Tiago Cintra tem 29 anos e passou ao lado da carreira que todos projetavam quando era um menino de 20 e se estreou na equipa principal do Leixões, na I Liga. Depois de três épocas boas, duas delas na equipa de Matosinhos, Tiago entrou numa espiral descontrolada e caiu vários patamares. Atualmente representa o FC Pedras Rubras, no Campeonato de Portugal.

O Maisfutebol tentou perceber o que falhou à outrora «joia do Mar» (recorde a entrevista de 2009). A adolescência difícil, a falta de trabalho diário nos treinos, a incapacidade de adaptação aos aspetos físicos do futebol, a «autodestruição da carreira» nas próprias palavras de Tiago Cintra.

Um discurso humilde e consciente que apenas deve a ele próprio o facto de não ter vingado ao mais alto nível no futebol nacional, depois de ter somado 17 internacionalizações nas seleções jovens – até aos Sub21.

Do Leixões (até ao verão de 2011), Tiago passou para o Beira-Mar (2011/12), Desp. Aves (2012/13), novamente o Beira-Mar (2013/14), Freamunde (2014/15), Varzim B (2015/16), Pinhalnovense (2016/17), Leixões B (2017/18) e agora o FC Pedras Rubras.

No fim de semana após ter falado com o Maisfutebol, Tiago Cintra fez o primeiro golo da época ao serviço do Pedras Rubras. Um momento que pode espoletar uma época positiva para o jogador. Ainda vai a tempo de coisas maiores?

LEIA A PARTE I: «Autodestruí-me no futebol»

Maisfutebol - Explique-nos a passagem pelo Leixões B. Como é que se proporcionou o regresso ao clube?

TC - Surgiu essa hipótese já com o pensamento de voltar à equipa A. Não aconteceu, mas era esse o intuito. O plano era esforçar-me, trabalhar na equipa B e emagrecer para ter uma oportunidade na equipa principal novamente.

MF - Esta temporada joga no Pedras Rubras. O que o fez aceitar o projeto?

TC - Este ano ia abandonar, porque já me sentia a mais no futebol. Mas o treinador do Pedras Rubras (António Pedro), que foi meu treinador na altura do Leixões, veio buscar-me a casa para ir treinar. No final da primeira semana, tivemos um jogo treino e marquei um golo. O presidente disse logo: «é para assinar amanhã». Senti-me amado.

MF - Foi importante ter sentido o carinho das pessoas para continuar a jogar futebol?

TC - Claro, sentir que uma pessoa me quer ajudar. Já não via isso há muito tempo. Na primeira liga tinha 300 empresários a ligar para mim, agora ligas para eles e não te conhecem. Passei por isso, já estive lá em cima e sei que não te falta nada. O pior é quando estás lá em baixo.

MF - Neste momento, ainda pensa em dar o salto e regressar a um patamar superior?

TC - Com um bom ano no Pedras Rubras, no mínimo sei que arranjo uma segunda liga. Com 31 anos, um bom ano na segunda liga, ainda posso chegar a uma equipa do meio da tabela da primeira liga. Penso nisso, mas não acredito muito nas possibilidades. Provavelmente por isso é que às vezes não vejo futebol, para não criar ilusões.

MF - Quais os treinadores que o marcaram ao longo da carreira?

TC - José Mota, porque me lançou na primeira liga e, neste momento, António Pedro do Pedras Rubras, porque nunca deixou de lutar por mim. Todos os anos me ligou para me ajudar, porque sabe o jogador que sou. Sabe que também o posso ajudar e mas sabe que por tudo o que passei também preciso de ajuda.

MF - Acha que hoje em dia cada vez se nota mais a preferência dos treinadores por jogadores mais físicos ao invés de jogadores fortes tecnicamente?

TC - Neste momento são caraterísticas importantes. Um treinador prefere um jogador que corra 90 minutos do que um jogador que corra 5 minutos e faça dois golos.

MF - Não teve os cuidados que devia ter tido enquanto jogador?

TC - Fiz a mesma vida, comia e bebia o que me apetecia e isso para um jogador de futebol não é bom. Eu sentia que mesmo com 10 quilos a mais era melhor do que os outros. Comecei a meter isso na cabeça e nunca mais fiz nada de jeito.

MF - Pensar assim fez com que não trabalhasse?

TC - Pensava que era melhor que os outros e não é verdade. Eu sou bom, mas não sou melhor do que ninguém.