DESTINO: 80's é uma nova rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 80's.

ELÓI: FC PORTO, 1985 a 1987; BOAVISTA, 1988/89

Em abril de 1987, «mais para o finalzinho do mês», Elói cometeu «a maior imbecilidade» da sua vida. Rescindiu o contrato com o FC Porto e foi para o Brasil. Sem saber, perdeu a possibilidade de estar presente na gloriosa final de Viena.

«Foi estupidez minha», lamenta, a 27 anos de distância. «Não sei o que me deu na cabeça. Eu amava jogar, amava, e ficar de fora das opções [de Artur Jorge] cada vez me custava mais. Fui impulsivo, um jovem imbecil».

FOTOS PERIGOSAS EM FARO E JANTARES EM CASA DE PINTO DA COSTA

Calma, caro Elói. Não se martirize mais, sugerimos. Afinal, em dois anos no FC Porto - 1985 a 1987 - o talentoso médio esquerdino foi campeão nacional, venceu uma Supertaça e participou na caminhada até à final da Taça dos Campeões Europeus.

Nunca se afirmou como titular indiscutível, certo, mas apresenta um registo interessante: 28 jogos oficiais, 12 golos.

9-0 ao Rabat Ajax: o segundo golo é de Elói (1986/87):

Não adianta. Elói insiste. «Repare bem: eu assisti a essa final e à da neve, contra o Peñarol. Senti que devia estar lá com os meus companheiros do FC Porto. Tive dois anos bons e, por precipitação, afastei-me antes dos melhores momentos. Castigo-me por isso».

Há atenuantes importantes no caso de Elói. O FC Porto tinha, por essa altura, alguns meses de salários em atraso. A isso, o brasileiro, agora com 59 anos, acrescenta a tal «utilização irregular» na equipa inicial dos azuis e brancos.

«Na altura não entendi a importância do momento para o clube e, claro, para mim. Estávamos a meio de uma gloriosa presença na Europa e eu pensei mais em mim. O Artur Jorge disse-me, mais tarde, que eu devia ter aproveitado mais as minhas qualidades e o meu tempo no Porto».

Dois golaços de Elói em Chaves (1985/86):

Elói vive no Rio de Janeiro e é agente de jogadores. Foi treinador durante vários anos [Anapolina-GO, Ceará, XV de Jaú e América-RJ] e continua a seguir os jogos do FC Porto e Boavista. Sim, é importante lembrar que o brasileiro jogou nos dois gigantes da Cidade Invicta.

A ligação ao FC Porto nasceu em 1985 e em território neutro. Na Suíça. «Eu tinha saído do Génova [jogou em Itália de 1983 a 85] e estava há poucos meses no Botafogo. Fomos fazer um estágio à Europa e jogámos contra o Porto. No final do jogo conheci o senhor Pinto da Costa».

Ficou logo ali assente que Elói seria reforço. Os dragões, na altura, pouco ligavam ao BI. O brasileiro tinha 30 anos e muita qualidade. Nos primeiros dias em Portugal tornou-se «o maior portista» do planeta.

«Antes de um treino, o meu amigo Lima Pereira e o Fernando Gomes vieram ter comigo: «hoje vens almoçar connosco». Bem, acabei esse almoço a gostar mais do FC Porto do que eles (risos). Fizeram-me uma bela lavagem», recorda, sempre numa educação gentil.

Números de Elói em Portugal:

. 1985/86: FC Porto, 16 jogos/7 golos oficiais

. 1986/87: FC Porto, 12 jogos/5 golos oficiais

. 1988/89: Boavista, 21 jogos/4 golos no campeonato

Não fosse «uma lesão grave» a treinar «num campo pelado» [teria sido na Constituição?] e Elói só teria elogios para essa primeira temporada de dragão ao peito. Ou será que não?

«O início foi difícil. Num dos primeiros jogos, contra o Benfica (Supertaça, 0-0), o Artur Jorge substituiu-me aos 27 minutos. Estranhei, não estava a jogar mal, mas aceitei. Só uns dias depois é que entendi tudo».

No estágio para o jogo seguinte, já no hotel, o treinador convidou Elói para uma conversa deliciosa. «Ele viu-me a passar e chamou-me: ’brasileiro, anda cá. Vou explicar-te uma coisa: nesta equipa, o único que tem a minha autorização para fazer chapéus aos adversários é o Madjer. Estamos entendidos?’ Caiu-me tudo!»

No jogo contra o Benfica, Elói recebeu uma bola e levantou-a sobre um defesa. Artur Jorge irritou-se. «Atenção, estamos a falar de um grande senhor, no melhor treinador que tive em toda a vida. Mas nessas coisas ele era assim. Antes de poder inventar, eu tinha de ter crédito. E aí ainda não tinha».

O golo de Elói no jogo do título (1985/86):

Artur Jorge podia ser «duro», até «militarista», mas sabia de futebol «como ninguém» e tinha um discurso «absolutamente fantástico». «A voz dele ecoava no balneário e ninguém tirava os olhos dele».

Sem surpresa, continua Elói, o FC Porto celebrou o campeonato nacional de 1986. O último jogo encheu as Antas. Bancadas a abarrotar, bandeiras agitadas ao vento e um convidado impertinente. O Sp. Covilhã esteve a vencer por 1-2 e ao intervalo quase caía o Carmo e a Trindade.

«A tensão emocional na equipa era tão grande, tão intensa, que eu tive uma cãibra ao marcar o quarto [e último] golo do FC Porto. Recebi um passe do Juary e encostei de pé esquerdo. Nunca mais tive uma cãibra na vida».

Elói fez aí os 90 minutos e prometeu tornar-se o patrão do meio-campo no ano seguinte. Falhou. Por culpa própria, como admite, e por culpa do técnico, «um admirador do jogador-tipo do FC Porto, formado no clube».

Tudo junto, Elói cometeu a maior imbecilidade do seu trajeto desportivo. Antes das meias-finais contra o Dínamo Kiev voltou ao Brasil, para o América, e falhou as finais de Viena e Tóquio.