Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.

 

«Éramos os metralhas. Fogo, essa foto...belos tempos!»

Não foram três mosqueteiros, mas a lenda ainda perdura pelos lados da Luz.

Em 2001, José Mourinho chamava com frequência três rapazes da equipa B para treinar com a equipa principal. Ficariam conhecidos como os três metralhas.

Dezassete anos depois, o Maisfutebol foi dar com um deles a jogar nos distritais.

Aos 41 anos, o central Nuno Abreu voltou a casa e é um dos titulares indiscutíveis do Carcavelos, 7.º classificado da Série 2 da 1.ª Divisão da AF Lisboa, competição que findou esta semana.

«Precisava de assentar e aceitei o convite do Pedro Major (treinador) e do Miguel Major (diretor), meus amigos de infância. Além disso era uma espécie de promessa. O meu pai sempre disse que iria voltar ao Carcavelos um dia e assim foi. Estou mais perto de casa e do meu emprego. Só assim é possível conjugar tudo agora», começou por dizer.

Mais de vinte anos depois do início da carreira e quase o mesmo número de clubes, Nuno regressou às origens. Está há duas épocas a comandar a defesa da equipa da Linha, local onde tudo começou.

«Iniciei a minha formação a sério no Carcavelos e depois fui para o Estoril, ainda no tempo do Fernando Santos. O Carlos Manuel, o meu pai da bola, chamou-me então à equipa principal. Fazia três treinos por dia, nos vários escalões, porque sempre quis ser jogador de futebol», indicou.

Depois de sair para o Estoril andou por vários clubes, numa espécie de viagem a Portugal, que teve até passagens pelas ilhas. Acabaria por pousar em Lisboa, no Benfica B, após uma época ao serviço do Portimonense.

Foi na equipa B dos encarnados que viveu um dos períodos mais felizes da carreira. Na Luz viviam-se então tempos algo conturbados, com Vale e Azevedo à frente dos destinos do clube, e dentro de campo os resultados também não eram famosos, o que levou à troca de Jupp Heynckes por um tal de José Mourinho.

Nuno Abreu (esquerda) e Geraldo (irmão de Bruno Alves) formavam a dupla de centrais do Benfica B

«Pensava que estava lixado com o Mourinho, mas afinal...»

Em 2000, a direção do Benfica resolveu apostar em José Mourinho como substituto do treinador alemão e foi aí o princípio de uma «história bonita» para Nuno Abreu.

«Na altura sabíamos que tinha sido uma aposta de risco. Um jovem que tinha sido adjunto do Van Gaal não é muito habitual. Mas desde o início que vimos nele coisas diferentes. Agora, estávamos longe de imaginar onde chegaria», confessou.

A imagem do jovem Mourinho continua bem presente na cabeça de Nuno. Mas também é normal, tendo em conta que foi o Special One que começou a acreditar no seu valor.

«O Heynckes já me tinha chamado para alguns jogos. Vi do banco aquele célebre golo do Sabry frente ao Sporting. Mas só era chamado às vezes, com o Mourinho é que foi mais frequente», recordou.

O «careca», como Mou lhe chamava, ganhou então uma nova alcunha para os adeptos.

Eu, o Geraldo e o Diogo Luís éramos viris nos treinos, dávamos tudo e o Mourinho gostava disso, por isso passou a chamar-nos com maior regularidade. Ficámos conhecidos por metralhas, por essa virilidade»

Os metralhas, três miúdos vindos da equipa B, eram quase sempre notícia naqueles treinos do Benfica. No caso de Nuno até nem nunca disputou jogos oficiais, mas talvez fossem uma lufada de ar fresco numa equipa que não respirava assim tão bem.

Puxando a cassete atrás, como gosta de fazer, Nuno recordou um episódio especial com o treinador português.

«Num particular com o Marselha, o capitão deles estava farto de dar sarrafadas. “O gajo nem sabe o que o espera na segunda parte”, disse o Mourinho, já a olhar para mim. Fui a jogo e, já perto do final, há um canto a nosso favor. O Marselha pega na bola e sai em contra-ataque. Eu, para parar a jogada, faço uma entrada muito violenta sobre esse gajo, daquelas mesmo para vermelho direto, mas só levei amarelo»

«Uns dias depois», continuou, «estava a equipar-me para ir a jogo no dérbi dos B e dizem-me que o Mourinho estava à minha espera na rouparia. Pensava que me ia dizer que nunca mais me chamaria, devido à expulsão. Mas não, começa-se a rir que nem um doido. Diz-me: ”epá, foste o único capaz de travar aquela jogada que dava golo certo, mas porra!, tens de ter mais calma porque aquilo era vermelho”. Ele era assim (risos)», lembrou.

Durou pouco a aventura de Mourinho na Luz. A de Nuno também não tardaria a conhecer um fim.

«Veio o Toni e deixei de ser chamado. Não sinto qualquer mágoa, o futebol é assim, mas penso que esse episódio afetou a minha carreira», considerou.

Nuno deixou então o Benfica…

Era só craques: Poborsky, João Vieira Pinto...mas foi o Dani que mais me impressionou, de longe. Era uma coisa parva, punha a bola onde queria, impressionante», interrompeu.

Depois de três anos na Luz voltou a fazer-se à estrada, numa viagem interminável em que conheceu mais de uma dezena de emblemas, entre os quais o Olivais e Moscavide, onde ganhou outra alcunha nova.

«Sargento Abreu é uma alcunha que me persegue até aos dias de hoje. Acho que era por ser alto e duro, impunha respeito. A moda pegou com um vídeo que está no Youtube, de um golo que marquei lá», explicou.

Os tempos de profissional já lá vão, mas Nuno faz questão de continuar a alimentar o vício de sempre.

No fundo, só mudaram as prioridades.

«Com duas filhas fica difícil ter tempo para tudo, mas vou-me safando. Acordo às 7h para as por na escola e trabalho das 9h às 18h numa empresa de retalho, na parte logística. Ao sair vou buscar as miúdas e depois ainda tenho treinos. É difícil mas vai-se fazendo», afirmou.

Aos 41 anos já não tem a mesma frescura de outros tempos, mas procura manter-se ativo, arranjando até uma espécie de trabalho de verão.

Parece que férias é uma palavra que não consta no seu dicionário.

Dos relvados aos areais, por culpa de Chalana

Há cerca de meia-dúzia de anos que o metralha do Benfica enveredou por outra modalidade, o futebol de praia.

O convite partiu de Fernando Chalana e de Zé “Gato”, com quem tinha trabalhado na Luz. O clube encarnado tinha formado uma equipa para os areais e o central resolveu experimentar.

Adoro jogar futebol de praia. Na altura lembro-me de ter sentido dificuldades, logo para começar porque jogamos descalços, o que muda tudo. Mas é ótimo para manter a condição física. Agora estou no Belenenses e disputo nos verões o campeonato nacional»

Nesta altura prefere não traçar planos para o futuro, mas garante que tenciona «jogar mais um ano», ponderando prosseguir a carreira de treinador (tem o nível 1).

Aos 41 anos, Nuno divide-se entre o futebol e o futebol de praia

Uma coisa é certa. Seja nos relvados ou nos areais, há algo que teima em não desaparecer.

A alcunha de outros tempos.

«Hoje ainda se lembram de mim como um dos metralhas. É engraçado, porque ainda hoje mantenho uma boa relação com o Geraldo e o Diogo Luís por causa disso. Para ser sincero não me incomoda nada, porque me traz boas recordações. Foram tempos que quero recordar para sempre.»

 

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