Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.

 

Já alguma vez pensou no que sentiriam os jogadores ao safarem-se da descida?

Sim, porque isto de ser campeão e vencer é tudo muito bonito, mas…e o outro lado? O dos que têm a corda na garganta até ao derradeiro apito.

Esta é a história de um grupo que fez do desespero algo inesquecível. De um soco no estômago, uma chapada de luva branca. Das críticas, a força.

Em pouco mais de uma semana, Mirandela foi do inferno ao céu, mas dessa ascensão ninguém vai querer recordar no futuro.

Dois anos depois de ter lutado pela subida à II Liga, esta época dos transmontanos teve emoção e drama até ao final.

Estou aqui a falar consigo e o meu coração ainda está a bater pá, ainda não passou, pode acreditar! Já não aguenta tanta coisa. Foi melhor do que um sonho»

Carlos Matos, Matos no futebol, foi herói em Trás-os-Montes há pouco mais de uma semana.

Diante do Tourizense, o avançado de 27 anos esteve no lance do golo que igualou o play-off de manutenção do Campeonato de Portugal ainda antes dos vinte minutos.

O tento foi-lhe atribuído pela imprensa presente nesse jogo, embora tenha sido Pedro Postiga a confirmá-lo, na recarga. Certo é que esse golo acalentou o sonho do Mirandela em permanecer no terceiro escalão do futebol português.

Na época de estreia no Mirandela, Matos apontou 4 golos em 30 jogos (Foto: arquivo pessoal)

Em conversa com o Maisfutebol, o jogador natural de Paços de Ferreira contou um pouco da experiência vivida. Ao que parece, não deixou muitas saudades.

«Não foi nada fácil para nós gerir tudo isto. Ainda na fase de manutenção, um golo concedido aos 90+6’ frente ao Trofense deu-nos um empate. Se vencêssemos, conseguíamos garantir logo a permanência, mas fomos parar ao play-off», lembrou.

Estiveram tão perto de safar-se, mas acabaram no «mata-mata». Nos play-off, o Mirandela deixou pelo caminho o Carapinheirense, mas foi diante do Tourizense que as coisas pareceram complicar-se.

Depois de uma derrota em Touriz (2-0), muitos deram o Mirandela como despromovido. O fantasma dos distritais ecoou pelos cantos do balneário.

Até que uma voz resolveu falar mais alto.

Um até já ao futebol que encorajou até os mais céticos

A receção ao Tourizense representava o tudo ou nada para o Mirandela. A derrota dias antes tinha deixado marca, mas era necessário dar a volta, em nome do clube e da terra.

O mote para a reviravolta saiu da boca de um veterano capitão em lágrimas. Aos 35 anos, Rui Borges emocionou o grupo com um discurso carregado de simbolismo.

Mal sai do aquecimento e olhei à volta, senti um turbilhão de emoções. Sabia que era a última vez. No balneário não me contive. Disse-lhes para dignificarem a camisola, para acreditarem e, acima de tudo, para se divertirem. Transmiti-lhes as palavras que um colega meu me disse quando tinha 19 anos: “diverte-te, porque passa rápido, terás trinta e tais não tarda e, quando acabares, vais recordar esses momentos”»

Mais de duas décadas de ligação ao futebol tiveram um ponto final nesse jogo, na sua terra-natal, diante da sua gente.

«O meu pai foi jogador aqui, o meu filho já o é também. Para mim foi uma honra ajudar o clube do meu coração. Foi a situação mais difícil que vivi enquanto jogador, uma época muito complicada. Mas, mal o jogo acabou em Touriz, sabia que era possível virar o resultado. Felizmente aconteceu, foi uma alegria imensa», afirmou.

Rui Borges cumpriu a segunda e última época no Mirandela depois do regresso (foto: Facebook)

Na lotaria dos penáltis, o médio foi o primeiro a converter. Nos seus ombros sentiu um peso nunca antes sentido.

«Foi o mais difícil e com mais responsabilidade da minha carreira. Sabia que era fundamental para o futuro do meu clube de sempre, para a minha terra. Vou ser sincero, naquele momento pensei no meu avô, que perdi há três anos. Sei que ele me ajudou. Depois foi como uma subida de divisão, uma sensação única», revelou.

A salvação do Mirandela teve um duplo sabor para Rui Borges. A partir da próxima época, o agora ex-jogador vai assumir o comando técnico da equipa transmontana.

«Recebi o convite da direção e aceitei de bom grado, consciente da responsabilidade mas também da honra que é. Prometo dar o máximo para cumprir os objetivos do clube, sendo que um dos principais é não repetir esta situação (risos). Esta terra gosta muito de futebol e merece mais», frisou.

O futebol como pretexto para uma grande amizade

O discurso de um capitão emocionado foi o clique que faltava para criar um ambiente propício à crença. Ali não houve lugar apenas à fé, nem às orientações técnico-táticas. Houve um grupo unido pela amizade.

«Vi muitos ao meu lado a chorar. Pensámos que o Rui Borges, uma pessoa tão querida para nós e para a cidade, não podia despedir-se assim. Mal entrámos em campo soube que íamos conseguir dar a volta. No fundo íamos lutar pela subida de divisão, porque já tínhamos sido despromovidos pela classificação. Portanto era subir ou descer, foi assim que vi a coisa», disse Matos.

Matos e Rui Borges foram titulares no derradeiro encontro frente ao Tourizense (Foto: arquivo pessoal)

Noventa minutos de emoções fortes, mais meia hora de nervos e penáltis com muitas unhas roídas.

O Mirandela conseguiu ser melhor e venceu 5-4. Aqueles homens, que dias antes tinham sido dado como derrotados, conseguiram contrariar as probabilidades, salvando-se no último suspiro.

Este ano as condições não foram as melhores. Um ano pareceu dois. Já tinha sido campeão antes [no S. Martinho] mas aí tínhamos tudo e do melhor. O sabor disto foi melhor, devido às adversidades. Não tínhamos nada, mas isso juntou-nos. Fizemos da descrença a nossa força. Até nos lembrámos daquela reviravolta do Barcelona. No final comecei a chorar sozinho, tudo abraçado. Demorámos mais de uma hora a tomar banho, porque não conseguíamos. Foi tipo uma festa de subida»

O rapaz da Capital do Móvel, que chegou a passar pela formação do FC Porto, viveu um pouco de tudo na época de estreia na terra das alheiras. Apesar de ter feito poucos golos, o último deles, ainda que a meias, devolveu o sorriso ao povo.

«Mirandela é conhecida sobretudo pelas alheiras, é um facto. Aqui não tipo centros comerciais ou assim. Não temos muita coisa, mas temos tudo. As pessoas são fantásticas, não nos deixam faltar nada. O que falta em distrações, as pessoas compensam com a humildade e amizade que dão. Epá, e as alheiras daqui não têm nada a ver com as outras (risos)», referiu.

Aos 27 anos, diz que «já não sonha muito», mas assume que gostava de «acabar a carreira dizendo que um dia tinha sido profissional de futebol».

Ainda assim, de uma coisa tem a certeza: experiências destas nunca mais.

Na próxima época queremos garantir a manutenção o mais rápido possível e fugir destes fantasmas todos. Não há condições para subir, mas este é o lugar do Mirandela, é ótimo para a cidade e para a região. Espero não voltar a passar por isto, já deu para ver como é que é. Foi bom, mas chega, nunca mais mesmo»

Quando as pessoas se unem em torno do futebol, nada ou quase nada é capaz de quebrar essa união. Num futebol em que só interessa quem ganha, fica o exemplo de como ele pode ser muito mais do que isso.

As medalhas são apenas memórias físicas. Os jogadores do Mirandela não tiveram direito a uma, mas sentiram da mesma forma.

 

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