DESTINO: 90's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 90's.

TUCK: GIL VICENTE (1989/90-1997/98) e BELENENSES (1998/2005)

Sabe quem é João Carlos Novo de Araújo Gonçalves? E se reduzir este nome a apenas Tuck? Um jogador que foi emblema, não de um, mas de dois clubes? Um muro no Gil Vicente, ao longo de nove temporadas, antes de se tornar numa referência incontornável do Belenenses nos últimos sete anos da sua carreira. Um médio que desceu uma vez de divisão, mas subiu outras duas. Não foi propriamente um craque, mas é daqueles jogadores que acabaram por conquistar os adeptos por deixarem tudo o que tinham e não tinham em campo. Um jogador discreto que sempre fugiu aos holofotes. Aos 45 anos, não está muito diferente. Distribui o mérito dos seus feitos por todos os companheiros e treinadores que o acompanharam entre 1989 e 2005, sempre com a preocupação de não ferir suscetibilidades.

Fomos direto a uma dúvida que, ao longo destes dezasseis anos, já nos tínhamos colocado, sempre sem resposta. De onde é que veio o nome Tuck? «Foi o meu irmão mais velho que me colou esse nome. Ele tinha mais seis anos do que eu, tratava-me assim e foi pegando, mas não sei de onde é que isso veio», conta Tuck, quase dez anos depois de ter pendurado as botas, numa altura em que dá os primeiros passos como treinador à frente do Loures. Insistimos na origem do nome que, sem outra pista, conduz-nos para a floresta de Sherwood e para a personagem «Frei Tuck» do Robin dos Bosques. Talvez o irmão mais velho, afinal o criador da alcunha, pudesse ajudar. «Nem ele se lembra, já conversámos sobre isso e não chegámos a lado nenhum, mas acho que não tem nada a ver com o Robin dos Bosques», acrescentou.

A escola do Prado

Sem perder mais tempo com o nome, seguimos viagem até Barcelos, afinal onde Tuck nasceu, em 1969, e começou a jogar, no clube da terra, o Gil Vicente, logo aos oito anos, na mesma altura em que surgia a misteriosa alcunha do início da história. Uma relação que se manteve ao longo de quase vinte anos, incluindo toda a formação e ainda um ano de «estágio» no Grupo Desportivo do Prado, da Associação de Futebol de Braga, onde Tuck deu os primeiros pontapés como sénior.



Foi no modesto Prado, na altura na II Divisão B, que o nosso protagonista moldou o carácter que marcou a sua carreira nos anos posteriores. «Gostei muito de representar o Prado. É uma fase em que maturamos, é uma fase importante para se cometer erros, é uma forma de ganhar experiência jogando. Na altura não havia equipas B, mas havia as Taças de Honra e podíamos ir somando minutos. Aprendi muita coisa no Prado», recorda.

Ainda no Prado, Tuck teve um primeiro contato com Rodolfo Reis que viria a ser o seu primeiro treinador na equipa principal do Gil Vicente, na temporada seguinte. «Nesse ano jogámos com o Famalicão e conheci o mister Rodolfo. Depois houve aquele caso com o Fafe e o Famalicão foi despromovido. Uns meses depois encontrámo-nos em Barcelos».



Na primeira temporada como sénior, o jovem Tuck, com vinte anos, praticamente não joga, mas no final da temporada festeja a subida à I Divisão. «Entrei com o pé direito. Não joguei muito porque o Gil Vicente tinha grandes jogadores, sobretudo no ataque, com Mangonga, Folha e Paulo Alves, mas lembro-me que fomos jogar à Póvoa e o estádio estava cheio com adeptos do Varzim e do Gil, foi uma grande festa».

Na temporada seguinte, Tuck começou a ganhar espaço e, aos poucos, o Gil Vicente foi construindo um meio-campo temível. Cacioli, Tueba, João Oliveira Pinto e Jaime Cerqueira, a par de Tuck, formavam um «miolo» que impunha respeito. «Na altura os jogadores ficavam mais tempo nos clubes, não é que houvesse mais amor à camisola, havia amor à profissão, mas as solicitações hoje em dia são muito diferentes. Depois veio a Lei Bosman e mudou tudo, mas, na altura, as regras obrigavam os jogadores a ficarem mais tempo nos clubes. Hoje em dia é muito fácil um jogador ir para o estrangeiro», comenta.

Ao longo de sete temporadas, sem deslumbrar, a equipa de Barcelos estabilizou no primeiro escalão, com classificações em o 9º e o 13º lugar, longe da pressão que sofre a atual equipa de José Mota. «Podem faltar referências, mas penso que o problema do Gil Vicente não é só esse. Têm lá o Pecks, o Gabriel, o Adriano e outros que já lá estão há uns anos».

Tuck no Gil Vicente: 217 jogos (3º jogador mais utilizado na história do clube) e 15 golos

Tuck no Belenenses: 183 jogos (14º jogador mais utilizado na história do clube) e 11 golos

O Gil Vicente acaba por descer em 1996/97 e cruza-se com o Belenenses que também desce um ano depois. É nesta altura, na Divisão de Honra, que Tuck troca Barcelos pelo Restelo. Terminava aqui uma relação de quase vinte anos com o «galo», mas o médio, então com 28 anos, agarrou a nova oportunidade com o mesmo empenho e garra que caracterizaram a sua carreira. Poucas semanas depois da troca, marcava um dos golos da goleada ao Gil Vicente (4-0). Estava consumado o corte com a equipa de Barcelos e aberto o caminho para nova escalada para a I Divisão.

Um «grande capitão» sem braçadeira

Num ápice, Tuck adquiria uma nova alcunha em Belém: o «grande capitão». Uma alcunha que refletia apenas o modo de estar em campo, uma vez que a braçadeira esteve sempre nos braços de Lito Vidigal [atual treinador do Belenenses], numa primeira fase, e depois do brasileiro Filgueira, eleito pelo plantel no início da temporada de 1999/2000. «Acho que era mais pela minha postura em campo. No Belenenses era segundo ou terceiro capitão, atrás do Lito e do Filgueira. Só no meu último ano é que fui capitão. O Filgueira teve um problema de saúde e teve de deixar de jogar e herdei a braçadeira», contou.

O Belenenses acabaria por garantir a promoção, curiosamente no segundo lugar, atrás do Gil Vicente, dois clubes que andaram quase sempre de mãos dadas, e Tuck festejou a segunda promoção na carreira. «Foi um jogo no Estádio Nacional, já não me lembro porquê, frente ao Desportivo das Aves (3-0). Os sócios foram para o estádio com sinais de sentido obrigatório a apontar para cima, para a a subida de divisão. Foi um jogo em que o factor emocional foi muito forte».



Seguiram-se mais seis temporadas nos escalão principal, com destaque para as duas sob o comando de Marinho Peres, com um sétimo lugar em 2000/01 e um quinto, em 2001/02, este último com o «brinde da qualificação para a extinta Taça Intertoto. Mas o que marca mais a memória de Tuck foi o difícil adeus, na última jornada da temporada 2004/05, num empate sem golos diante do Vitória de Setúbal. Sob o comando de Carlos Carvalhal, Tuck começou a sofrer no banco, mas o mais difícil foram mesmo os últimos nove minutos em que entrou para render Rui Ferreira. Uma eternidade. «Foi muito marcante. Sabes que é a última vez que jogas e mesmo durante o jogo não deixas de pensar nisso. Passa-te tudo pela cabeça, tens a consciência que acaba tudo ali e mesmo antes do jogo acabar já estás com umas saudades enormes».



Os companheiros: de Drulovic a Catanha

Uma carreira de dezasseis anos em que Tuck se cruzou com jogadores como Silvino, Paulo Alves, Folha, Rui Filipe, Capucho, Paulinho Cascavel, Brassard, Cacioli, Tueba, Drulovic, Dito, António Sousa e Pedrosa, no Gil Vicente; e ainda Marco Aurélio, Filgueira, Lito Vidigal, Neca, João Paulo Brito, Seba, Pedro Henriques, César Peixoto, Marcão, Eliseu, Rúben Amorim, Valdiram, Rolando, Zé Pedro e Catanha. Uma referência especial ainda para Wilson, central angolano que jogou dez anos com Tuck (quatro anos no Gil, mais seis no Belenenses). «Foram muitos, não quero ferir suscetibilidades, mas houve muitos que me marcaram de forma positiva», comenta.

Os golos: o livre marcado a Paulo Santos

Tuck nunca se destacou por marcar grandes golos. Ao longo da carreira marcou várias grandes penalidades, mas há um golo que o médio coloca acima de todos os outros. Um golo que valeu uma vitória ao Belenenses de Marinho Peres sobre o Alverca de Jesualdo Ferreira, onde começava a mostrar-se o jovem Ricardo Carvalho.



«Normalmente só marcava de grande penalidade, mas lembro-me de um livre direto frente ao Alverca, já perto do fim, e bati o Paulo Santos. Foi muito gratificante. Também me lembro de uma grande penalidade decisiva frente ao Beira-Mar. Tínhamos estado a perder por 1-2 e virámos para 3-2».



Os treinadores de Tuck numa frase

Rodolfo Reis:
«Foi o treinador que me lançou na I Liga, não me esqueço»
António Oliveira: «Como treinador foi a extensão das qualidades que já tinha como jogador»
Vítor Oliveira: «Um excelente profissional, um bom homem, um bom condutor do grupo de trabalho»
Bernardino Pedroto: «Um ser-humano fantástico»
Diamantino Miranda: «Treinador de qualidade excecional»
Manuel Cajuda: «Muito divertido»
Marinho Peres: «Além da qualidade humana, um excelente condutor do grupo»
Vladislav Bogicevic: «Bom treinador numa conjuntura difícil, distante da realidade a que estava habituado»
Manuel José: «Treinador muito exigente, mas muito frontal»
Augusto Inácio: «Bom treinador, muito profissional»
Carlos Carvalhal: «Treinador da nova vaga com um conhecimento de nível superior»

Mister Tuck desde 2014

Em 2005, ainda com mais um ano de contrato, Tuck decidiu pendurar definitivamente as botas e assumir o cargo de Coordenador do Gabinete de Prospeção. No ano seguinte, passa a Secretário-técnico, no mesmo período em que Jorge Jesus chega ao Restelo. «Já se notavam as qualidades que evidencia hoje, não me admira o percurso que está a ter no Benfica», comenta. Tuck dedicou-se depois à carreira de treinador, numa primeira fase ainda no Restelo, como adjunto de Rui Gregório nos seniores e depois nos juniores.

Na temporada passada, iniciou a carreira como treinador principal, no Sintrense e este ano está a treinar o Loures no Campeonato Nacional de Seniores. «É uma nova etapa em que estou a dedicar-me a outras funções. Tenho alguns jogadores com qualidade, mas a nossa força está no coletivo», contou ainda o nosso personagem que, como disse no início, nada tem a ver com Robin dos Bosques.