Minuto 44 no Mestalla, 0-0 no Valencia-At. Madrid. O árbitro assinala penálti de Nani sobre Correa, é Griezmann quem vai marcar. Diego Alves aproxima-se do árbitro e do francês, faz-se notar, depois afasta-se lentamente rumo à baliza, ainda se detém para ajeitar as meias. A seguir espera, olhos nos olhos de Griezmann, move-se no último minuto e defende. No banco do Atlético, Diego Simeone aplaude. «Foi uma defesa maravilhosa. É uma virtude deste guarda-redes», diria o treinador no final.

É uma guerra psicológica, é ele quem o diz. E Diego Alves ganha-a mais vezes do que qualquer outro. Voltou a ganhá-la duas vezes este fim de semana, no Valencia-At. Madrid. Passou a somar 19 penáltis travados em 41 que foi chamado a defender no campeonato espanhol, na baliza do Almeria primeiro e depois no Valencia. Como dois desses não entraram, um foi fora e o outro à trave, sobram 20 convertidos. Menos de metade. O seu registo em todas as competições no futebol espanhol é de 22 penáltis defendidos em 45, 21 sofridos. Diego ganha esta guerra mais vezes do que a perde, portanto.

Aqui estão alguns deles

 

«É um duelo, um momento em que estás só com o jogador que vai atirar. Digo que é um duelo por ser uma guerra psicológica entre os dois», dizia Diego Alves esta semana ao site do Valencia, ele que no domingo passado já se tinha tornado o guarda-redes com mais penáltis defendidos da história da Liga espanhola, ao segurar o remate de Szymanowski no jogo com o Leganés e bater uma marca que pertencia a Zubizarreta. Se bem que o antigo guardião basco precisou de 102 oportunidades para defender 16 penáltis.

Diego Alves tinha igualado o recorde de Zubi em maio do ano passado, ao defender um penálti de Cristiano Ronaldo. Foi a segunda vez que deteve um remate do português da marca dos 11 metros. E também já negou um penálti a Messi.

Este domingo Diego Alves levou a sua lenda para outro patamar. Não foi um, mas dois. Primeiro o de Griezmann, depois um de Gabi. Na prática, incrivelmente, de nada serviu ao Valencia, que perdeu mesmo o jogo, por 2-0.

Portanto, três penáltis defendidos numa semana. Não é acaso, claro. Resulta, diz ele, de uma combinação de várias coisas. «A intuição é importante, saber ler o movimento, a tranquilidade, reflexos. São muitos os factores que influenciam defender um penálti», dizia nessa entrevista ao site oficial do clube.

Em maio de 2015, depois do tal penálti de Cristiano Ronaldo que deteve, dizia um pouco mais, numa entrevista ao site brasileiro Estadão. Sem abrir o jogo todo: «Se eu contar tudo, deixa de ser segredo.»

Antes de mais, conta, há ali muito trabalho de casa. « Eu costumo estudar os batedores antes das rodadas, também tento analisar o movimento na corrida para a cobrança.»

Depois, é também uma questão de forma física: «Estar bem fisicamente é fundamental para ter explosão e fazer o corpo responder aos reflexos.»

A seguir, provavelmente aquilo que melhor o distingue: «Uma grande dose de intuição também vai bem. São decisões em frações de segundo, então tudo faz diferença.»

E ainda, claro, o jogo psicológico. Intimidar o adversário, por palavras ou através da linguagem corporal: «Encaro o pênalti como uma guerra psicológica. Quem estiver melhor, ganha. Tenho as minhas artimanhas. Com alguns, converso, com outros, tento tirar a atenção quando me posiciono. Cada situação é uma postura diferente. Mas o que nunca posso deixar de lado é a minha concentração e o que devo fazer na hora do remate.»

Num penálti, diz quem lá anda, a pressão é sempre maior para quem bate do que para quem defende. E Diego Alves, do alto da experiência dos seus 31 anos, sabe lidar com ela. Com a sua e com a do adversário. «A cada penálti que defendo a responsabilidade sobe, porque toda a gente espera que defenda, mas para quem vai bater também aumenta a responsabilidade.»

Santiago Canizares, histórico guarda-redes do Valencia, também teve a sua quota de penáltis defendidos: foram 13 em 57, é o terceiro no «ranking» de sempre na Liga espanhola. Comentador televisivo, Canizares deixou também algumas ideias sobre o que torna Diego Alves diferente na hora de bater penáltis. São três momentos, diz. O primeiro, a abordagem psicológica ao adversário. O segundo essencialmente técnico, posicionamento e movimento do corpo. E o terceiro, remata, a confiança do guarda-redes: «Acreditar que podes. Tens que fazer um gesto técnico muito rápido e se não estás convencido não chegas, ou a bola escapa-te.»