Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, história de vida e futebol.

«Desculpe, entrou-me um cliente na loja a pedir-me umas explicações. Tive de lhe dar atenção», desculpa-se, de pronto.

É assim que começa a conversa entre o Maisfutebol e Arlindo Gomes Semedo, um nome que pouco ou nada diz aos amantes do desporto-rei. Falamos de Cafú, avançado que passou por vários emblemas históricos do futebol português.

Aos 40 anos, Cafú ainda continua a sentir o prazer de jogar, agora ao serviço do refundado Maia Lidador. 15.º clube da carreira, mas com o apetite pelas balizas contrárias intacto: oito golos em 21 jogos.

«Só tenho 26 anos (risos). Continuo a jogar pela paixão pelo jogo. Jogar futebol é o que mais gosto de fazer. É pura paixão, nada mais. Sinto-me bem dentro do campo», refere Cafú Cafiuri, como é carinhosamente tratado por quem o conhece.

No emblema maiato, é comum Cafú cumprir os noventa minutos. Sem olhar à certidão de nascimento, o cabo-verdiano mantém-se «supercompetitivo» e revela o segredo para tamanho registo.

«O segredo para continuar a jogar é a forma como treino. Também tenho uma grande disponibilidade mental. Basta treinar bem. Claro que com esta idade sinto diferença ao nível da recuperação, mas a intensidade que coloco nos treinos faz a diferença. Hoje em dia sinto que se descura um pouco o lado físico do jogo. Melhorou-se o nível técnico, mas o lado físico está a cair no esquecimento. Vemos isso na Primeira Liga, onde a intensidade é muito baixa», considera.

Falamos de um jogador que esteve no escalão máximo do futebol português e do cipriota, que conquistou o campeonato no Chipre e que disputou meias-finais da Taça UEFA. Apesar do belo percurso, Cafú teve a humildade de ingressar no futebol amador para continuar ligado à sua «verdadeira paixão».

«Sou visto como uma referência pelos próprios colegas de equipa. Ao mesmo tempo, sinto que a minha presença ajuda os outros jogadores a manterem viva a esperança de chegar a patamares superiores», comenta.

Segundo Cáfu, a principal diferença entre os campeonatos amadores e os profissionais, encontra-se no «compromisso» que os atletas demonstram. «No futebol amador o compromisso não existe. O pensamento é: não ganhamos esta semana, ganharemos na próxima. Além disso, há atletas que trabalham, o que condiciona a assiduidade aos treinos. Não há compromisso nenhum, depois dizem que querem ganhar, quando não se preparam para tal durante a semana. Durante a semana é que se demonstra a vontade de vencer.»

Percurso de Cafú:

1996/97: Almada

1997/98: Almada

1998/99: Amora FC

1999/2000: Belenenses

2001/02: Belenenses

2002/03: Boavista

2003/04: Boavista

2004/05: Boavista

2005/06: Boavista/SF Siegen

2006/07: Friburgo

2007/08: Friburgo/Omonia

2008/09: Omonia

2009/10: Anorthosis

2010/11: Anorthosis

2011/12: AEL Limassol

2012/13: Alki Lanarca

2013/14: Académico Viseu

2014/2015: Feirense

2015/16: Freamunde

2016/17: SC Salgueiros

2017/18: Maia Lidador

Ao falar com Cafú é inevitável não referir o Boavista de Jaime Pacheco. Ao fazer uma retrospetiva, o atual jogador do Maia Lidador confessa que o clube axadrezado foi aquele que mais o marcou.

«Todos os clubes foram importantes para mim, mas o Boavista marcou-me imenso. De repente, estava num clube de grande dimensão e que lutava para ser campeão. Cá em Portugal, o Boavista marcou-me muito, quanto a isso não restam dúvidas. Foram os anos bons do Boavista, em que o clube se batia com o  FC Porto, o Sporting e o  Benfica de igual forma. Marcou-me mesmo bastante. Era uma dimensão completamente diferente!  De uma equipa grande, sabe?», explica.

O internacional cabo-verdiano marca quase meia centena de golos no Chipre, mas não considera que esses tenham sido os anos áureos do seu percurso: «Vivi grandes momentos no Chipre, foi uma grande fase, mas não sei se foi a melhor. Vivi uma boa fase no Boavista, apesar de termos passado momentos difíceis. No primeiro ano disputámos a Taça UEFA e só perdemos nas meias-finais. No Chipre joguei em equipas grandes, estava mais maduro e atuava como ponta de lança fixo. A exigência era maior, o campeonato era diferente e com uma pressão difícil. Havia muito dinheiro na altura e estavam sempre a querer lançar novos jogadores. Muitas vezes saí da equipa sem motivo e tive de voltar a conquistar o lugar.»

Cafú defende que hoje em dia o treino físico é «menosprezado» em detrimento do tático. Talvez seja por isso que Jaime Pacheco, conhecido por dar primazia ao treino físico, faça parte da lista dos treinadores que mais marcaram o experiente avançado.

«O Jaime Pacheco marcou-me pela forma de trabalhar, pela exigência que colocava em cada treino e a raça e vontade que pedia à equipa. O Boavista passou a ser conhecido por esse espírito. Marcou-me muito. Destaco também o Vítor Oliveira, que me deu a oportunidade de chegar à Primeira Liga e outros treinadores nas camadas jovens que sempre acreditaram em mim, quando nem eu acreditava. Guillermo Hoyos, no Chipre, também foi um técnico importante. Fez-me ver o futebol de outra maneira», elenca.

Curiosamente, em vésperas de novo dérbi da Invicta, entre FC Porto e Boavista, Cafú destaca um golo aos dragões com a camisola axadrezada como um dos mais especiais da carreira (já recordado aqui).

«Lembro-me de um golo ao FC Porto, no Estádio do Dragão. Foi a primeira derrota do FC Porto no novo estádio. Pelo Anorthosis, marquei três golos contra o Cercle Brugge, na 3.ª pré-eliminatória da Liga Europa e conseguimos apuramento. O estádio todo começou a gritar o meu nome, foi algo que nunca mais esqueci. Foi um jogo em que tudo saiu bem. Recordo-me de uma vitória do Omonia contra o AEK de Atenas do Rivaldo, por 1-0. Marquei o golo. Tive uma carreira com momentos engraçados», reitera.

«Consegui coisas que nunca esperava. Vivi grandes momentos no futebol. Fui um privilegiado pela carreira que tive. O jogador de futebol tem pessoas que vão aos estádios apoiá-los de propósito. É uma das profissões que toda a gente gostaria de ter, creio. O mais gratificante, é o reconhecimento que se obtém», continua.

O golo de Cafú ao FC Porto:

 

O profissionalismo deu lugar ao amadorismo e Cafú procura um trabalho longe dos relvados. Em abril de 2017, cria um centro de treino de electroestimulação [WIEMS PRO], ligado ao alto rendimento. Foi lá que, concretizando uma ideia antiga, encontra o conforto e felicidade que procurava.

«Neste momento tenho um centro de treino de eletroestimulação, em Matosinhos. Trabalho com alto rendimento, alimentação e saúde. Quando estive a jogar no Chipre, no Aik Lanarca [clube extinto] conheci um preparador físico, que era muito bom no treino físico. Até com pneus esse preparador físico nos colocava a treinar. Numa semana viu-se o trabalho do preparador físico. A equipa melhorou porque a intensidade de treino era outra. No Chipre, ele tinha um centro de treino de alto rendimento na garagem de um prédio. Como atletas deles, tínhamos liberdade para lá ir. Dava-nos cada coça. Pensei em trazer isso para Portugal», conta.

Regressa a Portugal e o profissionalismo tornou a ideia inexequível. Porém, Cafú não a larga até a concretizar.

«Fiquei sempre com isso na cabeça. Um amigo levou-me a experimentar um treino com electroestimulação muscular e dois dias depois estava arrasado. As dores musculares duraram-me uma semana. Juntei a electroestimulação muscular ao treino que gosto. Trabalho e recebo formações nessa área. E à noite vou jogar à bola, que é o que mais gosto», afirma.

40 anos, mais de metade com a bola colada aos pés. Cafú sabe que o fim está perto, é inevitável. Contudo, frisa a dificuldade em deixar a profissão pela qual é apaixonado e, ao mesmo tempo, que lhe deu o reconhecimento que aquece a alma.

«Este ano tenho dificuldade em jogar, por causa da loja. No início da época, surgiram propostas de equipas do Campeonato Nacional de Seniores que treinavam durante o dia, mas fui obrigado a recusar. O trabalho aumentou e não queria jogar mais, mas acabei por aceitar o convite do Maia Lidador. Dificilmente continuarei a jogar, por muita vontade e condições que ainda tenha. Por vezes não treino, tenho de acabar a formação. Não paro, tenho um desgaste brutal. Chego todos os dias a casa à meia noite. Sei que um dia terei de deixar. Exijo muito aos meus colegas, nem todos têm o meu compromisso. Acabo por ser um outsider, se calhar eu é que estou mal», reflete, antes de explicar por que razão é difícil pendurar as chuteiras.

«Já surgiram sondagens, mas dificilmente irei continuar. Não é fácil. Sinto-me capaz de treinar, de fazer a diferença e isso complica tudo. Se não conseguisse fazer essas coisas era simples. Está-me a custar, já estou há dois ou três anos a tentar deixar o futebol. Mas digo-lhe, não quero acabar a detestar o futebol.»

Para citar Shakespeare, «um homem que não se alimenta dos seus sonhos, envelhece cedo». Não é, certamente, o caso de Cafú.

FOTOS: Arquivo pessoal