DESTINO: 90'sDESTINO: 90's

JOSÉ TAIRA: BELENENSES, 1989-94, 95/96; E. AMADORA, 1994/95; SALAMANCA, 1996/00; SEVILHA, 2000/02; FARENSE, 2002/03; ORIENTAL, 2003/04

A vida não foi fácil para José Taira que foi subindo na carreira de revés em revés, mas sem nunca abdicar dos seus sonhos. No final dos anos oitenta era apontado como uma das promessas da formação do Restelo, mas quando chegou a sénior foi dispensado pelo treinador Henry Depireux. «Foi uma desilusão, fui para o Montijo jogar na II Divisão. Acabei por fazer duas boas época e fui resgatado pelo Belenenses», recorda. Primeiro revés ultrapassado. Seguem-se quatro temporadas em crescendo no Restelo, com uma subida de divisão pelo meio, com Taira a ganhar espaço na equipa, num clube que passava por um período muito complicado.

1991/92: Belenenses-Feirense, 2-0 (golo de Taira)

Na temporada de 1994/95, Taira recebeu um convite de João Alves para assinar pelo Estrela da Amadora. Ficava estabelecida uma relação que iria ter forte influência na carreira de Taira. Mas antes disso, novo revés. «Era um projeto aliciante e o João Alves contava comigo, mas quinze dias antes de começar o campeonato, o João Alves saiu em guerra com a direção», recorda. Com Acácio Casemiro à frente da equipa da Reboleira, Taira praticamente não calçou. Foi apenas utilizado em sete jogos, quase sempre na condição de suplente. «Havia muitos interesses naquela altura e eu tinha sido contratado por João Alves».

Belenenses a jogar de olhos fechados

Um ano quase perdido, mas o «luvas pretas» não se esqueceu de Taira. «Ele foi para o Belenenses no ano seguinte e foi buscar-me para formar uma grande equipa». De facto, é nesse ano que o clube do Restelo volta a levantar a cabeça, terminando o campeonato no sexto lugar, às portas da Europa. Além de Taira, faziam parte dessa equipa nomes como Ivkovic, Pedro Barny, Paulo Madeira, o atual treinador Lito Vidigal, Fernando Mendes, Lula, Tonanha, Basaúla, Giovanella, Tulipa, Mauro Airez, Chiquinho Conde, César Brito e Catanha. «Foi um ano em que o Belenenses jogava quase de olhos fechados. Tinha um treinador que era um grande conhecedor do futebol português e um grande plantel». Taira era titular indiscutível, mais do que isso, era o pêndulo de uma equipa que marcava muitos golos e entusiasmava.

1995/96: Belenenses-E. Amadora, 4-1 (golo de Taira)

A grande equipa teve vida curta e acabou por desmembrar-se no final da temporada, com a direção de José António Matias a vender praticamente todo o plantel. João Alves rumou a Salamanca e com ele levou Taira, Ivkovic, Giovanella, César Brito, Catanha e até Pauleta. O avançado açoriano tinha acabado de ser contratado ao Estoril, mas não chegou a vestir a camisola com a cruz de Cristo, nem nunca viria a jogar no principal escalão do futebol português. «Saiu o treinador e saíram quase todos os jogadores, incluindo o Pauleta que tinha acabado de chegar. O Belenenses passava por dificuldades e eu também optei por ir para fora». Taira ruma a Salamanca como pedra nuclear no projeto de João Alves.

O Salamanca passou a ser conhecido como a «equipa dos portugueses». «Mas não havia qualquer xenofobia nisso, pelo contrário. Demos credibilidade ao jogador português, éramos muito bem vistos», lembra. Uma temporada em grande com o Salamanca a superar as melhores expetativas e subir da II para a I Divisão. «Foi uma grande festa, veio tudo para a rua. Para mim foi um marco na carreira, pelo aspeto desportivo». A receita resultou e o Salamanca viria a ficar ainda mais português com as sucessivas chegadas de Nuno Afonso, Paulo Torres, Agostinho e Tulipa.

1997/98: Salamanca-At. Madrid, 5-4

Aos 28 anos, Taira estava na sua melhor forma e nesse mesmo ano de 1996 foi chamado pela primeira vez à Seleção Nacional, um ano antes de Pauleta. O médio do Salamanca passava a ser o primeiro internacional a estrear-se na equipa das Quinas quando representava um clube estrangeiro. «Não fazia ideia disso, o que me lembro é que foi uma estreia curta». De facto, Taira saltou do banco para substituir Oceano quando faltavam 17 minutos para o final do jogo em Tirana, quando Portugal já vencia a Albânia por 3-0, com golos de Luís Figo, Hélder e Rui Costa, na fase de qualificação para o Mundial-98. «Fui convocado oito ou nove vezes, mas essa foi a única vez em que joguei. Lembro-me que era importante ganhar e como o resultado já estava bem encaminhado, o Artur Jorge deu-me uma oportunidade. Era um grupo muito forte, com a geração de ouro no auge, não era fácil entrar ali», recordou.

Mais três anos em Salamanca, agora no primeiro escalão, seguido de novo desafio. O Sevilha estava nas ruas da amargura, na II Divisão e com «uma dívida brutal». «Foi um projeto também bom, a nível de dinâmica, começámos na II Divisão, mas acabámos por subir. Foi uma época marcante para o Sevilha, foi um virar de página. A partir daí o Sevilha nunca mais desceu e ganhou a estrutura que hoje em dia lhe permite ser um dos grandes da Europa».

Aos 34 anos, Taira regressa a Portugal. Faz ainda mais uma temporada no Farense e outra no Oriental antes de pendurar definitivamente as botas em 2004. Dez anos depois, é o seu filho Afonso que se prepara para se estrear na Liga, depois de ter trocado o Atlético pelo Estoril. Um percurso em ascensão que deixa o pai babado. «Foi ele que decidiu o caminho dele. Em paralelo está na faculdade, a tirar economia, mas ficou com o gostinho pela bola. Logicamente é um orgulho ver o percurso que ele tem feito. Tem sido sempre titular nas equipas por onde tem passado e nas duas últimas épocas, com mudanças de treinador, fez mais de quarenta jogos», conta o pai. Afonso Taira, formado no Sporting, tem já alguns paralelismos com a carreira de José, apesar de ter apenas 22 anos. Já jogo em Espanha, no Córdoba, e nas duas últimas temporadas representou o Atlético da Tapadinha. Agora deu o salto para a Liga, para jogar no novo Estoril de José Couceiro.

Taira também continua ligado ao futebol. Durante uns anos ainda jogou pela equipa de veteranos do Belenenses. «Isso já acabou, às vezes não eram assim tão veteranos e apanhava muita pancada. Nunca sofri uma lesão grave na minha carreira e não era agora que ia sofrer, já não tenho idade para isso», conta.

O antigo internacional é agora, aos 45 anos, diretor Escola Academia Sporting Carcavelos. Tem o curso de treinador, dá aulas, mas gostava de seguir a carreira. «Estou à espera de um convite», conta ainda o jogador que deixou o seu nome bem vincado na história do Belenenses, Salamanca e Sevilha.

A Escola Academia do Sporting Carcavelos