DESTINO: 80's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 80's.

Paulinho Cascavel: FC Porto (1984/85), Vitória de Guimarães (1985 a 1987), Sporting (1987 a 1990) e Gil Vicente (1990/91)

Paulo Roberto Bacinello, conhecido por Paulinho Cascavel, é o convidado desta semana da rubrica Destino:80’s. A viagem do goleador brasileiro começou há mais de 30 anos na Invicta. Sem sucesso, rumou ao Minho onde se destacou tendo, inclusivamente, vencido o prémio de melhor marcador do campeonato. Antes de uma curta passagem pelo Gil Vicente, esteve no Sporting, clube onde terminou a carreira de forma, no mínimo, conturbada.

Durante seis anos, passeou nos relvados portugueses um jogador rápido, dotado tecnicamente e um finalizador nato que apontou mais de uma centena de golos.

Ida para o Berço adiada por uma temporada

Pinto de Costa via o rival Benfica sagrar-se novamente campeão nacional. À procura do seu primeiro título nacional, o novo presidente dos azuis e brancos juntou uma frente de ataque com Paulo Futre, Fernando Gomes, Mike Walsh e Jacques. A meio da época, de forma a colmatar a onda de lesões nos avançados portistas, apostou num avançado brasileiro chamado Paulo Roberto Bacinello.

Oriundo de Cascavel, conselho da região do Estado de Paraná, Paulo Roberto Bacinello chegou para jogar no FC Porto. Pimenta Machado, na altura presidente do clube do Berço, foi quem descobriu Paulinho Cascavel embora as questões monetárias tenham impedido a concretização do negócio. Então por que chega ao FC Porto? Cascavel explica tudo ao Maisfutebol.

«O Pimenta Machado foi ao Brasil ver alguns jogos meus e tentou contratar-me mas não conseguiu a rescisão de contrato com o clube onde eu estava [Joinville]. Então, Pimenta Machado conversou com o Pinto da Costa que lhe tinha dito que vinha ao Brasil à procura de um avançado. O presidente conseguiu a rescisão e acabei por ir para o FC Porto.»

Ainda assim, a época de estreia do brasileiro não correu de feição. Embora o FC Porto tenha celebrado o primeiro campeonato da ‘era Pinto da Costa’, Paulinho Cascavel participou em apenas dois jogos, repartidos entre Taça e Campeonato, e acabou por sair no final da temporada.

«Entrei com o campeonato a decorrer e o FC Porto tinha a melhor equipa do país. Funcionou como um ano de adaptação», considerou, tendo depois rumado ao Minho.

Página dourada do Vitória ao ritmo dos golos de Cascavel

Embora tenha sido pouco utilizado nas Antas, o avançado continuou a ter mercado em Portugal. O facto de ser um sonho antigo do presidente do Vitória, que já o conhecia dos tempos do Brasil, impulsionada pela ida de António Morais - adjunto de José Maria Pedroto nos dragões - para Guimarães, levou-o a trocar a Invicta pelo Minho.

«No FC Porto joguei sobretudo no campeonato de reservas e marquei alguns golos. Surgiu o interesse do Guimarães, não só pelo presidente do Vitória já me ter visto jogar no Brasil, mas também pelo António Morais que me conhecia. Ele apostou em mim e levou-me para Guimarães», confessou.

No clube vimaranense, Paulinho Cascavel desatou a marcar golos. Ao longo de dois anos em Guimarães assinou 54! Na primeira temporada alcançou a marca dos 25 no campeonato, quase metade de golos de toda a equipa na prova (51). O Vitória assegurou o quarto lugar e garantiu a presença na Taça UEFA da época seguinte.

Sai António Morais, entra Marinho Peres. Os resultados da temporada anterior elevam a fasquia. Ainda assim, a equipa do Vitória, realizou, quiçá, uma das épocas mais gloriosas da história do clube. Terceiro lugar no principal escalão do futebol nacional e uma caminhada até aos quartos-de-final da Taça UEFA, terminada frente ao Borussia Monchengladbach.

Paulinho Cascavel recorda essa campanha memorável dos vitorianos que começou com a eliminação do TJ Spartak Praga: empate a um na República Checa e triunfo (2-1) no antigo D. Afonso Henriques com bis de Cascavel.

Seguiu-se o Atlético de Madrid na ronda seguinte. E é precisamente esse jogo que o brasileiro recorda logo quando se fala da epopeia do Vitória na Europa.

Triunfo por 2-0, na 1ª mão, com mais um golo de Cascavel. Vantagem curta para a deslocação ao Vicente Calderón.

«Ninguém acreditava que íamos passar», relembra.

Embora derrotados por 1-0, os vimaranenses garantiram o apuramento.

Ficha de Jogo:

5 de Novembro de 1986

2º mão da 2º ronda da TAÇA UEFA

Estádio Vicente Calderón

Atlético de Madrid: Elduayen; Rúben Bilbao (71’m, Julio Prieto), Tomás Reñores, Miguel Ángel Ruiz, Juan Carlos Arteche; Quique Setién (60’m, Juan José Rubio), Roberto Marina, Chus Landáburu, Paco Levante; Jorge da Silva, Uralde.

Vitória de Guimarães: Jesus; Nenê (55’m, Tozé), Costeado, Miguel, Carvalho; Ademir Alcântara, Nascimento (60’m, Rui Vieira), N’Dinga; Adão, Roldão e Cascavel.

Resultado: 1-0, Jorge da Silva 90’m.

Vídeo da eliminatória:

«Marquei logo ao Porto, mas não tinha nada contra o clube»

Ao serviço do clube minhoto, o seu primeiro clube em Portugal revelou-se a sua ‘vítima’ predileta – quatro jogos contra o Porto, quatro golos. 18 de novembro de 1985, o Vitória recebia o FC Porto. Os dragões saíram derrotados por 2-1, bis de Paulinho Cascavel.

«No primeiro jogo contra o Porto ganhámos 2-1 e eu marquei dois golos. Acabei por ter sorte. Acho que os adeptos do FC Porto não devem ter gostado muito, mas não tinha nada contra o clube. Aliás, tinha uma boa relação com todos.»

Ficha de jogo:

Guimarães, Estádio D. Afonso Henriques

8 de dezembro de 1985

13ª jornada

Vit. Guimarães: Jesus; Miguel, Valério, Tozé e Costeado; Nascimento, Bobó, Gregório Freixo; Adão, Costa e Paulinho Cascavel.

FC Porto: Matos; João Pinto, Eduardo Luís (53, Vermelhinho), Lima Pereira e Laureta; Paquito (80’m Juary), Elói, André; Madjer, Futre e Fernando Gomes.

Marcadores: 2-1, Paulinho Cascavel (12’m e 74’m), Fernando Gomes (81’m)

Video do V. Guimarães-FC Porto 1985/86:

O sucesso de Paulinho Cascavel faz com que, ainda nos dias que correm, seja recordado pelos adeptos vitorianos. Sobretudo quando visita a cidade minhota. Contudo, um dos presentes mais invulgares que recebeu foi quando ainda era jogador do clube.

«Naquela época recebi muitos presentes. Certo dia, estava num restaurante a jantar e um adepto do Vitória convidou-me para ir um beber um copo de de Moet e Chandon. Depois de terminar o meu jantar, fui beber um bocadinho com o adepto. Fiz grandes amizades em Guimarães.».

Embora guarde boas recordações de todos os clubes por onde passou, Paulinho Cascavel confessa-se vitoriano.

«Tenho uma relação muito forte com o Vitória. Foi um clube que me marcou e foi importante na minha carreira. O meu filho nasceu no Guimarães. Vivi anos maravilhosos em Guimarães. Ainda hoje tenho lá casa e sou sempre bem-recebido», referiu.

«Nunca percebi porque carga de água deixei de jogar»

Paulinho Cascavel ruma a Alvalade pela mão de Amado Freitas, presidente dos leões entre 1986/88, e assina um contrato válido por quatro temporadas. No primeiro ano ao serviço do clube de Lisboa, continua a demonstrar a facilidade em marcar golos, 24, e revalida o título de melhor marcador do campeonato.

Face aos números demonstrados pelo avançado, surga o interesse do Mónaco, como revela.

«Na altura houve interesse do Mónaco na minha contratação, mas o Sporting não deixou. Aliás não saí e ainda renovei por mais dois anos», recorda.

Os melhores momentos de Cascavel com a camisola do Sporting:

Três épocas em Alvalade, apenas uma Supertaça. Curto e pouco condizente com a realidade de uma equipa como o Sporting. Sousa Cintra, recém-chegado à presidência do clube leonino, procurou colocar o Sporting na rota dos títulos. E Paulinho Cascavel foi afastado dos treinos do plantel principal.

«Estive quatro meses sem treinar com os meus companheiros. Nunca percebi porque fui afastado. O Marinho Peres [foi seu treinador no 2º ano em Guimarães] nunca me dispensaria. Foi uma decisão da Direção. Ainda hoje não sei por que carga de água deixei de jogar. Nunca faltei a um treino, sempre estive apto para treinar e jogar.»

Aos 31 anos, após quatro meses sem jogar, procurou relançar a carreira ao serviço do Gil Vicente, emprestado pelos leões. Sem grande sucesso e com algumas lesões pelo caminho – 8 jogos em meia época – desvinculou-se do Sporting e regressou à sua cidade natal, em Cascavel.

«Não queria ter acabado a carreira como acabei como é óbvio. Tinha dois anos de contrato e nunca mais joguei. O Sporting acabou por pagar-me esses dois anos de contrato», admitiu.

Terminada a aventura em terras lusas, Paulinho Cascavel regressou aos relvados, precisamente no local onde tudo começou: Clube Recreativo Cascavel, clube onde ainda disputou alguns jogos antes de pendurar as chuteiras.

Número de Cascavel em Portugal:

1984/85 - FC Porto, 2 jogos (nenhum golo marcado)

1985/86 - Vitória Guimarães, 31 jogos (27 golos)

1986/87 – Vitória de Guimarães, 39 jogos (27 golos)

1987/88 – Sporting, 47 jogos (30 golos)

1988/89 – Sporting, 39 jogos (15 golos)

1989/90 – Sporting, 24 jogos (3 golos)

1990/91 – Gil Vicente, 8 jogos (nenhum golo apontado)