DESTINO: 90's é uma nova rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 90's. 

DINIS: Beira-Mar, Gil Vicente, Académica e outros (1985 a 2005)

Quando inventaram a expressão «futebol para homens de barba rija» para caracterizar o estilo mais duro do jogo, poderiam perfeitamente estar a pensar em Dinis. O antigo defesa central é figura incontornável da década de 90 do futebol nacional e presença regular em qualquer caderneta de cromos na altura.

O Maisfutebol recorda, desta feita, o famoso «Sandokan» do futebol português. Formado no FC Porto, Dinis não esconde o orgulho em ter pertencido àquela que diz ser a melhor escola de centrais do país nas últimas décadas.

«Todos os grandes centrais da seleção dos anos 80 para a frente vieram daquela escola», recorda. Dinis não vingou na equipa principal. Terminou a formação em 1985, numa equipa que tinha Rui Barros ou Rui Filipe, e seguiu para o Feirense.

Depois passou por União de Lamas, Académica, Gil Vicente, Maia e Gondomar.

De qualquer forma, é o Beira-Mar que mais facilmente se lhe associa. Afinal, jogou lá oito anos. «Foi sempre a minha imagem de marca», conta.

«Em todos os clubes onde joguei era o Sandokan do Beira-Mar ou o Sandokan de Aveiro», acrescenta. A alcunha pegou e ainda hoje é recordada.

«Inicialmente estranhava mas depois…Olhe, se fosse agora se calhar não iria gostar muito, mas na época o Sandokan era uma série que toda a gente gostava e eu achei graça. Até as miúdas gostavam do Sandokan, colecionavam os cromos. No final da carreira já me chamavam Taliban e aí já não gostava tanto», atira, entre risos.

A alcunha ficou porque, de facto, fazia sentido. É o próprio Dinis quem o reconhece: «Cabelo comprido, barba, olho assim para o esverdeado. E depois eu era um jogador agressivo, duro. Acho que o boneco se adequava.»

Como jogador, Dinis também tem uma definição curiosa para o seu estilo. «Era aquilo que hoje em dia as pessoas chamam de central à moda antiga. Claro que naquela altura isso não existia. Era só um central», comenta.

O tom bem disposto é nota dominante no ex-jogador, atualmente com 47 anos. Porque se o estilo em campo era duro, fora dele, Dinis garante ter sido sempre um companheiro leal e disposto a alinhar em brincadeiras. Fazia bom balneário, portanto. 

Anti-tiki-taka: «Até as mulheres podem jogar assim»

Na década de 90 o futebol era diferente. Dinis tem pena que tenha mudado tanto. Agora é menos físico e há uma proteção maior ao jogador.

«Começou tudo quando partiram uma perna ao Maradona. A UEFA e a FIFA começaram com campanhas para proteger os artistas da bola. As leias mudaram e, sinceramente, acho que se exagerou. O futebol sempre foi um desporto de contacto. Não é basquete!», ilustra.

E dá um exemplo: «Eu posso ir junto de um jogador, dar-lhe uma carga de ombro tão potente que ele estatela-se todo contra um placar publicitário e parte-se todo. E não deixa de ser legal! O jogador de futebol tem de estar preparado para isto. Não se pode tornar o futebol no basquete.»

Dinis fazia uso da força e da agressividade para compensar lacunas técnicas que admite ter. «Fui treinado no FC Porto, no tempo do Lima Pereira e do Eurico. Era o tempo em que havia a imagem do central que era o 115. O gajo que vinha a correr para varrer tudo», recorda. Retrato perfeito, em suma.

Quanto ao futebol em si, acha que também mudou de mais. Confessa-se «anti tiki taka» e adepto do estilo italiano.

«O futebol moderno caiu no exagero. O tiki-taka do Barcelona é um exemplo. Parece um bailado, até o Beckenbauer já veio criticar. Claro que há quem goste, mas eu não. Também não gosto do antigo estilo inglês, de um, dois toques. É demasiado simplório. Gosto do estilo italiano e de algumas equipas espanholas», explica.

E ainda sobre o Barcelona dá um exemplo curioso: «Da forma como jogam, se as mulheres melhorarem um pouco os seus índices físicos, acho perfeitamente possível que venham a jogar ali. No meu tempo já se dizia que o futebol não era para meninas. É, claro, mas o futebol feminino. Tem de haver alguma diferença.»

Dinis, que trabalhou quatro anos na formação do Boavista e colabora atualmente com o Pasteleira enquanto não surge uma outra oportunidade, diz que não se pode descurar o lado físico do desporto.

«Ser um grande jogador não é só fazer reviengas. O Ronaldo é o melhor exemplo. Não é só técnica. É impulsão, é força, é massa muscular. Isso veio-lhe de um passado agreste e de muita força de vontade e trabalho. Mas não tenho dúvidas que, se tivesse sido formado no Barcelona, o Ronaldo era um jogador diferente», considera.

 

Semelhanças? Bruno Alves e Pepe…quando «não lhe para o relógio»

Dos centrais atuais, Dinis não tem grande dificuldade em encontrar alguns com quem se identifica. Cita Bruno Alves e Pepe, embora tenha uma ressalva para o central do Real Madrid.

«De vez em quando para-lhe o relógio, como quando bateu num jogador que estava deitado no chão. Eu era duro, mas leal. Agora, quando entrava em campo tinha um lema: a chorar, que chorem as mães dos outros e não a minha. Quando ia à bola ou ficava com ela ou matava a jogada», diz.

Acha que se pede mais ao central atual porque se quer dois jogadores parecidos para fazer dupla. «Antigamente queriam-se dois centrais diferentes. Um central como eu, que varresse, fosse duro e metesse respeito. E outro como o Baresi, o Beckenbauer ou o Luisinho do Sporting. Mais elegante, que desse outro perfume ao jogo. Ao lado do atrasado mental, entre aspas, que partia a loiça tinha de estar o duro que varria os cacos. Agora, os dois têm de ser capazes de fazer as duas coisas», refere.

Nesta conversa com o nosso jornal, Dinis recorda ainda os momentos mais especiais de uma carreira que começou em 1985, no Feirense, e terminou vinte anos mais tarde, no Gondomar.

Lembra «as subidas de Divisão», sobretudo uma: «A mais especial foi a que conseguimos no Gil Vicente, em 1999. Fomos campeões com oito pontos de avanço para o Belenenses.»

A final da Taça de 1991, perdida para o FC Porto, também tem um cantinho especial no baú das memórias. «Levámos o jogo para o prolongamento com um golo do Abdel Ghany, mas o Kostadinov rebentou connosco e perdemos 3-1», lamenta.

Momentos que ficam para sempre e que ultrapassam o que ambicionava. Porque, garante, nem queria muito: «Quando eu era menino não pensava em ser profissional. Só queria entrar em campo com uma camisola que tivesse um número nas costas.»

Recorde a final do Jamor em 1991: