Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.

Há convites que não se recusam, há carinho que se quer sentir.

Foi, mais ou menos, por estes motivos que Daniel Materazzi deixou a II Liga e voltou ao Algarve para capitanear o Olhanense.

Materazzi, de Gondomar e não o de Lecce como o Marco (ex-Inter de Milão), regressou ao José Arcanjo esta temporada, na qual o Olhanense volta a competir no Campeonato de Portugal depois de 13 anos entre I e II Liga.

O defesa-central, tal como o Olhanense, também abandonou os escalões profissionais, após cinco anos na II Liga, tudo por causa da ambição de trazer o clube algarvio para o lugar que merece.

O Maisfutebol falou com o Materazzi português, quis entender os motivos e recuou até ao virar do século para falar do Salgueiros, clube no qual se formou e no qual chegou a treinar com nomes como Miklos Féher, Paulo Lopes, Délcio, Ricardo Nascimento, entre outros.

«Olhanense tem um peso estrondoso neste campeonato, contra nós todos dão a vida»

Três jogos no Campeonato de Portugal, sete pontos, zero golos sofridos e um terceiro lugar a dois pontos do líder Farense. Este é o início prometedor dos algarvios na luta pelo objetivo a que clube e Materazzi se propuseram.

O central já tinha estado em 2015/16 no clube, mas saiu para o Fafe no último ano e agora regressa. Eis os motivos: «Senti de novo a vontade das pessoas. Como é óbvio queria ter continuado na II Liga, mas sendo o Olhanense o clube que é e com o prestígio que tem… Sabia que para descer ao Campeonato de Portugal teria de ser para um projeto desta dimensão. Desde que fui abordado senti o carinho das pessoas e que era o projeto mais ambicioso de todos.»

Para o defesa não há volta a dar quando se veste a camisola do Olhanense, tem de ser para subir: «Quando estive aqui fui feliz, agora volto de coração aberto para conseguir os objetivos. O objetivo é subir, não há como negar, um clube desta dimensão tem de estar um patamar acima, pelo menos. Estamos no bom caminho, todos juntos temos tudo para conseguir esse objetivo.»

Ao leme deste barco está um homem da terra, Bruno Saraiva. Para o treinador, que já terminou a época passada, só tem elogios.

«Esta é uma luta difícil para a qual nos estamos a preparar, o mister tem sido importante. Já o conhecia aqui de Olhão e está a incutir a mística dele no grupo para mostrar a grandeza do clube, vai ser uma luta grande e vamos fazer de tudo para no final sorrir.»

Esta queda ao Campeonato de Portugal trouxe ao Olhanense novamente a realidade regional e os dérbis, já que durante anos apenas foi encontrando o Portimonense na II Liga.

«Existem mais dérbis regionais, quase semana sim semana não, e isso nota-se na bancada, que tem estado muito bem composta. Peço a todos os olhanenses para seguirem do nosso lado, porque nós vamos dar tudo em campo para puxar cada vez mais gente para o estádio. O Olhanense tem um peso estrondoso neste campeonato e isso sente-se, contra nós ninguém quer perder e dão a vida, como se costuma dizer.»

Ora, essas rivalidades trazem mais adeptos, mas para Materazzi têm tido uma consequência negativa: «Os nossos jogadores mais criativos têm sido vítimas de entradas mais duras. A II Liga tem muita luta, mas aqui tenho sentido que se usa e abusa da dureza. Temos uma equipa de posse, que gosta de ter bola e dominar, e principalmente os nossos jogadores mais criativos têm sido bastante castigados. A maior parte dos nossos jogadores vieram de divisões superiores, estão habituados a campeonatos profissionais e sejam do Olhanense ou não os que têm mais qualidade merecem ser protegidos. São eles que vão dar mais qualidade ao Campeonato de Portugal.»

Apesar disso, o Olhanense tem vencido e no fim de semana há mais um dérbi regional, frente ao Vila Real de Santo António: «Temos no campeonato zero golo sofridos e isso não é só pela defesa porque começamos a defender pelos avançados. É uma marca que nos enche de orgulho e que queremos prolongar, porque quem não sofre está sempre mais perto de ganhar. Já na pré-época demonstramos essa solidez, só sofremos um ou dois golos, e até agora não sofremos nenhum, o que é um prémio.»

«Tenho 32 anos, mas não sinto o peso»

Daniel Materazzi tem sido, naturalmente, aposta de Bruno Saraiva para as contas da titularidade e é o pilar defensivo da equipa. Por onde passa é sempre esse o estatuto que tem e os números nas épocas na II Liga comprovam-no.

2016/17: Fafe, 30 jogos

2015/16: Olhanense, 46 jogos

2014/15: Santa Clara, 27 jogos

2013/14: Leixões, 46 jogos

2012/13: Tondela, 21 jogos

«Tenho 32 anos, mas não sinto o peso. Treino todos os dias da mesma forma como jogo, quem me conhece sabe que sou um trabalhador nato, ponho sempre os objetivos da equipa à frente. As lesões têm ajudado, o que me permite fazer sempre perto de 40 jogos e isso traça o meu perfil», afirmou.

O defesa nunca conseguiu dar o passo final para a I Liga, depois de um percurso a pulso.

«A I Liga sempre foi um sonho, um objetivo e sempre trabalhei para isso. Já merecia após algumas épocas muito boas, podia ter entrado nesse mercado, mas por um ou outro motivo acabou por não dar certo. Não vivo obcecado, mas ainda acredito. Trabalho todos os dias com objetivos mais altos e a única certeza que tenho é que caso não chegue lá não foi por falta de trabalho, mas sim por falta de oportunidade.»

Numa altura em que as grandes equipas, veja-se o exemplo do V. Setúbal, olham cada vez mais para as divisões inferiores, será que uma boa época pode levar Materazzi a um salto?

«Acredito que se subirmos, que vai acontecer, pode relançar algo na minha vida, mas não vivo obcecado e estou focado e feliz no Olhanense e quem sabe até fique aqui. Respeito muito este clube, tem um peso muito grande ter assumido outra vez a braçadeira de um histórico, aqui sinto o carinho das pessoas e eu quero estar onde me sinto feliz.»

O porquê da alcunha, que nasceu no balneário do Salgueiros?

O Daniel começou a formação no FC Porto e nos juvenis passou para o vizinho Salgueiros, tendo sido aí que passou a ser o Materazzi. Tudo por parecenças físicas, garante.

«Surgiu no meu primeiro ano de júnior, quando ia treinar nos seniores. Nesse plantel com o Marco Silva (agora no Watford), Ricardo Nascimento, Paulo Lopes (Benfica), Delson, trabalhava diariamente com eles. Na altura tinha o cabelo grande e já era muito alto e começaram a comparar-me ao Materazzi, diziam que eu era parecido.»

Continuou a explicação, dizendo que nem sabe se foi algo bom ou mau:

«As coisas estavam a correr bem, porque quando subimos vamos com tudo para mostrar serviço e os mais velhos apadrinharam-me dessa maneira. Foi um nome que nunca mais se dissociou. Não sei se foi bom ou mau, porque às vezes, antes de me conhecerem, associam à dureza do Materazzi e eu não sou esse jogador violento, não tem nada a ver. Teve mais a ver com as parecenças físicas. No mundo futebol a mensagem passa rápido.

E concluiu: «Se na II Liga perguntarem pelo Daniel que jogou no Leixões ninguém sabe, mas se perguntarem pelo Materazzi (risos)… Sinto-me orgulhoso porque é um jogador que foi campeão do mundo e da Europa de clubes.»

Mas desse tempo em que era um miúdo e no qual partilhava balneário com alguns jogadores já reputados no futebol português, num clube histórico do Porto, recorda-se de uma zanga no balneário:

«Lembro-me da história, mas não dos intervenientes. Era um miúdo e quando vamos aos seniores ficamos deslumbrados e estamos atentos a tudo à nossa volta. Lembro-me de uma picardia que houve no balneário em que um jogador molhou a roupa de outro e quando este chegou ficou chateado. Dois dias depois o que tinha feito a partida veio de calças e o outro, que já tinha descoberto quem lhe molhara a roupa, pegou nas calças e fez delas uns calções (risos).»

Mas dali veio uma lição: «Foi uma chatice muito grande, como se diz ‘Se não queres brincar não brinques!’.»

Daniel Materazzi conseguiu chegar aos seniores do Salgueiros, pela mão de Norton de Matos, embora numa fase em que o clube militava na II Liga. Dali saiu para o Freamunde e passou pelo Rebordosa, Lusitânia Lourosa e Gondomar até assinar pelo Tondela, clube no qual subiu à II Liga e que representou durante um ano nesse escalão.

Foi subir a pulso, o que o deixa orgulhoso: «Tem mais sabor, aquilo que conquistei foi fruto do meu trabalho, comecei debaixo a lutar pelo meu espaço, em todas as equipas tenho deixado a minha marca, conseguido impor-me e isso tem um sabor especial para mim. É um caminho mais difícil, é conquistado, do que quem sai de uma equipa grande e está contratualmente ligado a esse clube durante 4 ou 5 anos e conseguem mais facilmente entrar noutros clubes.»

«Nós subimos a pulso e é através da semana de treinos e dos jogos que tentamos subir», concluiu.

Agora vive um novo sonho algarvio e quer deixar o seu nome gravado numa subida aos campeonatos profissionais. Um nortenho de gema perfeitamente adaptado ao Algarve.

«Temos de estar onde nos sentimos bem e aqui sou feliz, a minha família sente-se bem, sinto o carinho. O clube tem-me dado todas as condições, não têm faltado com nada ao grupo e as pessoas estão a trabalhar para conseguirmos os nossos objetivos.»