Difícil escrever este desce porque parte de um ponto de vista moralista que, desconfio, pode não fazer sentido e ser um mau ponto de partida.

Mesmo assim, tentarei explicar-me.

Do ponto de vista de carreira, Villas-Boas sobe um degrau. Não por o Chelsea ser, hoje em dia, um projecto mais aliciante do que o F.C. Porto.

O grande aliciante do Chelsea, hoje em dia, é ser um clube de topo na Premier League. E é ali e em Espanha que tudo se joga, nenhum de nós terá dúvidas.

Villas-Boas regressa a um clube que conhece e os quinze milhões que Abramovich pagou dizem tudo sobre a convicção do russo de bolsos largos como o mundo.

O problema não está no passo que Villas-Boas dá, mas sim no momento e na forma.

Villas-Boas foi no F.C. Porto mais do que apenas um treinador. Disse-o ele dezenas de vezes, sublinhou por baixo Pinto da Costa. Adepto, treinador, outra vez adepto, por fim treinador.

Acredito que sem maldade e sem vontade de retirar alguma vantagem desse facto, Villas-Boas fez passar a ideia de que estava para ficar. Ele, ainda pouco distante do menino que ia para a bancada, era diferente. Poderia chegar o Real Madrid, o Barcelona, o M. United, qualquer um. Não o disse exactamente assim, mas para os ouvidos dos adeptos era esta a tradução. E ninguém quis fazer uma mais fiel.

Na próxima época, pelo menos na próxima ficaria para fazer o teste da Liga dos campeões. Como Mourinho, como Mourinho pensavam os adeptos. E pensava também Pinto da Costa.

Alguém que tem este tipo de discurso deve ser consequente. Villas-Boas não foi. E tinha obrigação, por respeito ao adeptos e amor ao clube, de ter sido.

Repare, caro leitor, que deixo fora desta equação a estrutura do F.C. Porto e o seu presidente. Toos sabemos que a vida dos dirigentes é usar treinadores como escudo humano, solução fácil para problemas quantas vezes profundos, não raro sem verdadeira reparação.

Não me lembro, assim de repente, de um dirigente que mereça absoluta confiança da parte de um treinador. Todos sabemos que no dia em que a bola teima em não entrar demasiadas vezes seguidas o problema instala-se.

Resumindo: parabéns a Villas-Boas pelo desafio, pela notoriedade, pelo dinheiro. Pena que tenha acabado aos 33 anos uma relação de amor que parecia tão bonita, tão retirada dos livros, tão de antigamente, com um clube que merecia mais. Merecia pelo menos não ter sido iludido.