Entrevista Made In é uma nova rubrica do Maisfutebol. Conversas descontraídas com futebolistas portugueses a atuar em países distantes dos grandes palcos. Bom humor, pormenores raros e muitas recordações. Aqui o protagonista é sempre o jogador de futebol. Entrevista Made In.

Hugo Faria, Valletta FC, Malta

República de Malta, arquipélago no Mediterrâneo sul. Sete ilhas, 400 mil habitantes, território povoado de influência árabe, tons italianos e herança britânica. Multitude cultural num paraíso histórico da UNESCO.

Malta, país de futebol. Nas décadas de 80 e 90, adversário recorrente das cores portuguesas nas corridas para Europeus e Mundiais. Entre 1985 e 1993, oito jogos de caráter oficial: sete vitórias lusitanas e um escandaloso 2-2 no Funchal, minado pelas minudências do caso-Saltillo.

Boa vontade, nobreza de espírito e pouca inspiração nos relvados. O que sobra desta Malta, 20 anos após esse ciclo de duelos agendados à lupa no calendário internacional?

Hugo Faria, médio português de 31 anos, é jogador do Valletta FC – atual campeão nacional – desde julho de 2014. Na Entrevista Made In ao Maisfutebol, o antigo jogador de Louletano, FC Porto, União Leiria e Olhanense estende a toalha, põe o bronzeador e fala do jovem Estado.

«Vivo em Marsaskala, nos arredores da capital, La Valletta. Estou num país com 250 dias de sol por ano. A qualidade de vida é boa, sinto-me seguro e acarinhado. A comida é ótima também. Há muito a tradição de pizzas e massas», diz Faria.

Descobrir o país, assegura, é fácil e cómodo. «É tudo muito perto. Na ilha principal, entre o lado norte e o sul há uma distância e 40 quilómetros. Aconselho uma visita a La Valletta. Tem um porto de mar lindo, edifícios históricos bem preservados, vários bares e restaurantes».

Banhada pelo Mediterrâneo, Malta é também um país com uma forte ligação ao mar. «A água é temperada e transparente, mas há um problema: as praias são rochosas, quase todas. Para um algarvio como eu, isso é inadmissível (risos)».

Hugo Faria saiu de Portugal em 2008. Passou cinco anos no Chipre [Enosis Paralimni] e um na Grécia [Kallonis]. Agora, Malta e o Valletta FC. Curiosamente, sempre clubes insulares. Coincidência?

«É verdade, tenho estado sempre em clubes ilhéus. Mesmo na Grécia estive em Lesbos. Porquê? É uma mistura entre o acaso e a busca de boas condições de vida. Das três, a que mais gostei foi Chipre», conta Faria.

Internacional por Portugal nas camadas jovens e com uma passagem de dois anos pelo FC Porto, o que terá levado Faria a assinar por um clube de Malta? O tal acaso?

«Sim, lá está. Eu tive um colega de equipa maltês nos últimos dois anos. Em junho ele esteve com a seleção de Malta no Algarve e falámos. Falou de mim ao treinador do Valletta FC e lá vim eu», explica Hugo Faria. Mas há mais.

«Tínhamos uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões para jogar. Estreei-me, aliás, nessa partida frente ao Qarabag, do Azerbaijão. Perdemos 0-1 em casa e 4-0 fora. Era difícil fazer mais. O orçamento deles era dez vezes superior ao nosso».

Faria com o Valletta FC na Liga Campeões:

A BOV Premier League, escalão maior do futebol em Malta, tem 12 clubes e pouca expressão no próprio país. «Os adeptos olham sobretudo para Itália», esclarece Hugo Faria.

«O futebol aqui é essencialmente físico. As bolas paradas são fundamentais, pois a qualidade de jogo é baixa. Coloco o futebol de Malta ao nível do que se joga na Estónia e no Cazaquistão, ligeiramente acima do Luxemburgo e do Liechtenstein».

«Nunca fui um Cristiano Ronaldo, mas tenho mais ritmo e impus-me facilmente aqui», continua Faria, antes de enumerar alguns aspetos curiosos sobre a liga onde está atualmente.

«Para começar estranhei muito os treinos diários em piso sintético. Além disso o país só tem três estádios homologados, o que faz com que não exista, no fundo, a condição de visitado ou visitante. Todos os clubes rodam entre esses três recintos».

Faria voltou também a ter de trabalhar com a máquina de lavar roupa. Uma surpresa. «É verdade, é habitual os futebolistas trazerem o equipamento para casa e tratar dele. Temos de aceitar, são as regras vigentes no clube», atira, sempre num sorriso conciliador.

E prossegue. «Cada clube só pode ter cinco estrangeiros no onze inicial e um no banco. Os restantes são todos malteses e amadores. Isso é um transtorno pois treinamos muitas vezes da parte da manhã».

Ora, como é que o treinador gere isso? «Quem trabalha, vai trabalhar na mesma. Não falta ao emprego por causa do futebol. Treinam só os profissionais. E na segunda sessão de treino do dia os outros juntam-se», concretiza Faria.

O funeral dos adversários do Valletta FC:

O futebol em Malta é fértil em tradições. O campeão nacional, por exemplo, faz sempre o funeral aos adversários. Um funeral feito de alegria, muito álcool e cânticos de apoio ao novo triunfador.

«Para a dimensão do país, acho justo afirmar que as pessoas vivem o futebol com paixão. Especialmente a seleção [155 no ranking FIFA]. Ainda há duas semanas a Itália sofreu muito para ganhar cá [ 0-1, golo de Pellè e muito sofrimento]».

Hugo Faria partilha o balneário com empregados bancários, lojistas e funcionários públicos. Sétimo classificado na atual edição da liga maltesa, o Valletta FC procura elevar o patamar qualitativo para voltar a receber grandes convidados do futebol da UEFA.

Em 1991, o clube acolheu e visitou o FC Porto treinado por Carlos Alberto Silva. No Estádio Nacional, em La Valletta, os dragões venceram por 0-3: golos de Kostadinov, Timofte e Mihtarski. Nas Antas, mais equilíbrio: 1-0, golo de Timofte.

Por falar em FC Porto, Hugo Faria nunca esquecerá os dois anos passados nas Antas. «Contrataram-me ao Louletano, quando eu tinha 15 anos. Fiz o segundo ano de juvenil e o primeiro ano de júnior nas Antas. Ainda participei num jogo da equipa B contra o Vilanovense».

Hugo Faria foi lançado, então, por Ilídio Vale, o braço direito de Fernando Santos na seleção. «Já na altura era muito sério e organizado. Extremamente competente, não tenho dúvidas».

Faria não sabe quanto tempo ficará em Malta. Por ora, leva o nome de Portugal a esse país tão peculiar. «Eu e o Fábio Paim. Ele está no Mosta FC. Jogou a primeira vez na semana passada».

E um regresso a Portugal? «Tenho de ser honesto: estou há seis anos fora de Portugal, a jogar em ligas de pouca visibilidade. Ainda jogo a um bom nível, mas tenho 31 anos e creio ser complicado voltar à I Liga. Sou feliz, vivo bem e isso é tudo o que me importa».

Coração português em Malta. Um cavaleiro algarvio nas Cruzadas de uma vida ligada ao futebol.

Valletta FC-FC Porto em 1991/92:

O PERCURSO DE HUGO FARIA

1993/94: Clube Recreativo 1º Janeiro (escolinhas)

1994/95: Clube Recreativo 1º Janeiro (infantis)

1995/96: Louletano (infantis)

1996/97: Louletano (iniciados)

1997/98: Louletano (iniciados)

1998/99: Louletano (juvenis)

1999/00: FC Porto (juvenis)

2000/01: FC Porto (juniores)

2001/02: Louletano – 4 jogos

2002/03: Louletano – 35 jogos/2 golos

2003/04: Louletano – 38 jogos/2 golos

2004/05: União Leiria – 2 jogos

2005/06: Olhanense – 27 jogos/1 golo

2006/07: União Leiria – 26 jogos

2007/08: União Leiria – 25 jogos

2008/09: Enosis (Chipre) – 28 jogos/1 golo

2009/10: Enosis (Chipre) – 28 jogos

2010/11: Enosis (Chipre) – 27 jogos/1 golo

2011/12: Enosis (Chipre) – 27 jogos

2012/13: Enosis (Chipre) – 23 jogos

2013/14: Kallonis (Grécia) – 24 jogos

2014/15: Valletta FC (Malta) – 7 jogos