Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e de futebol.

 

«Cheguei a ponderar pendurar as botas, mas dei ouvidos ao meu filho e agora estou feliz»

Já depois dos trinta, a carreira de Cléo esteve muito perto de conhecer um fim, mas a paixão pelo futebol falou mais alto e o destino encarregou-se de o recompensar.

Em semana de Taça, o Maisfutebol conta a história de um ponta de lança que se reencontrou com os golos, no mais recente tomba-gigantes da prova-rainha.

No Cova da Piedade, o dianteiro tem andado de pé quente, com três golos anotados nos três últimos encontros para a II Liga, sempre depois de sair do banco de suplentes, o que permitiu ao clube do concelho de Almada manter o registo invicto desde a chegada de Bruno Ribeiro ao comando técnico.

Nem o próprio imaginaria isso há uns meses.

«Estive muito tempo sem jogar. Já tinha deixado o Goiás por não sentir que tinha condições para dar o meu melhor pelo clube. Uma lesão no gémeo esquerdo chegou a por em risco a minha continuidade no futebol, mas resolvi dar ouvidos ao meu filho e foi a melhor decisão que podia ter tomado. Só que vim para o Cova da Piedade e lesionei-me no outro gémeo, daí só estar a ser mais utilizado agora», começou por dizer, em conversa com o nosso jornal.

Um regresso aos relvados coroado com golos e também o regresso a um país que o viu despontar para a Europa do futebol.

É que, apesar de ser um nome relativamente desconhecido para os portugueses, Cléverson, Cléo no futebol, já esteve sob as luzes da ribalta e agora voltou ao ponto de partida.

«Levaram cartazes com a minha cara para os jogos e queimaram»

Ainda na flor da idade, o menino do Paraná rumou a Portugal e ao Olivais e Moscavide, naquela que seria a primeira aventura no futebol europeu.

No mesmo balneário, nomes como Miguel Veloso e Saleiro eram ofuscados pelo «gozão» de serviço, Serginho, atual adjunto de Rui Vitória no Benfica.

«Era um ambiente fantástico, mas para mim foi complicado até a nível emocional. Senti necessidade de regressar ao Brasil e, quando voltei, já trouxe a minha família, tudo me correu bem melhor», explicou.

Os 16 golos em 36 jogos despertaram o interesse do Estrela Vermelha e Cléo acabou mesmo por rumar à Sérvia, primeiro por empréstimo, onde viveu a época mais auspiciosa da carreira.

Mas ao serviço do grande rival.

Cléo disputou a fase de grupos da Champions em 2010/11 e defrontou o Sp. Braga (foto: arquivo pessoal)

O Estrela Vermelha não aceitou pagar a quantia pretendida pelo clube português e, já como jogador livre, Cléo rumou ao Partizan.

Uma mudança nada fácil.

Sempre tive respeito pelos dois clubes e nunca sofri na pele essa rivalidade, mas ao início eu e a minha família tínhamos realmente algum cuidado para não sair muito à rua. Os adeptos sérvios são como os brasileiros, vivem o futebol de forma intensa, para o bem e para o mal. No jogo em que regressei ao estádio do Estrela Vermelha, o Partizan ganhou 2-1 e eu marquei o golo da vitória. Levaram cartazes com a minha cara e queimaram, para fazer pressão, mas não resultou (risos)»

Ao serviço do clube do Partizan disputou uma fase de grupos da Liga dos Campeões, conseguida com três dos seus golos no play-off.

Partilhou balneário com o «tímido» Ljubomir Fejsa (Benfica) e também com Radosav Petrovic (Sporting) e encontrou no guarda-redes Stojkovic (ex-Sporting) um tradutor conveniente para ajudar à sua adaptação.

As coisas correram tão bem que, hoje em dia, quem olha para o seu passaporte vislumbra duas nacionalidades.

E porquê? Bem, não podia fazer a desfeita.

Um dos jogos do Partizan terminou com o estádio a entoar o meu nome e a pedir para ser sérvio. Depois foi o primeiro-ministro que me pediu. A seleção sérvia estava carente de avançados e eu andava a marcar muitos golos. Tive até direito a uma cerimónia na “Casa Branca sérvia” (risos). Apesar de nunca ter representado a seleção, porque não estive o tempo suficiente, guardo esse gesto e essa honra para o resto da minha vida»

Após quase três anos na Sérvia, Cléo rumou à China, para o Guangzhou Evergrande, e daí para o Japão, onde passou uma época ao serviço do Kashiwa Reysol.

«Naquela altura, o futebol chinês não estava tão desenvolvido como agora, havia poucos brasileiros. Mas Guangzhou era uma cidade muito boa, havia de tudo. Na alimentação era um pouco mais complicado, mas depois aprendemos a respeitar os costumes do país e foi bem “legau”», assegurou.

Cléo esteve no Guanghzou Evergrande ainda antes da chegada de Scolari (foto: arquivo pessoal)

«O futebol para mim já não tem interesses por trás, é puro prazer»

Depois de três anos no Brasil, regressou, então, a Portugal e a Lisboa. Desta vez na margem sul do Tejo. No Cova da Piedade renasceu para o futebol.

«Tinha clubes do Brasileirão a perguntar por mim, mas optei por aceitar o convite do senhor Long (dono do Cova da Piedade), que já me conhecia desde quando joguei na Ásia. É um clube que teve um forte investimento e aposta na subida ao primeiro escalão. Uma equipa humilde, com um bom espírito, e quero ajudá-la a conquistar os objetivos propostos. Agora estou feliz, para mim o futebol já não tem interesses por trás, é puro prazer», sublinhou.

Por estes dias, o emblema piedense está em estado de graça, após eliminar o Marítimo da Taça de Portugal, nos Barreiros, na lotaria dos penáltis.

É um momento fantástico para o clube, um sonho, mas mantemo-nos com os pés no chão. É uma competição boa para os jogadores se mostrarem e derrotar uma equipa da primeira liga é especial. Curioso que todos comentaram que foi menos intenso do que os na II Liga, mas mais técnicos. Desde que fui embora de Portugal (2008), o futebol evoluiu muito. A II Liga é mais competitiva e na I Liga os jogos resolvem-se nos detalhes»

Quanto ao próximo adversário da Taça, o avançado não tem preferências.

«Neste momento já só há boas equipas em prova, então o que vier será bom. Jogar frente a um grande em casa seria especial para a “torcida”, por isso era bom que assim fosse», afirmou.

Aos 32 anos, Cléo ainda sonha jogar no primeiro escalão português, algo que nunca conseguiu nas duas anteriores passagens.

«Nunca se sabe, é claro que gostaria. Aliás, uma vez cheguei a falar com o Serginho, porque havia a possibilidade de me levarem para o V. Guimarães, mas nunca se concretizou. Mas estou bem no Cova da Piedade, a jogar e a marcar. O mister Bruno Ribeiro tem sido muito “bacana” comigo e o meu foco está aqui», garantiu.

Procurar a felicidade num sítio onde já se foi anteriormente. O contrato acaba no final da temporada, mas Cléo não pensa nisso, apenas em desfrutar do futebol em estado puro.