DESTINO: 80's é uma nova rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 80's.

PEDRO BARNY: BOAVISTA, SPORTING, BELENENSES e D. AVES, 1984 a 1999

Pedro Barny é uma figura incontornável na história do Boavista, clube que na próxima temporada está de volta ao escalão mais alto do futebol português. O antigo capitão, que comandou a equipa entre a década de oitenta e noventa, nasceu já sócio do clube e com o sangue aos quadradinhos. Foi contemporâneo do regresso do «Boavistão», há mais de vinte anos, numa super-temporada em que também surgiu o termo das «camisolas esquisitas», mas também esteve no «princípio do fim» do reinado dos Loureiro. Fomos encontrá-lo num «período de reflexão», desempregado, «à espera de uma oportunidade», depois de ter percorrido meio mundo como adjunto de Manuel José.

Pedro Barny é ainda hoje um dos jogadores com mais jogos na I Divisão com uma carreira de quinze anos no futebol profissional. Começou no Boavista, mas também vestiu as camisolas do Estrela da Amadora, Sporting, Belenenses e D. Aves. Mas foi no Bessa que nasceu para o futebol. Aliás, quando nasceu, a 20 de julho de 1966, já era sócio do Boavista, tal como o pai e o avô. Barny acabou por seguir as pisadas do avô que, na década de quarenta do século passado, já tinha vestido a camisola dos quadradinhos.

«Cheguei ao Boavista com catorze anos, mas tenho uma ligação ao clube muito anterior. O meu avô, pai do meu pai, chegou a jogar na primeira equipa do Boavista, nos anos quarenta. O meu irmão mais velho também fez a formação toda no Boavista, mas quando chegou a sénior foi emprestado e nunca chegou a jogar na equipa principal», começa por recapitular ao Maisfutebol.

Ao contrário do irmão mais velho, Pedro acabou por chegar a sénior, pela mão de Mário Wilson, numa altura em que o Boavista começava a dar os primeiros passos na formação. «Na altura a formação do Boavista não tinha o destaque que veio a ter mais tarde. Não havia condições de trabalho. Treinávamos num ringue de futebol salão e só mais tarde é que fizeram um campo, mas não tinha iluminação. Treinávamos às escuras», recorda.

Na temporada de 1984/85 é integrado na equipa principal. «O Boavista já tinha grandes figuras, tinha o Alberto, o João Alves, o Carlos Brito, o Filipovic, o Phil Walker. Eu fui entrado e saindo da equipa», recorda. Os primeiros anos no Bessa, de facto, não são fáceis para o jovem Barny e, na temporada de 1988/89, acabou por ser emprestado ao E. Amadora. Acabou por vingar na Reboleira e, ao lado de jogadores como Abel Xavier, Paulo Bento ou Baroti, fez parte da histórica equipa que conquista da Taça de Portugal, em dois jogos com o Farense, em junho de 1990.

Volta ao Bessa para a sua segunda fase no Boavista e afirma-se definitivamente no centro da defesa, primeiro ao lado de Caetano, depois com o ex-benfiquista Samuel. O Boavista acaba em quarto e lança as bases para o regresso do «Boavistão» na época seguinte. «O termo Boavistão já vinha dos anos setenta, mas foi recuperado pela imprensa nessa altura. Fizemos uma grande época. Começámos por ganhar ao Benfica na Luz (1-0), ganhámos ao Inter Milão na Taça UEFA, acabámos em terceiro lugar no campeonato e ganhámos a Taça de Portugal. Não sei se foi a minha melhor época de sempre, mas foi a melhor época no Boavista», atirou sem hesitar.

Uma temporada quase perfeita em 1991/92 numa equipa onde já pontificavam jogadores como Fernando Mendes, Paulo Sousa, Casaca, Bobó. Tavares, João Vieira Pinto, Ricky e Marlon Brandão. O Boavista, como conta Barny, começa a temporada com uma vitória em pleno Estádio da Luz, com um golo de Casaca. «Iniciámos essa época a ganhar na Luz, depois também eliminámos o Benfica na meia-final da Taça e também ganhámos no Bessa para o campeonato. Nessa época, os jogos que não ganhámos com os grandes demos sempre muita luta, foram sempre jogos equilibrados, mas não tivemos sorte com as arbitragens», recorda.

O Boavista acaba em terceiro, com os mesmos pontos do que o Sporting e colado ao Benfica e o FC Porto a fazer a festa. «Até acho que podíamos ter lutado pelo título. Ficámos em terceiro porque na altura não tínhamos experiência para essas guerras com os grandes. Mas serviu para ganhar experiência e o título acabou por chegar mais tarde», acrescenta.

Mas essa temporada foi muito mais do que o campeonato. Logo a abrir a temporada, o Boavista eliminou o «colosso» Inter Milão na Taça UEFA, com uma surpreendente vitória no Bessa (2-1) e um empate de «coração» no «mítico» San Siro. «Tenho esse jogo bem presente. Lembro-me que estávamos no início da época e fomos fazer um estágio ali para os lados de Lamego. Na altura íamos correr para a mata e soubemos pelos jornalistas quem nos tinha calhado no sorteio. A maior parte das pessoas achava que não tínhamos hipóteses, mas nós acreditámos sempre. Já tínhamos eliminado a Fiorentina e a Lazio e tivemos eliminatórias equilibradas com o Torino e o Nápoles. Sabíamos o que podíamos fazer contra os italianos», recorda.

Mas este Inter não era apenas uma equipa italiana, tinha, entre outras estrelas, três campeões do Mundo: Lothar Matthäus, Andreas Brehme e Jürgen Klinsmann . «O Inter era uma grande equipa. Tinham ganho a Taça UEFA na época anterior e na altura, em que as equipas só podiam jogar com três estrangeiros, tinham três internacionais alemães . Era um verdadeiro colosso». Mas a verdade é que o Boavista venceu o primeiro jogo por 2-1. Marlon Brandão abriu o marcador na primeira parte e o nosso protagonista Pedro Barny, a passe de Nelo, fez o 2-0. «Para mim foi especial porque marcava poucos golos e esse foi um jogo histórico para o clube, foi o jogo em que apareceu o termo das camisolas esquisitas, como dizia a imprensa italiana. Fizemos um grande jogo, controlámos o jogo quase todo e até podíamos ter ganho por mais. Tivemos muitas ocasiões de golo».

Os jornais italianos ficaram surpreendidos com as «camisolas esquisitas», mas estavam convictos que o grande Inter ia dar a volta em casa. Nova surpresa. «Fomos ao mítico San Siro. Os italianos não acreditavam que podiam ser eliminados. Entraram fortes, nós aguentámos com muito coração, mas depois eles perceberam que não iam conseguir. Foram surpreendidos», recorda.

O Boavista não foi muito mais longe e acabou eliminado, na ronda seguinte, pelo Torino. Mas a época acabaria em grande. Depois de eliminar o Benfica na meia-final da Taça de Portugal, Pedro Barny conquistou a sua segunda Taça de Portugal com uma vitória sobre o FC Porto no Jamor (2-1).

Uma grande temporada de Pedro Barny que acabou por atrair a atenção do Sporting. Mas o capitão do Boavista não sabia. «Acabava contrato com o Boavista esse ano e na altura não sabia que havia interesse do Sporting. Num almoço com Valentim Loureiro, fui convidado para renovar. Dois dias depois assinava pelo Sporting. Assinei por três anos, mas só fiquei lá no primeiro».

Era o Sporting de Bobby Robson. Pedro Barny conquistou o seu lugar ao lado do holandês Stan Valckx e somou 35 jogos com a camisola dos leões. No final da época foi surpreendido com uma proposta para regressar ao Bessa no histórico «verão quente» de 1993. A notícia apareceu primeiro nos jornais. A equipa de Alvalade tinha ficado sem guarda-redes e negociava dois de uma assentada com o Boavista – Lemajic e Costinha. O clube do Bessa exigia o regresso do defesa. Confrontado com essa possibilidade e com o «orgulho ferido», Barny acabou por aceitar. O maior erro da sua carreira, diz agora.

«Há distância, avaliando o que se passou depois, acho que cometi um erro. Trabalhei tanto para chegar ali e, ao fim, de um ano, acabei por voltar ao sitio onde estava sem dar luta. Acabei por ceder. Hoje provavelmente não tinha aceite, mas na altura mexeu com o meu orgulho. O Sporting não fez um bom campeonato, foi eliminado na Taça pelo Boavista, e as coisas não estavam bem. O Sporting estava a investir muito com a chegada de Carlos Queiroz, foi buscar o Pacheco e o Paulo Sousa ao Benfica... Agora arrependo-me, mas não altura fiz o que achava que tinha de fazer», destaca.

Tinha mais dois anos de contrato com o Sporting, mas acabou por os cumprir no Bessa. Depois ainda fez mais três temporadas no Belenenses em bom nível, antes de encerrar a carreira, aos 33 anos, no D. Aves. Mas o Bessa nunca ficou longe da vista.

O Boavista, sob o comando da família Loureiro, continuou a crescer. Foi campeão em 2001 e em 2003 inaugurou o novo Estádio do Bessa. Era definitivamente o «quarto grande». Foi um clube completamente diferente que Pedro Barny encontrou quando voltou em 2004. «Depois de terminar a carreira afastei-me e voltei em 2004, a convite do João Freitas, para formar um departamento de scouting e de observação, mas acabei por trabalhar com Jaime Pacheco. Comecei por observar jogos e potenciais reforços. Era tudo completamente diferente, não só ao nível das infraestuturas, mas também com os problemas financeiros. Foi o princípio do fim. Não se falava noutra coisa», lembra.

Jaime Pacheco acaba por deixar o clube no final da época e Pedro Barny é surpreendido por um convite de João Loureiro para assumir as rédeas da equipa técnica. «É o novo José Mourinho», anunciou o então presidente com pompa e circunstância. «Na altura falava-se muito do José Mourinho, estava a aparecer e servia de exemplo para todos os jovens treinadores. Mas o o presidente João Loureiro, além da comparação, podia ter apostado mais, mas não apostou». No início da época chegava Jesualdo Ferreira e Barny caía para adjunto.

A situação voltaria a repetir-se quando o professor rumou ao FC Porto. «Fui convidado para treinar a equipa principal, mas não chegou a haver acordo. Mais tarde João Loureiro disse-me que foi o maior erro que cometeu no Boavista». Veio o sérvio Zeljko Petrovik e Barny fica mais uma vez como adjunto. «Na altura pedi a demissão, mas tinha contrato e não me deixaram sair. Acabei por sair mais tarde, quando Petrovik foi demitido, saiu o treinador e toda a equipa técnica».

A partir daqui a relação de Pedro Barny com o Boavista passou a ser turbulenta. O clube tinha acumulado dívidas para com o seu antigo jogador. «Acabei por ser muito prejudicado. Tentei vários entendimentos ao longo dos anos, mas nunca foram cumpridos. Tentei com a anterior direção, com a atual direção, mas eram sempre acordos feitos, acordos falhados». Os processos arrastaram-se em tribunais, mas o coração «axadrezado» de Barny acabou por ceder. «Fui levantando os impedimentos para que o clube pudesse regularizar a sua situação. Nada me move contra o clube, entendo que está numa situação muito complicada», acrescentou.

Há um ano, a vida do Boavista voltou a dar uma volta de 180 graus com a confirmação que na temporada de 2014/15 estaria de volta à Liga. «Estou fora do processo, mas reparo que o clube acaba por voltar da mesma forma que saiu, de forma administrativa. Espero que agora façam as coisas de forma sustentada, que não tenham a tentação de entrar pelos mesmos caminhos que os levou àquela situação. Se for assim, não vale a pena, mas não sei de nada, não sei como é que as coisas estão a ser feitas», comentou Barny.

Já esta semana, o Boavista confirmou que Petit vai continuar a comandar a equipa na próxima época. «Ele já fazia parte da formação quando saí. Depois andou a rodar, mas fomos tendo alguns contatos. Se foi ele que liderou a equipa nesta altura difícil, é justo que seja ele agora a ficar com a equipa. É a pessoa mais indicada», destacou ainda o antigo capitão que vê com bons olhos o renascimento da sua equipa. «Acho que o Boavista faz falta ao campeonato. Era uma equipa muito competitiva e funcionava como uma locomotiva para os clubes mais pequenos. A rivalidade com o V. Guimarães e com o Sp. Braga acaba por puxar pelas equipas mais pequenas. Mesmo o Marítimo, Belenenses ou o V. Setúbal beneficiavam com isso. Todos queriam deitar abaixo o Boavista e isso trazia maior competitividade. O Boavista era a grande referência, toda a gente queria destronar o Boavista. O primeiro ano vai ser muito difícil, mas o Boavista vai trazer mais competição ao campeonato. Sou a favor de uma liga com mais equipas», referiu.

Pedro Barny ainda fez duas temporadas como treinador principal do Sp. Espinho e deixou o lugar para o jovem Pedro Martins para aceitar um convite «irrecusável» para ser adjunto de Manuel José na Seleção de Angola que ia disputar a CAN-2010. «Criei uma relação especial com o Manuel José. Depois fui com ele para a Arábia Saudita, depois fomos treinar o Al-Ahly, no Egito e o Persópolis, no Irão».

E agora? «Agora estou desempregado, num período de reflexão, à espera de um convite. Gostava de voltar a trabalhar como treinador principal», conta ainda o antigo capitão do Boavista.