Certificado de qualidade. Rúben Ribeiro é daqueles que não engana. A bola chega-lhe ao pé e cola, embevecida. Joga de cabeça levantada, dribla, passa, faz tudo bem.

Rúben é, de resto, uma das explicações para o crescimento monstruoso do Boavista na Liga. O médio, de 28 anos, fez os 17 jogos da segunda volta, período em que os axadrezados conquistaram 23 dos 33 pontos finais.

Em entrevista exclusiva ao Maisfutebol, Rúben abre o coração e fala sem tabus sobre os temas que o rodeiam: a renovação proposta pelos axadrezados, a vontade de jogar num dos três grandes, o desespero dos seis meses longe dos relvados, a infância difícil e o rótulo de 'bad boy', que o acompanha para todo o lado.

Nesta conversa longa, sem pressas, o nosso jornal encontra um homem com a cabeça no lugar, confiante e muito ambicioso. Pai de três filhos, apaixonado pela profissão, decidido a afastar-se em definitivo das polémicas e dos rumores. 

Rúben Ribeiro deseja ser um nome cada vez maior no futebol português. Os últimos seis meses são testemunha abonatória para a causa do médio fantasista. 

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Rúben Ribeiro suporta a pressão de um adversário

Depois de meio ano sem jogar, o que sentiu ao vestir o emblema do Boavista?
«Sempre adorei o Boavista, fui apanha bolas do mister Sanchez na Liga dos Campeões, quando era pequenino e jogava nas camadas jovens. Passei tanto neste clube… ter a oportunidade de voltar foi fantástico. Fui recebido de braços abertos, fui muito bem tratado. Senti-me útil».

Lembra-se do primeiro dia no balneário, depois de meio ano no ‘isolamento’?
«Foi uma experiência muito forte. Sou uma pessoa muito religiosa e quando entrei no balneário e escolhi um sítio… nunca mais mudei. Passou a ser o meu sítio. Fui recompensado nestes seis meses por tudo o que de mau passei num passado recente».

O Rúben acaba contrato com o Boavista em junho. E agora?
«Bem, vamos ver. Sinto que o meu nome voltou ao topo e agradeço por isso. Às vezes sinto-me triste, sabe? Acho que não me valorizam como mereço. Não no Boavista, atenção. No futebol, em geral. Vejo atletas a jogar nos três grandes e sinto que também eu mereço essa oportunidade. Estes seis meses no Boavista não aconteceram por acaso. É a hora de o meu talento ser reconhecido. Mereço uma oportunidade numa equipa grande. Não me sinto inferior a quem lá está, apesar de respeitar tudo e todos».

Essa oportunidade vai surgir agora?
«Poderá estar perto. Não depende só de mim. O que podia ter feito, fiz. Gostava de realizar um sonho de criança e chegar ao topo. Se ficar no Boavista não fico frustrado, mas com 28 anos acho que tenho de dar o salto agora».

O Boavista apresentou-lhe uma proposta de renovação?
«Sim, falei com o Boavista sobre a minha continuidade. Obviamente, sei que o Boavista continua a pensar em mim. Se não jogar num dos grandes, em Portugal dou prioridade ao Boavista. Faz sentido, devido à ligação emocional que existe entre mim e o clube. Fiquei muito emocionado com o que vivi no Boavista esta época. Ao segundo dia, após uma derrota pesada contra o FC Porto [0-5], desci do camarote para dar um abraço aos meus colegas e vi um dos roupeiros a chorar. Isso demonstra que o Boavista é especial, aqui a derrota dói mesmo. Foi bonito ver aquele trabalhador a viver o que os futebolistas vivem. Percebi aí que os objetivos iam ser atingidos».

O que lhe pediu o Sanchez antes de cada jogo?
«Estreei-me contra o FC Porto, para a taça, e as indicações do mister foram simples: ‘passem a bola ao Rúben’. Era isso que ele pedia aos meus colegas. ‘Joguem com o Rúben e aproximem-se dele’. A mim disse-me isto: ‘diverte-te com responsabilidade e ajuda os teus colegas’. Percebi que ele confiava em mim, só com dois dias de treino. Viram que tinha qualidade para entrar no Boavista e ajudar a acalmar o futebol da equipa».

O futebol da equipa mudou muito…
«Não podemos jogar com pânico. Não podemos pensar só em meter a bola na frente e deixar os médios a olhar para o céu. Temos de ter prazer em ter a bola nos pés. Vou contar um episódio: passadas duas semanas da minha estreia contra o FC Porto encontrei um empresário amigo. Ele vem ter comigo e diz-me: ‘olha-me este gajo, ainda há alguns dias estava no bairro a jogar futsal e agora joga com este nível contra o Porto’. E foi mesmo assim. Talento é isto, jogar no bairro e no relvado com o mesmo nível. E sem medo».

O segredo para a manutenção esteve nessa coragem de ter a bola?
«Dei segurança aos meus colegas na posse de bola, mas eles deram-me segurança e confiança para fazer a minha parte. Senti-me protegido por eles e sabia que confiavam em mim».

Qual foi o melhor jogo que fez no Boavista?
«Contra o FC Porto e o Benfica, no Bessa. E em casa do Marítimo, no Funchal. Adoro os grandes jogos, estádios cheios e grande ambiente. É desafiante. Sinto-me capaz de transformar o jogo. Quando jogamos contra Porto ou Benfica, duas das melhores equipas da Europa, quero colocar-me ao nível deles. E se estivesse do lado deles tudo era ainda mais fácil».

Está, aos 28 anos, na melhor fase da carreira?
«Creio que sim, talvez. A manutenção foi fantástica. Quando o União fez o 3-1 à Académica… que alívio. Veja bem, eu para motivar os meus colegas nesta luta, até almoços paguei. Almoços de 200 e 300 euros. Tudo valeu a pena. Senti que eles confiavam em mim, dentro e fora do campo. Aliás, quando eles me viam um bocado mais calado vinham ter comigo e diziam: ‘então, como é? Vamos lá, precisamos de ti’. Foi uma aventura fantástica».

Ainda pensa na Seleção Nacional?
«Sempre tive qualidade e nunca fui a nenhuma seleção. Nem nas camadas jovens. É um sabor amargo. Sinto que fui muitas vezes injustiçado. É um sonho de criança e se chegar a um clube grande tudo se torna mais fácil. Quero usufruir de um clube grande, sentir-me realizado e poder chamar a atenção do selecionador nacional».