Mais do que a criminalidade ou mais do que a integração racial, a sida afirma-se como a maior preocupação social deste Mundial. A sida, sim, que é também o verdadeiro flagelo da África do Sul. Há localidades rurais, por exemplo, onde o índice de infectados atinge os 42 por cento. É quase metade da população.

Por isso a FIFA fez do combate à sida a principal batalha social do Mundial. Realizou campanhas de consciencialização, distribuiu preservativos, colocou figuras públicas a alertar para o problema. Fez o que lhe competia. Mas há muita gente que faz mais do que isso. Há gente que faz mais sem receber nada em troca.

O Maisfutebol foi conhecer uma portuguesa que adopta crianças com sida. Chama-se Isilda Félix, vive perto de Pretória e encheu a casa de miúdos. Seis. Três deles têm sida. A aventura começou em 2001 e não parou mais. Ameaça aliás não parar. «Enquanto puder, vou estar aqui para ajudar», garante.

«Fiquei em pânico, tremia por todos os lados»

Isilda têm três filhos naturais e mais uma adoptada. Ora é por causa da filha adoptada, que entretanto já casou e deixou a casa, que esta história começou. «A assistente social perguntou-me se não queria adoptar uma criança negra com sida», diz. «Fiquei em pânico. Tremia por todos os lados, não sabia como reagir.»

Adoptar crianças, garante, sempre foi um sonho dela. Por isso adoptou a mais velha: uma criança branca e saudável que juntou à família. Adoptar uma criança negra com sida é assustador. «Trouxe duas. Uma delas com sete dias e que já tem nove anos.» Hoje tem seis meninas em casa, todas com histórias dramáticas.

A mãe de uma delas, por exemplo, morreu sete dias depois de dar à luz. São todas órfãs ou abandonadas, aliás. «Só uma é que tem uma avó que às vezes a contacta.» Por causa delas Isilda perdeu o sono. «Foram muitas noites no hospital. Felizmente agora, com a alimentação e a medicação certas, a doença está controlada.»

Ora por falar em alimentação e medicação, Isilda conta que por mês gasta 30 mil rands: cerca de três mil euros. Entretanto divorciou-se e deixou tudo para se dedicar às crianças. «São 24 horas por dia para elas», revela. «Só tenho um bocadinho para mim depois das oito da noite, quando elas vão dormir.»

«A sida é um problema que não vai mudar em África»

O dinheiro para a casa vem de ajudas. Uma pequena ajuda do estado, uma grande ajuda de uma fundação portuguesa na África do Sul, alguma comida de estabelecimentos comerciais da zona e donativos de amigos que sempre caem. «Quando Deus sabe que estamos a fazer as coisas bem, ele providencia a ajuda.»

Dinheiro para ela, garante, não guarda nada. «No próximo mês vou a Portugal, mas foi uma amiga que pagou a passagem.» A casa onde vive é grande, mas sem luxos. Há miúdos a correr e gritaria constante. Só não há mãos a medir. «Quando morrer vou sem nada, mas com a alma cheia por saber que dei o que tinha.»

É tudo o que quer. Ela que conhece bem o drama da sida. «É um problema cultural. Cresce todos os dias.» Isilda fala de um empregado na empresa do ex-marido infectado. Tinha a esposa numa pequena aldeia perto da fronteira com o Zimbabwe e um mês antes de morrer foi pedir-lhe que o ajudasse: foi expulso da aldeia.

«As pessoas escondem-se para não serem marginalizadas.» Enquanto isso continuam a ter comportamentos de risco e a trazer crianças ao mundo. «É um problema que não vai acabar nunca na África do Sul.» Nem o Mundial nem a FIFA vão mudar nada. «Mas se tiverem conseguido mudar uma pessoa, já valeu a pena.»