Uma lenda constrói-se assim. Subtil e escrupulosamente, em busca do impossível. Esbate convenções, ridiculariza as probabilidades e afronta os mais rigorosos aforismos. Assim se edifica um mito, assim Just Fontaine eternizou a sua marca no galarim dos notáveis.

13 golos no Campeonato do Mundo de 1958. Uma marca sublime, inatingível, utópica. Uma herança do futebol romântico, moldada pelos pés certeiros da glória francesa. Em seis jogos apenas, Just Fontaine acedeu ao restrito mundo dos imortais.

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52 anos depois, no mesmo 26 de Junho que viu o culminar dessa série perfeita, Just Fontaine desfila memórias e partilha emoções resgatadas ao tempo. Tudo numa entrevista histórica ao Maisfutebol. «Esse foi o mais belo dos sonhos. Lembro-me de todos os golos que marquei, desde o primeiro ao último jogo.»

A cerimónia faustosa começou sob os bons auspícios do hat-trick ao Paraguai. Depois mais dois golos, na derrota contra a Jugoslávia. E mais, só mais um, na baliza da Escócia, antes de bisar diante da Irlanda do Norte. A derrota diante do Brasil foi atenuada por mais um golo na conta pessoal, antes do máximo esplendor: quatro-golos-quatro à Alemanha, na partida de atribuição do terceiro e quarto lugares.

O 13, tantas vezes associado às agruras impostas pelo azar, é neste caso sinónimo de sacralização. «O segredo? O mais importante é saber jogar futebol, rematar bem e olhar sempre para a baliza contrária. Essa era a minha maior virtude: com a bola nos pés só tinha olhos para o golo.»

«Agora fazia o mesmo, era só marcar dois por jogo»



A sensatez domina a personalidade de Just Fontaine. 76 anos bem vividos, maturados entre o bulício de Toulouse e a modorra paradisíaca da Cote d'Azur. O antigo goleador envelheceu bem e guardou a paixão pelo futebol a sete chaves. Incólume, inerte, alheia à turbulência que devassou o futebol francês nas últimas semanas.

Do Mundial-58 exalam nostalgia e amargura. «Não fomos campeões do mundo. Essa é a minha mágoa», lamenta, antes de tomar a defesa do seu passado. «Se era capaz de fazer o mesmo no Mundial de 2010? Creio que sim. As melhores selecções cumprem sete jogos. Para marcar 13 golos só tinha de fazer dois por jogo.»

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Simples, desarmante, sincero. Até na hora de eleger o melhor de todos naquele Mundial da Suécia. «Mané Garrincha, apesar de também ter estado lá o Pelé, com 17 anos. Nesse torneio o Garrincha esteve impressionante. Fazia o que queria dos adversários. Era um abusador, um provocador nato», descreve, puxando a fita da memória bem lá para trás.

«Ele impunha medo aos defesas. Lembro-me que num jogo houve um rapaz sueco que o ameaçou com um gesto, como que a dizer 'assim não jogo mais'. Noutra altura, um defesa recuou, recuou, recuou, até reparar que já estava fora do campo. Tudo para evitar o confronto com o Garrincha.»

«Dei meio século e ninguém se chega à frente»

Just Fontaine lida bem com as palavras. Desfere frases fortes, eclodidas num sorriso farto. Por isso não se atrapalha, quando se pergunta o obrigatório: alguém conseguirá bater este recorde sobre-humano?

«Eu respondia sempre afirmativamente a isso. Mas já dei meio século e ninguém se chega à frente (mais risos). Começo a acreditar que me vou tornar numa múmia e o recorde continuará por bater.»