Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, história de vida e futebol.

Há emblemas que caem num estado moribundo do qual nunca se libertam. Depois, existem outros, que insistem em reerguer-se. Como se cada um deles fosse uma fénix. É o caso do Futebol Clube de Alverca.

Antes de avançarmos na história, é obrigatório recuar no tempo. O clube ribatejano esteve quatro épocas seguidas, cinco no total, no escalão máximo do futebol português. Em 2003/04 caiu para o segundo escalão e no final da mesma época, devido a uma grave crise financeira, extinguiu-se.

O clube iniciou o processo de rejuvenescimento, dois anos após a tal queda abrupta. Conquistou a segunda divisão distrital de Lisboa e começou a competir na primeira divisão, mais tarde denominada, Campeonato Distrital Pró-nacional. Foi preciso esperar dez épocas pelo regresso ao Campeonato Nacional de Seniores. No último domingo, o Alverca confirmou a promoção com uma vitória à União Recreativa e Desportiva de Tires, no velhinho Complexo do Alverca, outrora palco de I Liga.

O processo longo e árduo foi relatado pelo presidente do clube desde 2011, Fernando Orge, ao Maisfutebol.

«Foram várias as dificuldades que esta Direção encontrou. Havia quatro questões. Antes de tudo, a questão financeira. O clube viveu um período complicado, tinha um grande volume de contas negativas. Segundo ponto, o clube estava fechado à cidade. A cidade desligou-se do Alverca. Algumas pessoas nem sabiam que modalidades havia no clube. Isso incomodava-me. Outra das dificuldades estava relacionada com a construção do Centro de Treinos. O projeto estava parado e havia necessidade de o levar a bom porto. Fomos obrigados a fazer um reajustamento. Por último, era importante estabilizar financeiramente o Alverca», começou por contar.

 

Complexo Desportivo FC Alverca [Foto: Facebook Alverca]

Através de uma «reorganização de toda a estrutura humana e de um aumento de receitas geradas pela publicidade e por parcerias» o Alverca recomeçou a caminhar. «Colocámos mãos à obra. Procurámos gente capaz de criar, inventar e ajudar. Organizámos também feiras de chocolate e de comércio, de forma a que, as pessoas da cidade, percebessem que o Alverca não se limitava ao futebol profissional.»

A grande maioria das equipas amadores treina à noite. O Alverca não foge à regra. Treina três vezes por semana, sempre às 20h00. Uma realidade espinhosa que obriga a uma superação constante.

«Acho que é a primeira vez que uma equipa do Campeonato Distrital Pró-Nacional sobe de divisão, só a treinar três vezes por semana. Acabámos também por fazer história nesse sentido. Além disso, sentimos dificuldades em jogar em campos sintéticos pequenos. Não temos mentalidade de jogar futebol direto. Gostamos de jogar apoiado, de pé para pé e estamos habituados a jogar em relvado», referiu o treinador, António Pedro, conhecido como Tó Pê.

Nascido e criado na cidade ribatejana, Tó Pê assumiu o clube após a saída de Tiago Zorro. O técnico reforça que é um «orgulho enorme» liderar o regresso do Alverca aos campeonatos nacionais. «É o clube da minha cidade e do meu coração. Cresci como homem no Alverca e sinto um orgulho enorme por levar o clube ao sítio onde merece estar. Muitos outros o tentaram e, com poucos meios, eu e a minha equipa técnica, conseguimos. É um orgulho enorme.»

 

Tó Pê (à direita na foto) treinador do Alverca [FOTO: Facebook Alverca]

Nas 28 jornadas disputadas, o técnico de 39 anos, destaca os momentos-chave na caminhada triunfal do Alverca. «Após a derrota com o Alta Lisboa, na primeira volta, recebemos muitas críticas. O grupo uniu-se. O que não nos mata torna-nos mais fortes, como se costuma dizer. Depois, os dois jogos frente ao Santa Iria e ao Lourinhanense. Frente a dois concorrentes diretos a equipa não tremeu. Fomos muito fortes e vencemos sem contestação», relembra, antes de esclarecer os fatores que conduziram a uma temporada bem sucedida.

«Qualidade de jogo assente nas características dos jogadores. Profissionalismo, ambição, união e uma simbiose perfeita entre jogadores mais velhos e mais novos.»

Treze longos anos de espera. Na hora dos festejos, o presidente, Fernando Orge, não conteve as emoções. «Senti orgulho e saudade. Fui jogador do Alverca e adepto desde muito novo. O meu pai era o treinador da equipa do Alverca que subiu pela primeira vez aos Campeonatos nacionais. Mexeu emocionalmente comigo. Estávamos há três ou quatro anos a insistir. Por vezes, tentámos esconder as nossas emoções… foi genuíno. É, no fundo, a história do Alverca. Estes momentos têm de ser vividos com intensidade», frisa.

VÍDEO: 1:21 segundos, presidente e treinador emocionados

Uma história perfeita também para Tó Pê, treinador que espera seguir no clube. «Já existiram contactos nesse sentido. O Alverca terá de se consolidar nos campeonatos nacionais, de onde nunca deveria ter saído. Mais tarde, acredito que poderá lutar pela subida à Segunda Liga», afirmou.

 

Centro de Formação do Alverca praticamente concluído [FOTO: Alverca]

De miragem a realidade. O Campeonato Nacional de Seniores vai passar por Alverca e o clube poderá preparar a luta pela tão desejada consolidação no Centro de Formação, projeto iniciado nos anos dourados e, posteriormente, interrompido pela crise financeira do clube.

«Devido à falta de capacidade financeira, foi preciso reformular o projeto, como disse. A fase desportiva, por assim dizer, está praticamente concluída. O Centro de Formação tem dois campos sintéticos de futebol de onze, um campo de nove e um de cinco. Questões relativas a balneários, água, luz, saneamento e tudo mais, estão também resolvidas. Sinto orgulho da minha equipa. É fruto de muito trabalho, esforço e dedicação. 75% da obra foi custeada pelo Alverca e os restantes 25% pela autarquia. E o melhor de tudo é que o clube tem as contas controladas», sustentou.

Fernando Orge espera, portanto, que o ressurgimento do clube desperte, definitivamente, «as gentes de Alverca», que são parte fundamental do projeto do clube.

«As vitórias trazem sucesso. Se exteriorizarmos esse sucesso, há um arrasto. É natural. Nos últimos jogos sentiu-se a cidade em sintonia com o clube. Olhar para a moldura humana nas bancadas envaideceu-me. Calculo que o próximo ano vá ser difícil. Não temos os recursos financeiros e humanos necessários para fazer uma época tranquila. Tenho esperança no grupo de trabalho. Vamos recrutar jogadores que se identifiquem com o clube e aproveitar os jogadores da formação. Esperemos que as pessoas continuem a vir ao estádio. O Alverca não vive sozinho, faz parte da cidade. Qualquer pessoa de Alverca tem um familiar que passou pelo clube, seja pela ginástica, pelo futebol ou pelo karaté. O envolvimento das pessoas é importante», concluiu.

Libertado do passado sombrio, o Alverca está a despertar.

 

Artigo original: 16/05, 23h50