Há quatro anos que estão na primeira divisão da Federação Trabalhista de Futebol e são tetracampeões. Jogam de azul e branco às riscas e qualquer semelhança com o F.C. Porto não é mera coincidência, já que se trata do F.C. Porto de Bruxelas.

Encontrámos o presidente e alguns jogadores no restaurante «Castiço», o covil do Dragão na capital belga e sede do clube. As portas do «Castiço» são uma espécie de tele-transporte para Portugal.

Na terra da Jupiler, da Leffe, da Duvel, da Stella Artois, e da Hoegaarden, a Super Bock é a rainha da mesa. À volta da sala, duas televisões e uma projeção na parede transmitem o Rio Ave-F.C. Porto.

Nas cadeiras, transformadas em bancadas, há camisolas listadas azuis e brancas e uma grande bandeira dos Dragões descansa encostada a uma parede. Ouve-se mesmo um ou outro palavrão, em português, claro, quando a prestação não agrada.

O encontro termina com um empate que não satisfaz os portistas, mas para o plantel do F.C. Porto de Bruxelas, o jogo é só no dia seguinte.

Ao dizermos que somos do Maisfutebol, a reação imediata é: «Têm de fazer cá um Bola na Barra!!» Enquanto a oportunidade não chega, contam-nos a história do clube e a deles próprios.

«Há benfiquistas que preferiram jogar no Porto»

São 30 os jogadores do F.C. Porto de Bruxelas e, tirando quatro brasileiros e um marroquino, são todos portugueses. Há padeiros, funcionários de limpeza, trabalhadores da construção, contabilistas... E têm todos que ser portistas?

«Não, até temos alguns benfiquistas que, apesar de haver aqui uma equipa do Benfica, preferiram jogar pelo Porto de Bruxelas por causa das pessoas. E em Portugal até são anti-Porto», explica Aníbal Lima, o capitão da equipa.

As rivalidades mantêm-se na Bélgica. «Ainda este fim-de-semana jogámos contra o Belenenses e eles passaram a semana inteira a dizer que nos iam ganhar, que nos queriam apanhar. Somos a equipa a abater».

«Sinto-me um portista daqueles da Ribeira»

Com 32 anos, Aníbal vive há 30 na Bélgica, e desde pequeno que acompanha os jogos dos Dragões. «Vivo longe, mas sinto-me como um portista daqueles da Ribeira», avisa de imediato. Sonhou mesmo vestir a camisola azul e branca.

«Nunca foi uma obsessão, e chega uma altura em que percebemos que o sonho de ser profissional não passa de um sonho. Ficamo-nos pelo futebol amador».

O capitão entrou no clube em 1994, ano da criação da estrutura, e saiu três anos depois para o Boavista, na altura em que o F.C. Porto de Bruxelas terminou. Após um interregno de mais de um ano, o clube reergueu-se, com outro presidente, e Aníbal voltou, trazendo consigo vários jogadores do Boavista.

Depois foi a caminhada para o topo. «Começámos na 4ª divisão e subimos até à 1ª. Há quatro anos, chegou este presidente e, desde então, fomos sempre campeões da 1ª divisão», conta Aníbal Lima, referindo-se a José Carlos Rodrigues.

O Dragão de ouro e o bi-tri

O presidente conta que o orçamento anual destes tetra-campeões é de 10 a 11 mil euros por época, que só consegue graças ao apoio dos patrocinadores.

«São sobretudo empresas portuguesas, mas também algumas belgas. Claro que o palmarés ajuda a atrair patrocínios. Do F.C. Porto, a equipa de Bruxelas recebe apenas um desconto de 20 por cento nos equipamentos oficiais.

Além dos campeonatos, José Carlos Rodrigues não esquece o dia em que recebeu o Dragão de Ouro para melhor delegação internacional.

«Tantos anos de portista, sempre sonhei receber um, só que nunca pensei que acontecesse. É uma coisa que não se esquece, receber o troféu das mãos do nosso presidente». E pediu algumas dicas a Pinto da Costa? «Não houve tempo. Mas acho que também não precisava porque não me está a correr mal. Tenho uma grande equipa».

E o objetivo para o futuro? «Ganhar sempre. Primeiro quero chegar ao penta e depois ao bi-tri».