artigo original: 22-02-2018 08:10

Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, história de vida e futebol.

A 10 de maio de 2014 o Sporting de Braga sagrou-se campeão nacional de juniores. Os minhotos empataram em Leiria (2-2) e aproveitaram a derrota do Benfica no Olival para celebrarem a conquista do título pela segunda vez no seu historial.

«Lembro-me que no último jogo da fase regular ganhámos ao Paços de Ferreira em casa, 2-1. Fiz uma assistência e conseguimos garantir a passagem à fase final. Durante o nosso percurso na fase final, ganhámos ao Sporting em Braga, empatámos em Alcochete e vencemos dois jogos ao FC Porto. Só não vencemos o Benfica: empatámos em casa e perdemos no Seixal. Ainda assim, acabámos por ser campeões nacionais», conta Bruno Lopes.

Aos 18 anos, Bruno Lopes brilhava ao lado de nomes como Gil Dias, Bukia ou Joca, jogadores que já atuaram no escalão máximo do futebol português. Mas, ao contrário dos antigos companheiros, Bruno acabou por se perder no caminho. Por onde anda o antigo campeão nacional de juniores?

Quatro anos depois do título nacional de juniores, o Maisfutebol encontra-o em Lever, na terra natal, bem longe dos relvados. Está sem clube depois de uma confusa saída do emblema bracarense e de três anos no futebol distrital da A. F. Porto. Um jovem a quem o futebol fechou portas e destruiu sonhos, prematuramente.

Mas vamos por partes.

O percurso de Bruno Lopes começa precisamente na antiga freguesia do concelho de Vila Nova de Gaia, nas imediações do centro de treinos do FC Porto.

«Comecei a jogar no União Desportivo Leverense com cerca de oito anos. É o clube da minha terra. Mais tarde, o meu pai decidiu colocar-me num clube melhor, no centro de Gaia, o Clube Desportivo Candal. Era infantil de segundo ano e fui para o clube juntamente com quatro colegas. Ao serviço do Candal, consegui ter o impulso que procurava na minha carreira. Cheguei a representar a seleção do Porto, fui o primeiro jogador de Gaia a representar essa seleção, creio», lembra, antes de continuar a relatar o seu percurso.

«Entretanto, um antigo treinador convidou-me para ir para um clube na Maia. Fizemos uma boa época, tínhamos uma equipa forte – joguei com o André Ferreira que atualmente pertence ao Benfica – e as coisas correram-me bem a nível pessoal. Estive lá durante um ano antes de seguir para o Sporting de Braga.»

No espaço de um ano, Bruno Lopes saltou dos campeonatos distritais para o topo do panorama nacional do escalão júnior. A ida para a Braga surgiu através do contacto com o empresário, depois de uma época num emblema maiato em que foi orientado por Jorge Silva, um antigo campeão nacional pelo Boavista.

«O meu empresário falou-me primeiro do Benfica e depois do Sporting de Braga. Ainda a época não tinha terminado e já estava a treinar à experiência no Sporting de Braga. A época terminou e no verão chamaram-me novamente para fazer testes. Éramos cerca de 30 jogadores à experiência. Acabei por ser selecionado», recorda.

Um grande passo numa longa caminhada prestes a ser consumado e, o dia, como é natural, estará eternamente marcado na memória de Bruno Lopes.

«Recordo-me que os jogadores que estavam à experiência equipavam-se num balneário à parte. Um dia, cheguei às instalações do clube e no momento em que ia entrar para o balneário dos jogadores que não pertenciam ao clube, o mister Pedro Duarte disse-me “Bruno, podes equipar-te juntamente com a equipa”. Não me esqueço desse momento», rememora.

Bruno Lopes disputou 13 jogos pelo Sporting de Braga. Números aceitáveis para um primeiro impacto com o patamar mais alto do futebol nacional no que ao escalão júnior diz respeito. Afinal, este médio de 22 anos defrontou jogadores como Gelson Martins (Sporting), Matheus Pereira (Desp. Chaves) e Gonçalo Guedes (Valência).

Após a conquista do título nacional e dois dias de celebração, surge o contrato profissional com os minhotos, em conjunto com quase uma dezena de colegas. Porém, e ainda que pareça um contrassenso, é a partir do momento em que se torna profissional que a carreira de Bruno Lopes cai a pique.

«Comecei a pré-época na equipa B. Já tinha alugado casa em Braga para morar com o Hugo Bastos (Desp. Chaves) e com o Gonçalo Silva (capitão do Belenenses). O Sporting de Braga cobria as despesas. Duas semanas após a pré-época ter arrancado, apercebi-me que ia ter pouco espaço. Não fui utilizado num jogo de pré-época e nos treinos tapava «os buracos», ou seja, jogava onde faltava alguém. Na altura, falei com o meu empresário para tentar encontrar uma solução para conseguir jogar de forma regular. Ele [o agente] apenas disse para manter-me calmo que ele ia falar com o treinador», refere.

Os dias sucederam-se e a situação de Bruno Lopes permanecia inalterada. O clube minhoto comunicou-lhe que seria emprestado ao Vilaverdense, algo que agradava ao jogador.

«Treinava à parte com um colega, enquanto o clube tratava da nossa situação. Um dia, estava em casa a descansar e recebi uma chamada do meu empresário. Disse-me que podia ir embora do Sporting de Braga, que não fazia parte dos planos do treinador e que podia fazer as malas. Nunca me disse com quem falou, ainda hoje não sei o que se passou. O meu empresário, à data, nunca me disse nada em concreto», frisa.

É importante referir que Bruno Lopes tinha assinado contrato com o Sporting de Braga, contrato esse que teria de ser rescindido com a assinatura do próprio atleta. Contudo, insiste que nunca rubricou qualquer pedaço de papel para se desvincular da formação do Minho.

«O que aconteceu? Não sei. Acho que o meu contrato nunca foi validado, não sei. Fiz a mala e vim para casa. Esperei que ele me dissesse alguma coisa. E acabei por esperar durante oito meses. O empresário apenas apresentou-me uma proposta: ir para um clube do Alentejo ganhar cerca de 100 euros por mês. Preferia ir para o Sousense, era mais perto de casa e as pessoas conheciam-me. A resposta do empresário? Que o Sousense só treinava em meio-campo. Não queria que fosse para lá e continuei à espera. A minha família pressionava-me e o tempo passava. O empresário dizia que tinha de cooperar com ele e de manter-me calmo», explica.

«Um dia fui ver um jogo dos juniores do FC Porto, no Olival aqui perto de casa. Encontrei o antigo treinador, que me tinha apresentado o empresário, e ele disse-me: “Não quiseste ir para o Sousense?”. E aí percebi que estava a ser enganado. Fui a um advogado e rescindi o contrato com a empresa de gestão de carreiras», acrescenta.

Em relação ao Sporting de Braga, nenhum contacto: «Nunca me disseram nada e nunca tive coragem suficiente para perguntar. Arrependo-me, claro. Ainda falo com o meu antigo treinador dos juniores, mas só falávamos de assuntos triviais. Nunca falámos sobre a minha saída do Sporting de Braga.»

Encontrou o (re)conforto no futebol no modesto Leverense, um clube que há três anos disputava a Primeira Divisão Distrital da A. F. Porto, o penúltimo escalão da maior associação do país.

«Em novembro comecei a treinar no Leverense, um clube localizado praticamente ao lado de minha casa, para não estar parado. Sem o empresário saber, claro. O clube queria-me inscrever, mas fui adiando até rescindir com a empresa de gestão de carreiras. O Leverense disputava, à época, a primeira distrital. Em fevereiro inscrevi-me num curso para completar os estudos e durante um ano e meio conciliei com o futebol. Acabei por dar prioridade aos estudos, naturalmente», conta, com mágoa.

Bruno Lopes apenas voltou a ser contactado pelo empresário aproximadamente dois anos após ter deixado o Minho.

«Recordo-me perfeitamente. Durante um exame de programação, o empresário enviou-me uma mensagem a perguntar se queria ir para o Oliveira do Douro [clube da Divisão D'Elite da A.F. Porto]. Queria que respondesse de imediato. Comecei a ficar nervoso. Quer dizer, contacta-me assim de repente? Pedi ao empresário mais pormenores acerca do clube e ele só me perguntava se queria ir ou não. Acabei por recusar», esclarece.

«Deixei de estudar e arrependi-me»

Em 2013/14 Bruno Lopes tentou conciliar os estudos e o futebol de alto nível. Porém, a situação tornou-se insustentável e o jogador acabou por não render, quer a nível escolar, quer a nível desportivo.

«Quando assinei pelo Sporting de Braga queria focar-me apenas no futebol. Porém, os meus pais não estavam de acordo com a minha decisão. Na altura, frequentava um curso profissional em Gaia e não havia equivalência em Braga, então estudava em Gaia e morava em Braga. Decidi tentar, convencido de que iria conseguir conciliar tudo. Acordava às 5h00 e pouco da manhã, para apanhar o comboio para Gaia às 6h00. Chegava a Gaia e apanhava o autocarro até ao colégio. Tinha aulas das 8h00 às 13h00. Adormecia nas aulas, chegava aos treinos e não rendia. Estava sempre cansado e chegou uma altura em que decidi que não ia mais. Três meses após terem começado as aulas, desisti. Dediquei-me apenas ao futebol. Agora arrependo-me dessa decisão, naturalmente», relembra.

Depois de ter saído do Sporting de Braga, Bruno Lopes ponderou voltar a inscrever-se na escola para concluir o secundário, mas aguardou pela chamada do empresário, contacto esse que nunca surgiu e o prazo para realizar a matricula expirou.

Atualmente, já tem o ensino secundário completo e está prestes a abraçar o primeiro emprego fora dos relvados. Em sentido contrário, deixou o futebol para recuperar de uma hérnia inguinal e ainda não se sabe quando irá voltar aos relvados.

«Perdi um pouco a motivação. Quando era miúdo não largava a bola, agora prefiro outras coisas. Naturalmente que ainda quero tentar chegar o mais longe possível, acredito em mim e quero que acreditem em mim. Depois de tudo o que passei, preciso que lutem comigo, preciso disso para singrar no futebol», remata.

Uma história que se confunde com tantas outras. Promessas incumpridas e sonhos, porventura, adiados. Longe das luzes da ribalta, Bruno Lopes tenta trilhar um caminho mais seguro que o leve de volta ao topo.