[A 24 de março de 2016 o Maisfutebol entrevistou Caio Júnior para a rubrica DESTINO: 80'S. Em junho, o antigo jogador de V. Guimarães, Estrela da Amadora e Belenenses assumiu o comando técnico do Chapecoense. Nesta terça-feira, numa altura em que escrevia páginas históricas, a equipa brasileira foi ferida de morte num trágico acidente de avião. Caio Júnior estava na aeronave.]

DESTINO: 80's
é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis . DESTINO: 80's.

CAIO JÚNIOR: V. Guimarães (1987-1992), Estrela da Amadora (1992-1994) e Belenenses (1994/95)

Branco imaculado, camisola, calção, meias. Raramente sujos. A classe de Caio Júnior não o permitia. Para ele, o significado do jogo habitava na bola e a bola adorava o seu pé direito.

Caio foi um dos bons avançados do futebol nas décadas de 80 e 90. Cinco temporadas no Vitória Guimarães, mais duas na Amadora e uma no Restelo, para a despedida.

Nesse Vitória, Caio era o cérebro por trás das mais rebuscadas operações, o assassino silencioso, raramente exposto ao perigo. Subtil e preciso, inteligente e repentino. Quase 50 golos em Portugal e ainda mais memória.

A partir do Dubai, onde treina agora o Shabab, Caio Júnior atende o Maisfutebol com a delicadeza que destilava nos relvados. Educado e prestável com o golo, educado e prestável com o jornalista.

«Cheguei em 87 a Guimarães, com um ano de atraso. Devia ter ido antes, mas o Grémio não deixou. O Ademir Alcântara foi sozinho. O senhor Pimenta Machado [antigo presidente] viu-me num Gre-Nal e assinei por quatro temporadas. Fui com o Bené e o René».

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                                        Caio Júnior (em baixo, ao centro) com Valdo no Grémio
 

Começa assim a conversa com Caio Júnior, comunicador por excelência. A saudade, a boa saudade, toma conta do argumento e os nomes do passado saem incessantes.

 

«Fiz uma grande dupla com o Chiquinho Carlos, mais tarde com o Ziad. E também com o Décio António. Mas as minhas melhores temporadas foram a quarta e quinta em Guimarães, com o João Alves», recorda Caio Júnior.

João Alves é, de resto, personagem prioritária na relação entre Caio e Portugal. «Foi meu treinador em Guimarães, no Estrela e no Belenenses. Foi ele que me recuou no terreno, para segundo avançado, e que melhor percebeu o meu futebol».

PERCURSO DE CAIO JÚNIOR EM PORTUGAL:

. 1987/1988: V. Guimarães (31 jogos, 8 golos), 14º lugar

. 1988/1989: V. Guimarães (10 jogos, 0 golos), 10º

. 1989/1990: V. Guimarães (23 jogos, 9 golos), 4º

. 1990/1991: V. Guimarães (18 jogos, 5 golos), 9º

. 1991/1992: V. Guimarães (24 jogos, 5 golos), 5º

. 1992/1993: E. Amadora (33 jogos, 11 golos), 1º II Liga

. 1993/1994: E. Amadora (21 jogos, 2 golos), 9º lugar

. 1994/1995: Belenenses (13 jogos, 2 golos), 12º lugar

 

TOTAL: 173 jogos, 42 golos
Troféus: Supertaça (1988)

28 de agosto de 1989, tarde do melhor jogo de Caio em Portugal. Vitória-Benfica, 1-1, golos do avançado brasileiro e de Mats Magnusson.

«O Neno brilhou na nossa baliza, mas joguei muito, sim senhor. Tudo me saiu bem. Receções, dribles, passes, tudo isso com o nosso estádio cheio», conta Caio Júnior, como se estivesse novamente na Cidade-Berço, a controlar a bola de pé direito.

Esse Vitória, é importante sublinhar, olhava os três grandes nos olhos. Corajoso e audaz. Jogava regularmente as competições europeias e chateava qualquer um que ousasse pontuar em Guimarães.

«A maior diferença estava no investimento financeiro. O FC Porto e o Benfica eram os mais fortes, o Sporting ficava um pouco atrás. Mas dentro de campo o Vitória equilibrava sempre».

                                           Caio Júnior em ação contra o Felgueiras na Taça
 

Caio tinha uma apetência especial para marcar ao Sporting, embora também tenha feito golos ao Benfica e ao FC Porto. Nos jogos contra os dragões, porém, Caio já sabia que ia sofrer. Literalmente. Fisicamente.

 

«A nossa maior rivalidade era com o Porto. Via coisas em campo que me indignavam. Entradas violentas, uma loucura. O FC Porto era fortíssimo, um dos melhores clubes da Europa, e quando não ganhavam… aquilo fervia».

Caio, a correção em pessoa, chegou a ser expulso contra os dragões. Por culpa, diz, de João Pinto.

«Veja bem: sofri um penálti do Vitor Baía e o Paulo Bento marcou. Logo depois, recebo na direita, passo pelo Paulo Pereira e ele faz falta clara. Seria o segundo penálti, mas o árbitro não assinalou e deu-me um amarelo. Inacreditável. Perto do intervalo, há um lance normal e o João Pinto provoca o nosso choque. Amarelo para os dois, vermelho para mim. Essa expulsão revoltou-me. Eu não fazia uma falta e fui expulso contra o Porto».

O jogo acabou empatado: 1-1.

Um golo de Caio Júnior em Alvalade (25 segundos):

O defesa mais implacável era, recorda Caio Júnior, outro: «Fernando Couto». «Menino, ele estava a começar a jogar e já tinha a escola toda. Central fantástico, mas excessivo».

Do Benfica, Caio Júnior lembra-se essencialmente de Valdo - «meu colega nos tempos do Grémio» - e do Sporting recorda um golo importante a Vitor Damas. «Grande goleiro, meti-lhe a bola pelo meio das pernas».

João Alves é, no entanto, figura central nestas memórias. Quase sempre de sorriso nos lábios. «Havia nele uma dose equilibrada de génio e loucura. Era um homem especial, de uma sensibilidade anormal. Lembro-me bem do ocorrido num Famalicão-Estrela».

Aqui vamos nós.

«O jogo era para a Taça (oitavos de final) e o Famalicão era treinado pelo Abel Braga. Eu jogava sempre, era o número dez do Estrela. Nesse jogo, antes do aquecimento, o João vem ter comigo e pergunta: ‘Caio, o que achas? Jogas de início ou ficas no banco e entras para decidir?’ Eu disse que queria ser titular, claro, mas o João lá me disse ‘hoje, não’».

                                  Carlos, Ricardo, Edmundo, Calado, Abel Xavier e Frederico (cima)
                                         Zé Albano, Caio Júnior, Baroti, Agatão e Fonseca (baixo)

 

No papel apresentado à equipa e aos jornalistas, Caio ficava no banco e de início jogava Agatão. Toda a gente se equipou, deu o grito habitual no balneário e encaminharam-se para o túnel. A poucos instantes da entrada no relvado, João Alves surge aos gritos.

 

‘Vamos fazer uma troca! Joga o Caio e o Agatão fica na bancada!’

«O João Alves viu que o Famalicão ia jogar com mais um central, o Garrido, e em cima da hora fez aquilo. Para surpreender, claro. Bem, foi perfeito. Em 15 minutos o jogo estava resolvido. Ganhámos 1-3».

Foi João Alves, no seu jeito muito próprio, quem convenceu Caio Júnior a jogar na II Liga «pela primeira vez» na carreira.

«Disse que íamos subir e formou uma equipa de respeito. Muito ofensiva, toda a gente fazia golos. Eu fiz 12, o Ricardo (extremo) e o Zé Albano 12 também, o falecido Ivan marcou 13. E ainda tínhamos o Abel Xavier, o Calado, o Zezé Gomes, o Fonseca, o Edmundo, o Frederico e o Hubart, excelente guarda-redes».

Caio Júnior, campeão gaúcho e vencedor da Libertadores com o Grémio, em Portugal ganhou uma Supertaça e uma legião de fãs. Saiu do nosso país em 1995 e construiu uma importante carreira de treinador.

O estilo mantém-se inconfundível: classe e serenidade. Caio Júnior, um dos melhores avançados da liga portuguesa nas décadas de 80 e 90.

NOTA: todas as fotos foram retiradas do blog Glórias do Passado

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