DESTINO: 90's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 90's.

MISSÉ MISSÉ: Sporting (1996/1997)

Agosto de 1996, Estádio Dr. Vieira de Carvalho, Maia.
Sp. Espinho, 1 Sporting, 3

«Jornalista: Como é que falhou aquele golo de baliza aberta?
Missé Missé: Estou com um quilo a mais, lamento.»


Sentença popular: culpado de tudo, 'flop', avançado estéril, personagem icónica de um Sporting débil.

Seria Jean Jacques Missé Missé assim tão mau?
O Maisfutebol gosta de ouvir todas as partes. Somos assim, lutamos pela justiça. Missé Missé, 20 anos depois, tem o direito à resposta.

A todas as piadas, aos comentários de mau gosto, até à insistente comparação com o compatriota Roger Milla, o glorificado.

ENTREVISTA A MISSÉ MISSÉ: «Aboubakar pode até ser melhor do que eu»

Missé Missé chegou a Alvalade com dez internacionalizações (e quatro golos) pela seleção dos Camarões, além de três temporadas boas no pequeno Charleroi: 37 golos no total.

No Sporting fez cinco jogos oficiais e saiu com polémica no final da época 1996/97. Diziam que tinha um timing horrível nas áreas adversárias. Acusação indecorosa.  

Apanhámo-lo em Gent, Bélgica, a meio de uma viagem de metro. Simpático, paciente, recorda «um dos piores capítulos» da carreira como se nada tivesse ocorrido. Um cavalheiro. Mesmo quando faz uma advertência ao jornalista.

«'Monsieur', é falso que não tenha feito golos no Sporting. Fiz uma excelente pré-época e marquei à Real Sociedad e ao Torino».

MISSÉ MISSÉ: os cinco jogos no Sporting

. 23/08/1996: Sp. Espinho-Sporting, 1-3 (69 minutos)
. 06/09/1996: Sporting-Sp. Farense, 0-0 (56 minutos)
. 10/09/1996: Montpellier-Sporting, 1-1 (90 minutos)
. 14/09/1996: Rio Ave-Sporting, 3-4 (2 minutos)
. 19/10/1996: V. Guimarães-Sporting, 0-1 (10 minutos)

Cai a chamada, Missé Missé foge-nos por instantes, até o recuperarmos. «Desculpe, é provável que o telefonema vá abaixo mais vezes. Como lhe dizia: eu, o Ouattara e o Amunike estivemos muito bem na pré-temporada. Depois, o treinador estragou o que construiu».

O treinador, vale a pena lembrar, era Robert Waseige. Um belga que durou até ao Natal de 1996 em Lisboa. Sugerimos, pois, a Missé Missé outra ideia pelos vistos errada: então não veio para o Sporting a pedido de Waseige?

«Não, não, não. Todos pensavam isso, é falso. Fui contratado pelo senhor Norton de Matos. Ele conhecia bem a liga belga e as pessoas da direção do Sporting. O Waseige aceitou a sugestão dele e fui contratado. Eu e o Filip De Wilde, o guarda-redes».

«O Sá Pinto não me passava a bola»

O esplendor de Missé-Missé na pré-temporada não teve sequela nos jogos oficiais. A relação entre clube e jogador tornou-se penosa. O camaronês lamenta, aceita, mas diz que a culpa não foi só dele.

«Os internacionais portugueses chegaram mais tarde – Sá Pinto, Paulo Alves, Oceano, Pedro Barbosa – e tudo mudou. Deixaram de me passar a bola! O Sá Pinto, então… os adeptos adoravam jogadas individuais e os meus colegas abusavam. A equipa era muito jovem».

E consequências? «Tornei-me um avançado egoísta também. E tudo piorou para mim. Deixei de jogar, colocaram-me a treinar à parte, ensinaram-me várias coisas. O quê? Que um clube pode fazer o que quiser para indicar a porta de saída a um jogador».   

Missé Missé não pretende a polémica. Confirma que tudo acabou nos tribunais. «Está resolvido».

O ex-avançado mantém uma boa amizade com Robert Waseige e fica a saber, pelo nosso jornal, que Octávio Machado está de volta ao Sporting. Cai a chamada, Missé Missé mantém o mau timing para estas coisas.

«Com esse senhor não adiantava treinar bem, tentar agradar. Tinha as suas ideias. Não foi ele o culpado. Tive um problema com as Finanças, quiseram entregar à minha mulher uma quantia absurda de dinheiro para fugirmos aos impostos… o que lá vai, lá vai».

«Prefiro recordar o bom jogo que fiz contra o Montpellier».

Missé Missé: assistência para Hadji em Montpellier (1m10s):



Esses 90 minutos na Taça UEFA fazem Missé Missé sorrir.

«Empatámos e joguei os 90 minutos. Ofereci o golo ao Hadji. Sabe o que aconteceu no jogo seguinte? Joguei dois minutos contra o Rio Ave [em Vila do Conde]. Apeteceu-me desistir».

Missé Missé está radicado na Bélgica. Trabalha num pequeno clube da cidade de Gent e é embaixador de uma Academia de Futebol em Yaoundé, nos Camarões. Continua a amar o futebol.

«Estou bem, levo uma vida tranquila, amo a minha família e o meu trabalho. Envio cumprimentos aos adeptos do Sporting, nunca me fizeram mal. Era tudo gente boa. Fico triste por não ter conseguido fazer mais pelo clube».

Chamada interrompida. No momento certo, 'timing' perfeito.

Já nem há tempo para a despedida, só para olhar os clubes por onde passou Missé Missé depois de Alvalade: Trabzonspor (Turquia), Dundee United (Escócia), Chesterfield (Inglaterra), La Louvière (Bélgica), Ethnikos (Grécia) e Oostende (Bélgica).  

Missé Missé, inesquecível. Será que ele sabe que até teve direito a uma música?