DESTINO: 80's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis . DESTINO: 80's.

LUISINHO: Sporting (1989 a 1992)

Classe. Era impossível começar um artigo sobre Luisinho com outra palavra. Numa era em que o central era, essencialmente, um duro, os que fugiam desse padrão e mostravam categoria são, até hoje, recordados. Como Luisinho, o brasileiro que comandou a defesa do Sporting na viragem da década de 80.

Contratado ao Atlético Mineiro já com 31 anos de idade, Luisinho assume que se tivesse vindo mais novo, provavelmente, não voltava ao Brasil. «Adorei Portugal, adoro os portugueses. Manda um abraço para todos os sportinguistas que tão bem me trataram», pede. «Por causa deles sou leão para sempre», acrescenta.

O Maisfutebol encontrou, via telefone, Luisinho no seu estado de sempre, Minas Gerais. Gere atualmente um ginásio em Nova Lima, uma cidade perto da capital Belo Horizonte, onde fez história com a camisola dos dois maiores clubes, Atlético e Cruzeiro.

«Vou jogando com alguns antigos atletas do Atlético Mineiro. Vamos fazendo alguns shows de futebol, o que é bom para matar saudades e rever os amigos», confessa.

Mas o tema que mais nos interessa é mesmo a passagem pelo Sporting. «Fui por intermédio do Douglas e do sogro dele», conta.

«Tinha uma proposta da Fiorentina, mas eu achei melhor ir para Portugal. Tinha os filhos pequenos, já conhecia o Douglas que ainda hoje é meu amigo e a língua também era a mesma. Escolhi o Sporting, foi muito fácil convencer-me e não me arrependi nada», garante.

O Sporting de 1989 era treinado por Manuel José. Luisinho começou por ser suplente da dupla Venâncio-Miguel, mas rapidamente agarrou o lugar. Além de Douglas, amigo até hoje por também ser de Minas Gerais, aquele Sporting tinha outros brasileiros como Silas, João Luis, Valtinho, Marlon Brandão ou Paulinho Cascavel. «Facilitou a integração, claro», assume Luisinho.

«O Sporting tinha uma boa equipa, mas não estava a conseguir títulos. Estava bem estruturado. Só fiquei chateado e sinto que foi uma mancha no meu currículo por não ter conseguido um grande título», lamenta.

O Sporting de Luisinho

«Com os diretores era muita confusão, muito ‘ti ti ti’»

Os elogios de Luisinho ao Sporting são dirigidos a jogadores, estrutura técnica e presidente, Sousa Cintra. A categoria dos restantes dirigente fica de fora.

Aliás, é neles que o brasileiro credita parte do atraso do Sporting para Benfica e FC Porto no final dos anos 80. «O problema não era a equipa. A equipa era boa. Mas ganhar títulos não depende só dos jogadores», defende.

«Tínhamos um grande presidente, mas acho que alguns diretores deixavam um pouco a desejar. Muita confusão, muito ‘ti ti ti’. Para ganhar tínhamos de estar todos a remar para o mesmo lado. Não se ganha apenas dentro do campo», considera.

A eliminatória com o Nápoles, na Taça UEFA de 1989/90, ficou-lhe marcada. «Acho que foi a grande oportunidade que tivemos. Se tivéssemos passado o Nápoles, que era uma grande equipa com Careca e Maradona, acho que ficávamos lançados para um título que o Sporting muito merecia. O jogo que perdemos nos penaltis marcou-me muito», assume.

Do plantel, além dos brasileiros, guarda gratas memórias de muita gente. «Foi muito bom ver crescer o Figo, por exemplo», diz.

«Ah, e o Oceano claro…Era um sportinguista daqueles…Era um leão, um exemplo de força de vontade. Depois havia outros com muita qualidade, como o Litos, o Carlos Xavier, o Venâncio, que jogava ao meu lado na defesa, o Gomes na frente. Muita gente boa», elogia.

Luisinho em ação frente a Klinsmann

Os números de Luisinho em Portugal:

1989/90: Sporting, 28 jogos (3 golos)

1990/91: Sporting, 24 jogos

1991/92: Sporting, 34 jogos

«Não batia porque aprendi com grandes treinadores»

De Luisinho dizia-se que jogava de pantufas. Era o tal central limpinho, que saía a jogar com categoria e desarmava com limpeza. Dizia-se que não batia. Lembramos isso e o brasileiro ri à gargalhada.

«Para jogar assim também é preciso ter a sorte de ter o dom que Deus deu», brinca. Dito por outras palavras: não é para qualquer um.

Luisinho explica: «Muitas vezes a formação de um jogador não depende só do deu talento, mas dos treinadores. Eu tive a sorte de aprender com grandes treinadores. Como o Telé Santana, que dizia-me sempre para jogar o futebol que eu sabia. E quem sabe jogar não precisa bater.»

Luisinho durante o Espanha 82

O ex-leão diz que «ainda há muito central que bate» e que isso também revela os treinadores que tiveram. «Para segurar o cargo, as indicações muitas vezes são simples: tirar da área e tirar da frente. Cada um tem o seu estilo, claro, mas depende sempre do treinador», insiste.

Além disso, estes são tempos diferentes no futebol, considera Luisinho. «A década de 90, para mim, foi a última em que o futebol tinha muitos grandes jogadores. Agora há menos. Até no Brasil. O futebol está mais padronizado e o futebol arte está a acabar», lamenta.

«Gostava de ter saído de outra forma do Sporting»

Luisinho deixou o Sporting no início da época 1992/93, quando nada o fazia prever. Um desentendimento com a direção precipitou um regresso ao Brasil, onde jogou no Cruzeiro, rival do «seu» Atlético Mineiro.

«A saída? Eu conto a história. Treinei num sábado de manhã e ligaram-me do Brasil a avisar que a minha sogra tinha sido internada. Como só voltava a treinar na segunda-feira de tarde, apanhei o primeiro avião para o Brasil ainda no sábado e no domingo à noite voltei. Segunda estava no treino à hora. É verdade que não avisei que ia ao Brasil, mas eu estava de folga e não faltei a nenhum treino», assegura.

Ainda assim, aquela viagem ditou-lhe o destino. «Houve um diretor que não gostou, começaram a surgir boatos, a inventar coisas, deu uma confusão e eu resolvi tudo. Disse que se não estavam satisfeitos então eu ia embora. E fui. Fiquei um pouco chateado na altura, gostava de ter saído de outra forma», comenta.

Do tempo que jogou em Portugal guarda também memórias das batalhas travadas. «Pela rivalidade, os jogos mais duros eram contra o Benfica», define. E explica: «Naquela semana já se sentia uma pressão diferente para se ganhar o jogo.»

«Também fiz muitos clássicos aqui em Belo Horizonte, Cruzeiro-Atlético. Aqui fui mais feliz, em Portugal perdi mais do que ganhei», atira, sem jeito.

Um FC Porto-Sporting com golo de Luisinho em 1989/90:

Além das memórias, em Portugal ganhou amigos. Lembra o padre de Alcabideche com quem ainda costuma falar, além de vários amigos em Oeiras. Mas também no futebol: «Costumo falar ao telefone com o Oceano e o Figo manda sempre mensagem a desejar bom ano na passagem de ano.»

«Ainda costumo ver os jogos do Sporting, é uma equipa que luta muito. Hoje em dia, se tirarmos o Barcelona e o Bayern as outras equipas são quase todas iguais, mais jogador, menos jogador. Não se vê aqueles craques diferenciados. Aquele toque de bola refinado. É muita luta, os jogadores correm 16 ou 17 km. É um futebol diferente», considera.

«Aconselhei o Ronaldo Fenómeno a Sousa Cintra»

Já quase em final de conversa e numa altura em que falava da relação com Luís Figo, Luisinho lembra uma história curiosa. «Como disse, eu vi o Figo nascer para o futebol e posso dizer, ainda, que vi outro grande craque aparecer, também, que foi o Ronaldinho, o Fenómeno», recorda.

Quando deixou o Sporting, Luisinho reforçou o Cruzeiro onde, pouco depois, o miúdo Ronaldo começava a despontar. «Ele era incrível. Vi aquele talento e liguei ao Sousa Cintra a dizer que tinha de o vir comprar», conta.

Mas o negócio nunca se fez: «Ele disse que era muito caro para alguém tão novo e que no Brasil havia muitos talentos. Pouco depois o Ronaldo explodiu…»

Luisinho ao serviço do Sporting:

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