A justiça embrulhada em forma de acaso. Um golo, um mísero golo, a presentear o Rio Ave com três pontos, um luxo na Liga 2009/10. A sentença é justíssima, irrepreensível, mas não deixa de ser preocupante sublinhar que só através de um lance fortuito, Bruno Gama conseguiu bater Mário Felgueiras. As balizas deste campeonato parecem, de facto, ser mais pequenas que as outras.

Falámos de fortuna, mas podemos e devemos também falar de mérito. Este é o exemplo e o momento perfeitos para elogiarmos a estabilidade, a organização, a preparação atempada de um ano de rigores sem fim. O Rio Ave conseguiu-o e as diferenças entre a qualidade de jogo dos nortenhos e do V. Setúbal é demasiado evidente.
Nos homens de Vila do Conde o técnico é o mesmo, a estrutura do plantel transporta ideais defendidos já na pretérita temporada. O esquema mantém-se, a mecanização é muito interessante para esta fase da temporada e os resultados estão à vista. O acaso teve uma palavra a dizer neste triunfo do Rio Ave, mas por uma vez é justo salientar que a sorte protegeu quem mais a procurou e mereceu.
O Vitória reza pela luz
Num 4x3x3 bem oleado e com dois alas - Bruno Gama e Sidnei - em tarde de inspiração, o Rio Ave sufocou a baliza bem defendida por Mário Felgueiras desde o início. Marcou somente aos 36 minutos no tal livre cobrado por Gama, mas já antes o poderia ter feito.
O V. Setúbal defendeu, defendeu, defendeu, com alguma competência é certo, mas chegou a ser confrangedor no ataque. Carlos Azenha está a tentar estabilizar a equipa nos processos defensivos - joga, por isso, com cinco defesas, sendo que Bruno Monteiro funciona como um central com liberdade para sair a jogar - mas na hora de construir os sadinos estão em estado embrionário.
Diríamos, até, que este Vitória é uma equipa fecundada mas longe de dar à luz o que quer que seja. O futebol profissional não se compadece com pedidos de tempo e esperas excessivas. O conjunto de Setúbal tem de crescer rapidamente.
Felgueiras atenua as verdadeiras diferenças
Só pela acção extraordinária de Mário Felgueiras, guarda-redes do V. Setúbal, o desfecho final se manteve sob reserva até ao eclodir do encontro. Mesmo na fase em que os sadinos assomaram mais vezes junto à área do Rio Ave, a baliza sadina foi a que esteve constantemente em perigo.
Nos últimos cinco minutos, por exemplo, Felgueiras teve três intervenções soberbas, que camuflam a real diferença entre os dois contendores. Basta referir, em nota de rodapé, que o primeiro remate do Setúbal no jogo surgiu aos 55 minutos, num desvio de Hélder Barbosa que passou a quilómetros do descansado Carlos Fernandes.
O árbitro Carlos Xistra, tão em foco na última semana, apresentou um trabalho inatacável.