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2009-11-09 23:58h

20 anos após a queda do Muro, memórias do futebol português

Agatão lembra a última vez que uma equipa nacional jogou na Alemanha de LestePor Sérgio Pereira com Luís Pedro Ferreira
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O futebol português cruzou-se várias vezes com a Alemanha Oriental. A última foi dois meses antes da queda do Muro de Berlim. Em Setembro de 1989, o Boavista encontrou o Karl-Marx Stadt em jogo da Taça UEFA. Viviam-se os últimos dias do regime, os últimos dias do muro e das fronteiras fechadas.

O Boavista acabou por ser eliminado, perdeu 1-0 na Alemanha e empatou 2-2 no Bessa. O jogo jamais será esquecido por João Pinto, por exemplo. Fez a estreia na UEFA e marcou os dois golos do Boavista. Mas desse confronto ficou mais do que o resultado. Ficou a memória de uma Alemanha que estava a acabar.

Agatão esteve lá e fala com entusiasmo de uma realidade que tinha os dias contados. Fala de um país pobre, da pressão do regime e do desejo comum de desertar para a Alemanha Ocidental. «No hotel havia vários estudantes, a maior parte deles cubanos. Todos queriam sair para o Ocidente», diz.

«Éramos constantemente abordados por eles, queriam vender-nos calças, recordações, queriam trocar marcos orientais, queriam de todas as formas arranjar dinheiro para fugir para a Alemanha Ocidental. Queixavam-se do regime, queixavam-se da opressão e diziam que tinha de fugir para o outro lado», acrescenta.

Quatro horas na fronteira, sem sair do autocarro

A viagem do Boavista para a Alemanha Oriental foi feita em duas fases: seguiu de avião para Frankfurt, na Alemanha Ocidental, e depois viajou de autocarro para Karl-Marx Stadt. «Era uma cidade a vinte quilómetros de Dresden», conta. «Foi uma viagem muito atribulada por tudo o que a Alemanha significava.»

«Estivemos parados quatro horas na fronteira, sem poder sair do autocarro. A polícia era austera. Examinaram tudo, verificaram todos os passageiros e andaram com espelhos debaixo do autocarro para ver se escondíamos alguma coisa. Na volta a mesma coisa, até porque os alemães de leste não podiam sair.»

Agatão diz que houve coisas que o marcaram mais. «As diferenças entre as duas Alemanhas», conta. «Aterrámos em Frankfurt e confrontámo-nos com duas realidades. Os carros, a forma de vestir, a alegria das pessoas, o sentido que davam à vida. A Alemanha Oriental era muito cinzenta, muito triste, muito pobre.»

Quarenta anos de confrontos entre Portugal e a Alemanha de Leste

O confronto entre o Boavista e o Karl-Marx Stadt foi o último com a Alemanha Oriental, mas não o único. O primeiro foi ainda antes da construção do muro de Berlim. Em 1959, Portugal defrontou a Alemanha Oriental nos oitavos-de-final do Europeu e ganhou os dois jogos (2-0 e 3-2 com golos de Coluna, Cavém e Matateu).

Pelo meio o Benfica, o Sporting, o F.C. Porto, o Leixões e a Académica defrontaram adversários da Alemanha comunista. Uma oportunidade para cada qual se cruzar com uma realidade que já não existe. «Os carros eram todos iguais, os prédios todos iguais, as pessoas vestiam todas da mesma forma.»Comentar este artigo

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