DESTINO 90's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 90's.

LEANDRO: Sporting (1997 a 1999) e Santa Clara (2002/03)

Talento, fantasia, mas também uma personalidade que chocou várias vezes com os responsáveis do Sporting. Leandro Machado, avançado brasileiro que esteve ano e meio em Alvalade na segunda metade da década de 90, poderá ser um homem a dividir opiniões nos seguidores da equipa leonina. Não era unânime. Oscilava. Era falível, como qualquer homem, no fundo.

Passados estes anos, Leandro garante estar diferente. Aliás, garante ter ficado diferente pouco depois de sair do Sporting. Mais focado, menos irreverente. Uma lesão grave mudou-lhe a forma de jogar e colocou-lhe um travão em euforias que nada acrescentavam ao seu jogo.

O Maisfutebol conversou com Leandro, hoje um empresário ligado ao futebol, e encontrou um homem consciente do que fez e do que não fez e poderia ter feito.

«Hoje até costumo dar muitos exemplos meus aos meus atletas para os alertar sobre o que não devem fazer», conta, referindo-se ao trabalho como empresário, na mesma empresa de Jorge Machado.

Leandro viveu, de facto, algumas situações complicadas fora do relvado. Garante que não teve culpa em todas. Assume-a em algumas. «Amo Lisboa, aliás o meu pai queria morar aí. Fui muito novo para a Europa, sem família e infelizmente as coisas em Portugal não correram muito bem. Aconteceu muita coisa», atira.



«Gostava de me ter focado mais fora do campo. Em Portugal vivi uma fase difícil. Se fosse mais profissional teria atingido outro nível», assume.

A verdade é que, no primeiro ano, foi um jogador muito importante no Sporting. Marcou 15 golos, por exemplo. Chegou a Alvalade em 1997, vindo do Valencia para um Sporting a entrar num ano de reboliço.

Octávio Machado começou a época, foi rendido por Francisco Vital, que deu o lugar a Vincente Cantatore, que aguentou três jogos. Carlos Manuel terminou a temporada. Muita mudança.

Não ajudou, embora Leandro garante que a adaptação a Lisboa foi rápida: « Vinha de Valência. Já estava habituado à Europa. Mas sempre gostei de conhecer novas culturas, sempre fui muito curioso. Joguei no México, na Coreia…»

«Octávio foi um paizão, dava-me muitos conselhos»

No Sporting, o treinador que mais marcou Leandro foi precisamente o primeiro que encontrou, Octávio Machado, agora diretor desportivo dos leões. «Vi-o no banco há dias. Fiquei contente», comenta Leandro.

«Ele pegava muito no meu pé, mas era a pessoa que mais me ajudava. Gostava muito dele. Era um paizão, dava-me muitos conselhos. Sei que ele tinha fama de durão, mas é bom para os jogadores. Foi o treinador que tive que mais pedia profissionalismo aos jogadores», elogia.

Com Octávio viveu uma fase interessante, no arranque. Marcou, por exemplo, dois golos ao Beitar de Jerusalém na eliminatória de acesso à Liga dos Campeões, ambos de cabeça, depois de Iordanov ter aberto o ativo, num triunfo por 3-0.



Um jogo marcante, mas não o único. «Lembro-me de um hat-trick ao Belenenses, num jogo muito importante para mim porque estava a voltar depois de um problema disciplinar que me afastou da equipa. Estava meio tenso e deu tudo certo», desabafa.

«Também um golo ao Mónaco, em que recebo um passe de três dedos do Pedro Barbosa para marcar. Um belo golo também, na altura fez o 3-0. Ainda um pontapé de bicicleta ao Estrela da Amadora. Fiz alguns belos golos no Sporting», diz, para encerrar o capítulo.

O golo ao Mónaco:



Os números de Leandro em Portugal

1997/98: Sporting, 38 jogos (15 golos)
1998/99: Sporting, 10 jogos (3 golos)
2002/03: Santa Clara, 3 jogos

As desculpas a Carlos Manuel para um programa de TV

Nem só dentro do campo, como se disse, deu nas vistas Leandro durante a passagem pelo Sporting. Na memória coletiva ficou um episódio porventura irrepetível, nos tempos atuais, em que um programa de televisão patrocinou um pedido de desculpas do brasileiro a Carlos Manuel, na época treinador do Sporting.

A recordação arranca gargalhadas ao brasileiro. «Lembro-me bem. Bem…o que os meus companheiros zoaram de mim», atira entre risos.

«Fiquei meio sem jeito, apresentaram-me a ideia, eu nem sabia bem como ia ser aquilo. Em cima da hora pegaram num bolo, colocaram na minha mão para eu entregar. Eu não sabia de nada, não sabia o que dizer. Acho que era o aniversário dele [Carlos Manuel]. Foi muito estranho, foi uma surpresa, fiquei sem jeito. Olhe, até o Jorge Mendes estava lá…», conta.

Do balneário leonino guarda boas memórias. Oceano e Pedro Barbosa eram os que mais conselhos lhe davam, conta. Mas há muita gente de quem ainda se lembra.

«Havia o Simão Sabrosa, que era um miúdo muito talentoso. Dos portugueses dava-me muito bem com o Beto. Também o Pedro Martins. Havia alguma divisão por causa dos estrangeiros. O Afonso Martins falava francês e andava mais com o Lang, o Saber e os outros marroquinos. Eu juntava-me mais aos portugueses, ao Gimenez, «El Tigre» Ramirez…», enumera.

Não fez tudo certo, como diz, mas também não guarda arrependimentos. Ficou famosa também uma «aventura» noturna em Albufeira com Bruno Giménez, por exemplo.

«Eram coisas da idade, estava sozinho na Europa. Conhece-se muita gente, há a vida noturna…Faz parte. Depois a gente cresce. Devia ter feito mais pelo Sporting, mas não me arrependo de nada», assegura.



«Ivkovic estava sempre a provocar-me»

A saída do Sporting acontece a meio da segunda época. A relação com Mirko Jozic nunca foi boa. «Saí porque tive problemas com ele», assume.

«Gostava que ele tivesse sido sincero comigo. Se não contava comigo, se não me queria, deveria ter dito. Não gostei como fez as coisas. Fui percebendo que não me queria pela forma como ia conduzindo as coisas», desabafa.

E aponta exemplos: « Havia aquele adjunto grandão, que foi guarda-redes…Ivkovic! Isso! Ele provocava-me muito. Estava sempre a provocar-me. Culpava-me de todos os maus resultados. Estava sempre a picar-me e eu era explosivo, as coisas não eram fáceis.»

Num jogo com o V. Guimarães, no Minho, tudo se precipitou. Foi a última vez que vestiu a camisola verde e branca. «Estávamos a ganhar 1-0, sofremos o empate pouco depois de eu entrar e levei com as culpas. Discuti no balneário e tudo. No dia seguinte treinei à parte e nunca mais joguei no Sporting», recorda.

Não foi a última vez que jogou em Portugal, contudo. Em 2002/03 foi apresentado como reforço do Santa Clara, mas chegou um duro revés logo ao segundo treino.

«Fomos treinar para um local muito frio, relvado gelado e ao apoiar o pé senti uma dor incrível no joelho. Estava a chegar, era o segundo treino e tive até vergonha de falar. O clube tinha apostado em mim, fiquei sem saber o que fazer», lamenta.

Fez apenas os últimos três jogos da época pelos açorianos, que não evitaram a descida de Divisão. «Foi uma pena, porque foi numa fase em que estava mais centrado e queria aproveitar a oportunidade para chegar a outros voos», lembra.

«Divido a minha carreira em duas fases. Antes e depois de ter estourado o joelho. Aconteceu no Flamengo, já depois da primeira passagem pela Europa. Fiquei limitado e na altura até se falava que podia ir à seleção. No Valência e no Sporting, era um avançado móvel, depois fiquei mais jogador de área. São coisas que marcaram a minha carreira. Essa lesão e também uma passagem com pouco profissionalismo pelo Sporting», encerra.


Leandro nos tempos atuais

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