* com João Tiago Figueiredo

artigo atualizado: hora original 23h45, 7-12-2017

DESTINO: 90's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 90's.

ALESSANDRO CAMBALHOTA: FC Porto (1999/2000 a agosto de 2001)

No verão de 1999, o FC Porto é dono e senhor do futebol português. As celebrações do penta reconduzem Fernando Santos no comando da equipa e as mudanças no plantel são cirúrgicas.

O regresso de Domingos Paciência, resgatado ao Sporting em plena A1, é a grande notícia do defeso, mas há um reforço a criar enorme expetativa. Chega do Santos e é internacional A pelo Brasil: Alessandro Cambalhota, um extremo de muita velocidade e ainda mais técnica.

Alessandro aterra no Porto na companhia de Argel e Rubens Júnior. Curiosamente, nenhum deles conseguiria criar raízes no clube e afeição ao exigente tribunal das Antas.

35 jogos e um golo depois, Alessandro regressa ao Brasil, ainda com quatro anos de contrato por cumprir.

O Maisfutebol reencontra-o em 2017, com a noção do falhanço de azul e branco, mas sempre de «coração cheio» ao falar de Portugal.

«Ainda se lembram de mim? Deixei muito a desejar no Porto, agradeço a lembrança», atende Alessandro, o ‘Cambalhota’, nado e criado na Bahia, rotulado de craque pelos feitos na Vila Belmiro (117 jogos, 34 golos).

Bem casado com dona Ana Paula e pai dos meninos Alessandro Jr. e Ana Bela, Alessandro vive no interior de São Paulo e divide o tempo pela família, o seu Novorizontino e duas empresas. Um velho dragão.

Alessandro contra Petit num FC Porto-Gil Vicente (arquivo pessoal)

Maisfutebol – Olá Alessandro. Aos 44 anos, ainda tem pernas para jogar futebol?

Alessandro Cambalhota – Não, mas joguei até aos 40 (risos). Despedi-me no Grémio Novorizontino, o meu primeiro clube. Atualmente faço parte da direção e vivo aqui em Novo Horizonte, no Estado de São Paulo. Tento ajudar a instituição, aconselho e procuro patrocinadores.

MF – Vive exclusivamente para a família e o Novorizontino?

AC – Quem me dera! Não, não dá. Ganhei algum dinheiro no futebol, estou bem na vida, mas trabalho muito. Tenho uma empresa na área da agro-pecuária e outra na produção de borracha para pneus. Esta é uma região de muita agricultura, muito gado. Criei centenas de postos de trabalho.

MF – Saiu do FC Porto em 2001. Desligou-se por completo de Portugal?

AC – Não, impossível. O meu filho Alessandro Jr. nasceu aí, na zona da Boavista, onde eu vivia. É portuguesinho (risos). Tenho urgentemente de voltar e mostrar-lhe a cidade onde ele nasceu. O Alessandrinho está a estudar e a jogar futebol nos Estados Unidos. Vamos ver se tem o jeito do pai.

MF – Em 1999 trocou o Santos pelo FC Porto. Lembra-se do processo da transferência?

AC – Claro. O senhor Adelino Caldeira viu-me a jogar no Brasil, onde eu era um dos melhores jogadores do Santos. Tinha jogado pela seleção do Brasil pouco antes [primeira e única internacionalização, pela mão de Vanderlei Luxemburgo] e era um atleta de enorme cotação. Tinha vários clubes da Europa interessados e o FC Porto convenceu-me.

MF – O Alessandro criou grande expetativas nas Antas. Mas acabou por falhar.

AC – Sem dúvida. Falo disso sem mágoa. Joguei algumas vezes a titular [9 no campeonato, mais 3 nas outras provas], mas a verdade é que o Capucho não me dava hipóteses. Eu explico: quando o senhor Caldeira me contratou, disse-me que o Porto ia vender o Capucho e que procurava um atleta como eu para o lado direito do ataque. O problema é que o Capucho ficou e eu fui quase sempre suplente dele.

MF – Quando abandonou o FC Porto criticou as opções do treinador, o Fernando Santos.

AC – Eu era jovem e vaidoso. Sabe como é… tinha jogado na seleção, era uma figura do Santos e pensei que tinha de ser igual em Portugal. Mas aprendi muito. Não tive sucesso no primeiro ano, saí por empréstimo (Fluminense e Cruzeiro) e ainda voltei para mais um curto período no FC Porto, com o treinador Octávio Machado. Mas não deu certo. Eu assinei por cinco anos, o que revela bem a esperança do Porto em mim. Os treinadores tiveram outras opções, o plantel era fortíssimo. Mesmo o José Mourinho não mostrou interesse em mim, já em 2002.

Alessandro entre Rui Barros e Rubens na pré-época (arquivo pessoal)

ALESSANDRO NO FC PORTO - CAMPEONATO

. 1999/00. FC Porto, 21 jogos/1 golo (2º lugar)

. 2001/02. FC Porto, não utilizado (só jogou na Champions)

TÍTULOS: 1 Taça de Portugal (99/00) e duas Supertaças (1999 e 2001)

MF – A passagem pelo FC Porto é de má memória para o Alessandro?

AC – Não, de jeito nenhum. Houve um lado positivo. A grandeza do clube, a cidade belíssima, a comida incrível, os adeptos quentes, o bom ambiente no vestiário. Depois, no lado desportivo, é verdade que eu deixei muito a desejar.

MF – Culpa do Alessandro ou do Capucho?

AC – Ah, ah, boa pergunta. Ele era um jogador da seleção de Portugal, um craque, fazia assistências incríveis para o Mário Jardel. Era muito competitivo. Eu era diferente e era novo no clube. Faltou-me continuidade, regularidade.

MF – O Fernando Santos nunca lhe deu uma explicação para essa condição de suplente?

AC – Não, nunca. Eu saí de uma cultura alegre, descontraída, e encontrei um treinador muito fechado. Distante. Para o Fernando Santos eu não levava nada a sério, mas isso é mentira. Sempre treinei bem. Se calhar paguei por ser próximo de outros jogadores mais problemáticos.

MF – Refere-se a quem?

AC – Todos sabem que o Rubens Júnior não era santo nenhum (risos). Jovem, solteiro, famoso… Eu já era casado, tive um filho e nunca participei nas festas dele, mas as pessoas do Porto pensavam que eu também andava lá. É que eu cheguei do Brasil com o Rubens e o Argel. Ficámos próximos, principalmente com o Rubens. Mas tínhamos um estilo de vida completamente diferente.

MF – Era o seu melhor amigo no plantel?

AC – Sim, era ele. Tantas conversas tive com ele, a dar conselhos… e ele não parava. Eu sempre me dediquei muito, até fora do clube treinava para estar bem fisicamente. E nunca fui de saídas à noite. Também me dava muito bem com o Esquerdinha, uma simpatia.

MF – Deco e Jardel eram os melhores da equipa?

AC – O Deco era. O mais importante. Quando ele não jogava, a equipa sentia. O Jardel era uma personagem incrível. Parecia que brigava com a bola, mas a verdade é que ela entrava na baliza.

Alessandro e o homem que «brigava com a bola» (arquivo pessoal)

MF – Em 35 jogos pelo FC Porto só marcou um golo. Mas foi importante.

AC – Sim, ganhámos 1-0 nas Antas ao Boavista. Marquei de cabeça, veja só. A bola entrou por pouco, mas entrou (risos). Lembro-me que a malta do Boavista protestou imenso. A verdade é que devia ter marcado muitos mais. Um golo só, minha nossa.

O golo de Alessandro ao Boavista (6m50s):

MF – Explique-nos lá a origem da alcunha ‘Cambalhota’.

AC – Eu nasci na Bahia e fiz capoeira desde sempre. Cambalhotas, piruetas, acrobacias, para mim tudo era natural desde pequeno. Quando cheguei ao futebol comecei a festejar assim os golos. Nunca me aleijei a fazer isso. No Porto lembro-me que marquei ao Celta de Vigo num amistoso e celebrei assim, com um salto acrobático.

O canto direto de Alessandro ao Celta - e a cambalhota (13s):

MF – Qual foi a melhor exibição do Alessandro no FC Porto?

AC – Gostei muito dessa minha entrada contra o Boavista. Mas a melhor foi contra o Olympiakos, na Grécia [ndr. 3 de novembro de 1999, derrota 1-0]. Foi das poucas vezes em que atuei os 90 minutos completos. Ah, gostei também muito de jogar a final da taça contra o Sporting. Mas, lá está, foram poucos minutos [15 na final e 1 na finalíssima]. Por outro lado, mesmo saindo do banco de suplentes, tive o privilégio de jogar em Barcelona [derrota 4-2] e em Madrid [derrota 3-1]. No Camp Nou entrei e estávamos a perder 3-1. O Mário Jardel ainda fez 3-2 e o Barça tremeu. Fizemos uma grande partida.

MF – Falta falar do balneário do FC Porto. Quem era o líder?

AC – O Jorge Costa, sem dúvida. Alguns, os mais novos, até medo tinham dele. E o Paulinho Santos também dava uns berros de vez em quando (risos). O Aloísio era totalmente diferente. Era muito respeitado, mas raramente falava.

MF – Para quem não se lembra do Alessandro, que tipo de jogador era?

AC – Agora você me apanhou…Bem, acho que tinha uma excelente técnica e de vez em quando exagerava (risos). Mas era um bom atleta, sério, veloz. Acho que as pessoas do Porto raramente viram o meu melhor. Por favor, envie um abração ao senhor Adelino Caldeira e ao senhor Reinaldo Teles. E ao Antero. Como? Está no PSG? Bem, esse aí deu-se bem, não é?

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