Domingo à tarde é uma nova rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.
 

Aos 37 anos é figura em Faro, onde luta por regressar ao futebol profissional com o Farense. Veste a pele de goleador da equipa nesta fase de subida e não tem dúvidas que o histórico do São Luís merece mais do que o Campeonato de Portugal.

Falamos de Neca, internacional português por duas vezes, que em entrevista ao Maisfutebol falou sobre os 16 anos ao serviço do Belenenses, da descida em Guimarães e do ambiente empolgante e posteriormente hostil na Cidade Berço e dos anos na Turquia, quando ainda poucos portugueses emigravam para lá.

O melhor é voltar ao início do «sonho».

Recuámos então até 31 de janeiro de 1998, quando no Restelo Manuel Cajuda lançou o «menino Neca» num jogo com o FC Porto.

«Foi um sonho realizado, ainda em idade de júnior. Lembro-me quando fui chamado para treinar com os séniores e foi uma alegria imensa. O mister Cajuda deu-me a oportunidade de me estrear com o FC Porto e nunca irei esquecer.»

Quanto às palavras que ouviu antes de entrar em campo foram idênticas aos que muitos outros terão ouvido antes da estreia, mas são palavras que nunca se esquecem.

«Disse para me divertir, para fazer o que fazia nos treinos e desejou uma boa estreia», contou.

Jogava-se a época em 1997/98, Neca participou em mais seis jogos, sempre como suplente utilizado, e fez parte da equipa do Restelo que desceu de divisão. Os azuis de Belém ficaram no último lugar: «Para mim fica na memória a estreia com o FC Porto».

Neca seguiu com a equipa para a II Liga e a descida até pode ter tido um lado positivo para si: « Com a descida o clube não pôde fazer tantos investimentos e isso abriu-me a porta para jogar com regularidade. Fez com que me afirmasse de vez no Belenenses.»

O emblema da Cruz de Cristo subiu à I Liga, com Vítor Oliveira ao leme, e o ainda menino Neca voltou ao escalão principal, mas fez apenas 10 jogos. Foi pela primeira vez titular contra... o FC Porto.

«A sério? É um facto que desconhecia, mas fica o registo», disse Neca.

A afirmação demorou na I Liga e o médio lembrou uma figura emblemática do clube, que o ajudou quando ainda era um miúdo.

«Há um colega que nunca irei esquecer, o Tuck. No início da minha carreira, numa altura em que não estava a ser muito utilizado, ele disse-me umas palavras que eu agora costumo dizer aos jovens: ‘Trabalha para ti que se a oportunidade surgir vais agarrar com as duas mãos’. Isso ficou-me, não são umas palavras muito fortes, mas deu-me ânimo para treinar bem e para estar preparado.»

Marinho Peres chegou na época seguinte ao Restelo e com ele Neca ganhou outro protagonismo: «Foram os anos em que me senti mais útil, mais utilizado. Ele dava mais liberdade aos jogadores do meio-campo para a frente, foram anos que gostei bastante.»

Chegaram também os golos. Logo dois de uma vez num jogo com o Farense em 2000/01. Mais só na temporada seguinte e com o Sporting. Mais um«bis» do médio.

«Um penso que bateu no André Cruz e traiu o Nélson e o outro foi cabeça. Estes golos são sempre recordados porque são marcados a clubes grandes. É sempre bom lembrar isso.» (ver no vídeo abaixo)

Com o treinador brasileiro, Neca chegou mesmo à seleção, em 2002, e tornou-se internacional português:

«Fui chamado quando estava ao serviço do Belenenses. As pessoas viram que estava ali um jogador a dar nas vistas e isso deixou-me bastante feliz. Obviamente que é o momento mais alto da minha carreira.»

Jogou dois amigáveis, um com a Escócia e outro com a Tunísia, mas não regressou à seleção. A porta dos grandes esteve entreaberta nessa altura, mas não se concretizou.

«Ouviu-se falar muito que eu podia ir para o Sporting ou FC Porto. Falou-se mais no Sporting até e penso que, pelo que ouvi, o Belenenses pediu um valor muito grande pela minha saída. Ficou tudo em espera e não consegui representar um grande.»

Apesar da motivação, nunca se deslumbrou: «Estava empolgado por representar um clube grande, mas como nada foi concreto passou-me um bocadinho ao lado. O meu objetivo era continuar no Belenenses e ser titular.»

No final de 2004/05 a ligação ao Belenenses chega ao fim e Neca explica que nem foi da sua parte o interesse da saída.

«Senti da parte do Belenenses que não estavam a fazer muita força para eu continuar, entretanto apareceu uma proposta de Guimarães, sabia que eles iam à Europa e foi um desfecho que o Belenenses ficou arrependido por não fazer logo a proposta. Depois de assinar com o Vitória não havia nada a fazer.»

16 anos depois deixou o Restelo e o «clube do coração», que sonha um dia treinar, revelou depois de lhe perguntarmos se gostava de terminar a carreira no Belenenses.

«Era a cereja no topo do bolo! O Belenenses ficou-me no coração. Foram 16 anos que estive naquele grande clube e sem dúvida que era fantástico. Quem sabe daqui a uns anos não irei como treinador. Era um sonho!»

«Nós jogadores não conseguíamos andar em Guimarães»

Em 2005 rumou ao Minho, mais precisamente a Guimarães, para um clube que ia disputar a Taça UEFA.

A época começou bem, com o apuramento para a fase de grupos da prova, ao eliminar o Wisla Cracóvia, mas as derrotas na Liga foram-se acumulando. Jaime Pacheco foi substituído por Vítor Pontes, só que nem a alteração resultou.

«Não há explicação. Começámos muito bem na Taça UEFA, mas infelizmente em Portugal não conseguíamos ganhar. Havia sempre alguma coisa que acontecia. Foi um ano muito difícil, apesar de pessoalmente ter sido das épocas em que joguei mais. Para a equipa não correu bem.»

Em fevereiro houve um episódio que poderia ter dado o clique para tirar o V. Guimarães do fundo da tabela. Na receção ao Benfica, os adeptos organizaram um cordão humano antes do jogo para incentivar os jogadores:

«Foi uma coisa que nunca tinha visto, desde o hotel ao estádio, as pessoas a apoiarem-nos, nós numa posição muito difícil e as pessoas sempre a apoiar. Conseguimos ganhar, fiz o golo até [triunfo por 2-0, o outro golo foi de Svard].»

 

A equipa cresceu, iria eliminar os encarnados nos quartos de final da Taça de Portugal, mas foi nas meias-finais da prova rainha que esteve a chave da descida.

«Perdemos em Setúbal nos penáltis. Penso que foi aí que a equipa caiu muito. Se temos passado penso que conseguiríamos não descer de divisão, mas aí a equipa sentiu muito a eliminação e não conseguimos dar a volta.»

A descida consumou-se na última jornada com o Estrela da Amadora e Neca não esquece que as últimas semanas e a seguinte ao fim do campeonato foram muito complicadas.

«Lembro-me que durante semanas era treino, casa e quando saía tinha que ser numa cidade mais próxima. Nós jogadores não conseguíamos andar em Guimarães. Eles estavam descontentes, feridos e qualquer coisa podia haver algum problema. Não vivi nada de especial porque não andava muito na cidade e porque sabia que as pessoas adoram o clube e têm esse objetivo de estar sempre bem classificado.»

Saiu no final da temporada, até porque poucos foram os que ficaram com boa imagem: «Na altura falei com o presidente, ele sentia que eu deveria sair, aquele ambiente não era bom. Senti isso logo a seguir à descida. Houve jogadores que as pessoas não queriam que continuassem e eu fui um deles.»

Mas garante que de Guimarães tem muitas recordações boas.

«Tenho excelentes recordações. Adorei jogar no Vitória, apesar do clube ter descido. As pessoas são fantásticas e eu percebi a frustração delas, tal como a nossa. Tínhamos estado na Liga Europa e depois descemos. Guardo amigos e quase todos os anos vou lá.»

A passagem pela Turquia que teve um primeiro final...insólito

Do Berço viajou para a Madeira, para uma escala de meio ano no Marítimo antes de seguir para a Turquia. O Konyaspor apareceu com números que não se podiam negar.

«Naquela altura falava-se muito pouco de ir para Turquia, tive dúvidas, mas fui pela questão financeira. A proposta era impossível de dizer que não e o Maritimo também usufruiu e abriu as portas.»

Uma aventura que acabou por durar três anos, divididos entre o Konyaspor e o Ankaraspor. Viveu dificuldades, que se fizeram sentir desde o início. A principal era a língua.

«Não percebia nada, mas depois fui-me habituando, fui aprendendo alguma coisa em turco.  Era um pouco a linguagem futebol no balneário, o treinador também falava inglês para os estrangeiros e explicava-nos assim. Em alguns anos houve tradutor, quando havia muitos brasileiros.»

Histórias tem muitas e lembra uma relacionada com a religião: «No primeiro estágio fiquei com um turco e a meio da noite senti que ele se levantou. Estendeu o tapete e começou a rezar. Foi um bocadinho... estranho. Sentia-me deslocado.»

Dentro de campo sentiu que faltava cultura tática aos jogadores e que esse era o papel de quem vinha de fora. Apesar disso, descreve como «apaixonante» o futebol turco.

«As massas associativas de quase todos os clubes são fantásticas, as pessoas apoiam o clube da sua cidade e muito. Guardo excelentes recordações, quase todos os anos costumo ir lá passar férias, gostei bastante de lá estar.»

Regressou pelas «saudades», mas sobretudo por um motivo insólito.

«O presidente do meu clube concorreu às eleições de outro na mesma cidade, da I Liga, e ganhou. Ficou presidente de dois clubes da I Liga e a federação, obviamente, não permitiu. O nosso clube é que foi penalizado e deixou de competir. Não quis estar a mudar para outro clube, para outra cidade e regressei para o V. Setúbal. Estava com saudades do nosso futebol.»

Só que Neca não sabia que o futuro o iria levar de novo à Turquia e três anos depois regressou  para ajudar quem o tinha levado pela primeira vez.

«O presidente da minha altura no Konyaspor regressou e quis que o clube voltasse à I Liga turca e como gostava de mim contactou-me. Não podia dizer que não. Conseguimos subir de divisão, mas depois a família falou mais alto.»

Um ano depois e já com 34 anos regressou, mas para a II Liga, vestindo a camisola do Farense. Foi a sua primeira passagem por Faro e o regresso a uma divisão em Portugal em que não estava desde 1998/99.

«O primeiro ano no Farense não correu como eu queria, neste escalão há muitos jogos e não consegui adaptar rapidamente. No segundo ano consegui fazer boas exibições e alguns golos.»

Já tem curso de treinador, mas pendurar as botas não tem data

Finda a temporada 2014/15, Neca começou a acautelar o futuro e a abertura de um curso de treinadores em Lisboa faz com que deixasse o Algarve e descesse ao Campeonato de Portugal. «Foi a pensar no futuro e eu não podia deixar passar a oportunidade. Assinei pelo Pinhalnovense, que esteve sempre de acordo que eu faltasse quando fosse para ir ao curso. Foi uma das principais razões.»

Completou o curso, acabou a época e o Farense voltou a chamar por si, para o atual ataque à subida à II Liga.

«Os dois anos que passei lá foram muito bons, adorei jogar no Farense, com uma massa associativa que sempre me apoiou. Este presidente convidou-me novamente para o projeto dele e aceitou logo.»

As condições no Campeonato de Portugal são diferentes para pior, naturalmente, assume o médio, contudo alerta para o talento: «Há jogadores de muito valor nestas divisões, como está provado com alguns que vão para a II e I Liga e conseguem ser titulares.»

Quanto ao facto de estar no terceiro degrau do futebol português nunca houve problemas de motivação. «Não estava habituado a este patamar, mas estou com a mesma ambição e vontade de triunfar como noutros anos anteriores. Sem dúvida que as condições não são tão boas, mas isso para mim nunca foi problema, tento sempre que o rendimento seja o melhor possível.»

O objetivo está em fazer o Farense regressar aos campeonatos profissionais, já que o «ambiente do São Luís faz falta» nesses escalões.

Quanto ao fim de carreira ainda não tem data, mas tem um objetivo: «Quando vim para cá foi com o intuito de subir de divisão e de acabar nos campeonatos profissionais.»

Só que enquanto se sentir bem... não lhe retiram o convívio com a «redondinha».

«Sinto-me bem, fisicamente ainda sou capaz de jogar e enquanto me sentir assim vou continuar, porque é o que gosto mais de fazer. Apesar dos 37 não penso se será para o ano ou daqui a dois.»

Despediu-se da I Liga aos 33 anos, talvez num adeus que não pensasse ser definitivo. Talvez tenha sido, não se sabe, mas tem a noção que será quase impossível, já que em Portugal olham muito para o Cartão de Cidadão.

«A partir dos 30 já me chamavam veterano, por isso... Já estou habituado a que digam que sou velho, mas se eu ainda cumprir dentro de campo e se o treinador assim o entender vou continuar a jogar.»

 

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