DESTINO: 90's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 90's.

ION TIMOFTE: FC Porto (1991 a 1994) e Boavista (1994 a 2000)

A conversa começa na maravilhosa Roménia do Mundial-94, mas passa obrigatoriamente pelas Antas e pelo Bessa. Casas adotadas de Ion Timofte, o romeno tranquilo, em Portugal durante toda a década de 90. 

São 45 minutos de conversa solta, num Português de fazer inveja, histórias intermináveis, personagens inesquecíveis. De um golo na Luz em cima do minuto 90, aos berros de Neno e a um balneário do FC Porto onde a raça e a determinação faziam a diferença. 

Um pulo a Bremen, a evocação do saudoso Rui Filipe, as brincadeiras muito sérias com Paulinho Santos, e as primeiras pedras colocadas na estrutura do Boavista campeão. 

Um DESTINOS muito especial com Ion Timofte, a simpatia serena em pessoa, a partir de Timisoara. 

Não se esqueça de ler a Parte 1: «O meu pé esquerdo era melhor do que o do Hagi.»  

Maisfutebol – Consegue escolher a melhor exibição nos três anos de FC Porto?

Ion Timofte – Melhor exibição… é difícil. Mas escolho a melhor vitória.

MF – Vamos a isso.

IT – 2-3 na Luz, com o Ion Timofte a marcar o único golo de pé direito da carreira (risos).

MF – Passe de Domingos, perto do fim?

IT – Em cima do minuto 90. Entrei a faltar 25 minutos e decidi o clássico. O Neno acabou o jogo louco comigo, queria agarrar-me, só dizia ‘ò romeno, ò romeno, anda cá!’. Na altura diziam que estavam 115 mil pessoas na Luz. O Porto era muito forte, muito forte e depois fazia a diferença com a raça e a determinação. Mas atenção, apanhei grandes equipas do Benfica e do Sporting também, com qualidade no mínimo igual.

MF – Diz que o FC Porto fazia a diferença na raça. Por culpa dos treinadores ou do plantel?

IT – Por culpa dos jogadores mais antigos, sem dúvida. André, João Pinto, depois o Vítor Baía, o Aloísio. Também o Jaime Magalhães. Eram outros tempos, havia muita malta portuguesa e malta com a ligação ao clube. Lembro-me do grande Kostadinov também. Que exibição ele fez em Bremen!

MF – Na goleada de 5-0?

IT – Isso, isso. As pessoas já não se lembram, mas o Werder Bremen tinha uma grande equipa e houve períodos em que levámos um sufoco. Eles na eliminatória anterior tinham conseguido uma reviravolta histórica com o Anderlecht. Contra nós atacaram sempre, mesmo a perder por muitos. O jogador mais pequeno deles era da altura do Fernando Couto e do Jorge Costa. O Vítor Baía fez uma exibição extraordinária. Esse jogo marca o início da ascensão do Secretário no clube. Jogou a extremo direito e marcou um golo.

ION TIMOFTE NO CAMPEONATO PORTUGUÊS:

. 1991/92. FC Porto, 25 jogos/9 golos (1º lugar)

. 1992/93. FC Porto, 23 jogos/11 golos (1º lugar)

. 1993/94. FC Porto, 21 jogos/4 golos (2º lugar)

. 1994/95. Boavista, 24 jogos/4 golos (10º lugar)

. 1995/96. Boavista. 24 jogos/7 golos (4º lugar)

. 1996/97. Boavista, 19 jogos/1 golo (7º lugar)

. 1997/98. Boavista, 31 jogos/10 golos (6º lugar)

. 1998/99. Boavista, 32 jogos/15 golos (2º lugar)

. 1999/00. Boavista, 16 jogos/0 golos (4º lugar)

TOTAL: 215 jogos/61 golos

TÍTULOS: 2 Campeonatos Nacionais, 2 Taças de Portugal e 3 Supertaças.

MF – O primeiro golo desse jogo foi marcado pelo falecido Rui Filipe. Lembra-se bem dele?

IT – Era um dos meus melhores amigos no plantel. Grande jogador e ainda melhor colega. Tenho um grande amigo em Vale de Cambra, que conheci através do Rui, e quando estou em Portugal vou sempre visitá-lo. Foi um duro golpe, era um grande amigo.

MF - …

IT – O Rui já era titularíssimo do Porto e estava a começar a entrar na Seleção Nacional. Tenho muitas saudades dele. Nesse jogo em Bremen ele começou no banco e entrou logo a começar para o lugar do Paulinho Santos.

MF – Outro dos embaixadores da raça e da determinação.

IT – Bem, o Paulinho era mais do que isso (risos). Tenho uma história engraçada com ele. Voltei às Antas pelo Boavista e o Paulinho ameaçou-me o jogo todo. Meio a sério, meio a brincar, como fazia nos treinos. ‘Passa a bola ou vais levar porrada’! A verdade é que ele intimidava e eu marquei um dos golos mais bonitos da minha carreira porque arrisquei um remate de longe, antes que o Paulinho chegasse perto.

O golaço de Timofte nas Antas (aos 48 segundos):

MF – O Paulinho tornou-se o seu pior adversário?

IT – Se calhar sim. Mas os melhores jogadores que eu vi, nos adversários, foram o Balakov e o Vítor Paneira. E o Figo.

MF – Há pouco falava do Bobby Robson. Foi o melhor treinador que apanhou em Portugal?

IT – Não sei se foi o melhor, mas foi especial porque era um homem diferente. Se as coisas corriam mal, ele metia o inglês dele com o português à mistura e uma piada lá pelo meio. Resultava. E tinha o Mourinho como adjunto, por isso os treinos eram ótimos.

MF – O primeiro foi Carlos Alberto Silva.

IT – Um homem muito fechado. Grande treinador, bicampeão, parecia mais nórdico do que brasileiro. Mantinha uma distância muito grande, não dava confiança. O Bobby não, era simpatiquíssimo.

MF – E no Boavista?

IT – Entrei pela mão do Manuel José, apanhei o Filipovic, Mário Reis, João Alves… o João Alves saiu depois de desacatos graves em Vidal Pinheiro, numa derrota contra o Salgueiros. E depois o Jaime Pacheco. Acho que entra em 1997, apanhou o Boavista nos últimos lugares e construiu o Boavistão. Até ser campeão nacional, não se podia pedir mais. O Boavista era na altura aquilo que é hoje o Sp. Braga.

MF – O Timofte sai precisamente na época anterior à do título nacional.

IT – Digo sempre isto. O Timofte teve de sair para o Boavista ser campeão (risos). O segredo do título foi a minha saída. Na verdade, já andávamos a cheirar o título. Num ano anterior só um empate em Faro nos roubou o título. Percebíamos que aquilo podia acontecer.

MF – Esse Boavista do Jaime Pacheco vivia sobretudo da qualidade do Timofte e do Sanchez?

IT – Percebo a pergunta, mas tive outros colegas de grande qualidade. O Artur era um avançado extraordinário e foi para o FC Porto. O Tavares foi um grande craque, só tinha um problema: dormia poucas horas (risos). Mesmo assim, com a vida que ele fazia, tenho de dizer que era o tipo que mais corria nos treinos e nos jogos. Pedro Emanuel, Litos, Nuno Gomes, Jimmy, Jorge Silva, Mário Silva, Jorge Couto… Jogadores de seleção, nível altíssimo. O Martelinho, um dos heróis do título. Fabuloso pela direita, ninguém o apanhava.

MF – Falta falar do treinador campeão no Bessa.

IT – O Jaime Pacheco tinha 50 anos e corria mais do que eu (risos). Aqueles treinos no Parque da Cidade…grande treinador e um gajo impecável. Exigente, duro, mas um homem bom. Felizmente sempre me dei bem com toda a gente. Gostava de estar à porta do estádio a falar com os sócios. Acho que isso era importante, para mim e para eles.

MF – Continua ligado ao futebol aí na Roménia?

IT – Estive seis meses no Boavista, a ajudar, em 2016. Agora estou em contactos com clubes romenos, dou conselhos sobre alguns atletas, quem deve ser comprado ou não. Trabalho no futebol de forma indireta.

MF – Não pretende voltar a Portugal?

IT – Ainda não tive convites, mas depois desta entrevista pode ser que se lembrem que o Timofte continua cheio de vida e com muita vontade de trabalhar (risos).

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85. «Já disse aos amigos benfiquistas, penta é o Quinzinho»