de ter o seu Barcelona como sua Némesis, e a goleada sofrida perante o Real Madrid ainda entalada na garganta, procura reinventar-se a cada encontro, acrescentando novas formas de sair da pressão e de criá-la após a perda, bem como de controlo das partidas em posse.

Jurgen Klopp encheu o coração de um Liverpool já de si muito emotivo com ondas de pressão e contra-pressão a um ritmo metaleiro. Antonio Conte reinventou a arte de contra-atacar na squadra azzurra, e conseguiu fazer subir de patamar um Chelsea em crise de identidade, já com alguns triunfos importantes, embora intercalados com uma ou outra escorregadela. Arsène Wenger joga sim um campeonato à parte, sempre à espera de que todos ao mesmo tempo se distraiam e não apareça nenhum Leicester pelo caminho para poder festejar um troféu que lhe foge há demasiados anos.

Olha-se para o rico Manchester United – quantos milhões foram gastos nestes últimos anos (muitos por outros que não Mourinho, claro, mas também pelo português)? – e é talvez o candidato menos entusiasmante e o que terá mais depressa perdido a sua quota parte de favoritismo neste arranque de temporada. É verdade que City, Chelsea e Liverpool já tiveram igualmente momentos menos bons, mas parecem mais perto da consolidação, se é que isso é possível num campeonato com tantos candidatos a chefe.

Se na segunda saída do Chelsea, José Mourinho ainda pôde queixar-se da forma de alguns jogadores, como Ivanovic e sobretudo Hazard, a verdade é que desta vez apanhou a renovação já a meio depois de ter sido quase toda implementada por Van Gaal e coube-lhe a si pensar mais nas peças de puzzle que faltavam para fazer a equipa retomar o sucesso.

Mou já o admitiu: não ganhando nada pelo Manchester United dificilmente irá manter o estatuto de Special One.

Do melhor treinador do mundo espera-se que torne um grupo com uma boa matéria-prima na equipa mais forte em competição.

Se o arranque foi razoável, as derrotas no dérbi, depois em Feyenoord e em Watford fizeram disparar os alarmes.

A humilhação em Stamford Bridge, com erros infantis e muito pouco usuais em equipas trabalhadas pelo português, tornaram esses alarmes bem sonoros, e com luzes de emergência intermitentes.

Claro que seis ou cinco pontos podem ser recuperados em dois jogos, mas já são cinco e seis pontos para vários candidatos. É muito cedo, mas o português não tem muito tempo a perder e há muito ainda a acrescentar aos red devils.

O Tondela pôs a nu alguns problemas do Sporting atual.

Em Portugal, o Sporting salvou-se na última jogada de uma derrota frente a um dos últimos, o Tondela. A equipa de Petit, que continua a colocar problemas aos leões, foi atrevida em vários momentos do jogo e soube depois ser solidária levando um ponto para casa. Elias, o sucessor de Adrien, foi substituído ao intervalo. A equipa de Jesus tem apenas um triunfo nos últimos quatro encontros nas várias competições (por 1-0, em Famalicão) e confirmou a tendência: sempre que jogou depois de um encontro da Liga dos Campeões (Real Madrid, Legia e Dortmund) não venceu.

Percebe-se a influência que Adrien tem nos leões, e sobretudo que aquele esquema ainda mais despovoado no miolo face à saída de João Mario precisa de um jogador que esteja sempre perto da bola a todo o instante. O médio agora lesionado consegue fazê-lo, Elias é outro tipo de jogador. Também há que sublinhar que Dost não é Slimani, é menos agressivo na abordagem defensiva do jogo, além de ser menos móvel nas movimentações ofensivas. Ou seja, é normal que uma equipa sem Adrien, João Mário e Slimani tenha bem menos controlo das partidas.

É aqui que encontro aquela que para mim é uma abordagem muito própria de Jorge Jesus, mas que por enquanto não tem funcionado. Em vez de o treinador ter de encontrar um novo Adrien, como disse após a partida com o Tondela, não faria mais sentido ser a equipa a ir à procura de Elias? Ou de outro qualquer. Não faz mais sentido mudar um pouco a maneira de jogar precisamente porque há um jogador tão influente de fora (e que somada a sua influência à dos que saíram poderá já ser influência a mais a colmatar) e tentar enquadrar melhor quem chega de novo, para benefício de toda a equipa?

No que diz respeito ao pós-Europa, a verdade é que se olha para o Benfica, que até teve uma viagem longa, e as coisas têm funcionado. E mesmo o FC Porto, que falhou após Roma e Copenhaga, já resolve melhor essa mudança de chip. Jesus ainda não encontrou a solução.

A esta altura, não há nada que não a tenha, obviamente. É apenas o assinalar do momento. O leão está a expor algumas das suas fragilidades.

Arouca foi derrotado no Dragão.

Uma palavra ainda para a agonia do europeu Arouca, novo lanterna-vermelha, que estará a pagar precisamente por um início de temporada precoce e o acumular de maus resultados, o último com a atenuante de ter sido no Dragão. No entanto, com um treinador competente como é Lito Vidigal e com um grupo que já mostrou qualidade, acredita-se que o caminho poderá estar perto de ser encontrado.

Uma última para a calendarização da época em Portugal. Já está tudo marcado há algum tempo, mas choca este calendário com duas paragens de duas semanas (Seleção e Taça de Portugal), separadas por duas jornadas. Ainda agora chegámos de uma e já iremos para outra depois do clássico de 6 de novembro, no Dragão. Chama-se a isto anticlímax.

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LUÍS MATEUS é o Diretor do MAISFUTEBOL e pode segui-lo no TWITTER. Além do espaço «Sobe e Desce», é ainda responsável pelas crónicas «Era Capaz de Viver na Bombonera» e «Não crucifiquem mais o Barbosa» e pela rubrica «Anatomia de um Jogo».