Al Capone chegou em 1919. Tornou-se senhor do crime, gangster, mestre no contrabando de álcool.

Barack Obama mudou-se para lá em 1985. Desenvolveu projetos para auxiliar comunidades na zona sul da cidade, a área mais problemática.

Um ano antes, em 1984, os Bulls contrataram Michael Air Jordan. Vestiu 13 temporadas a eterna camisola 23 e foi seis vezes campeão da NBA.

Chicago.

2016 é o ano de João Meira. O defesa português, 28 anos, assinou pelos Fire e estreou-se a passada semana na MLS. Em entrevista ao Maisfutebol, o antigo jogador do Belenenses fala da «fantástica oportunidade» e revela estar «fascinado» pela vida no Estado do Illinois.

Mais de dois milhões de pessoas, cultura vibrante, desporto por todos os lados. «Vivo num hotel, mesmo na Baixa da cidade. Isto é Nova Iorque em ponto pequeno», refere João Meira, antes de mais um treino.

A conversa arranca pelo lado social e pelas experiências «absolutamente extraordinárias» nos EUA. No primeiro estágio dos Chicago Fire, em Portland, João Meira viu-se repentinamente rodeado por estrelas da NBA.

«O Stephen Curry, dos Golden State Warriors e provavelmente o melhor jogador da atualidade, passou por mim e nem queria acreditar. Depois entrei no elevador e estava lá o James Harden, dos Houston Rockets. Infelizmente não tinha o telemóvel comigo e não tirei fotos», conta, entre gargalhadas, o futebolista português.

Por cumprir está, por ora, outro sonho. Também relacionado com a NBA. «Ainda não fui ver os Bulls, nem estive ao lado da estátua do Michael Jordan. Mas vou fazer isso em breve, claro».

Chicago, Al Capone, Barack Obama, Michael Jordan. Os nomes acompanham a história da cidade, de braço dado com os clubes, todos repletos de troféus: os Bulls (basquetebol), os Bears (futebol americano), os Cubs e os White Sox (basebol) e os Blackhawks (hóquei no gelo).

«Faltam os Fire nessa lista (risos). Os últimos dois anos do clube foram maus, mas este ano o investimento é forte e temos condições para fazer uma boa temporada», considera João Meira.

João Meira, defesa central dos Chicago Fire, mais um português a desbravar os prazeres ainda escondidos da Major League Soccer. Para já leva 180 minutos de competição: 90 contra os New York City e mais 90 no terreno dos Orlando City.

Está a gostar de viver em Chigago?

«Bastante. A cidade tem partes lindíssimas. Mistura os arranha céus - torres gigantes de vidro – com espaços verdes e lagos enormes. É normal entrar no carro e ter um esquilo em cima do capô (risos)».

É uma cidade segura?

«No centro sim, mas a taxa de criminalidade é alta. Isso tem a ver sobretudo com o que se passa nos subúrbios, principalmente na zona sul. É uma área de gangues. Há malta de aspeto muito duvidoso, é verdade, mas na zona principal sinto-me perfeitamente seguro. Quero ver se me mudo para uma casa, apesar das rendas serem altas. Pagamos à volta de dois mil dólares mensais [1800 euros]».

Faço-lhe a pergunta obrigatória: como foi possível passar do Belenenses à MLS?

«Bem, eu estava sem clube, pois não aceitei a proposta de renovação do Belenenses. Um empresário abordou-me e deu-me excelentes indicações sobre a MLS. Curiosamente, já vinha quase todos os anos de férias aos EUA, de férias. A Miami, por exemplo. Não queria sair já do futebol europeu, mas não podia recusar uma proposta destas».

Depreendo que tenha estado desempregado por opção.

«Sim, em parte. O Belenenses até me fez uma proposta interessante, mas estava farto do sistema do futebol português, queria coisas novas. Estive muito perto de assinar pelo Sporting Gijón, da liga espanhola. Houve acordo, mas não assinei logo devido ao fair-play financeiro. Fui rejeitando outras coisas, à espera do Gijón, e eles acabaram por não conseguir contratar-me. Foi um risco e fiquei seis meses parado. Não volto a fazer isso».

O que fez durante esse meio ano?

«Até outubro treinei sozinho, mas o mister Sá Pinto convidou-me a trabalhar com o plantel do Belenenses e aceitei. Até ele sair. Acabei por estar cerca de oito meses sem jogos oficiais».

Encontrou um futebol muito diferente nos EUA?

«Muito, muito. É um futebol jogado mais com o coração do que com a cabeça. Para um defesa central é uma liga excitante, obriga-me a apresentar altos níveis de concentração. Neste campeonato ganha quem é mais organizado».

Qual é o objetivo dos Chicago Fire na prova?

«Ficar nos seis primeiros e entrar nos play-off».

O seu treinador é um nome conhecido no futebol europeu. Está a gostar de trabalhar com o Paunovic?

«É uma pessoa muito aberta e próxima dos atletas. Pede constantemente a nossa opinião. Só treinou seleções e tem aqui um grande desafio também. Ele jogou muitos anos em Espanha [n.d.r. 1995 a 2008] e tem uma mentalidade extremamente competitiva».

No plantel há jogadores que aconselharia aos clubes portugueses?

«Sim, vários. O Matt Polster (22 anos, médio), o Colin Fernandez (19 anos, médio), o Alex Morrell (21 anos, médio) e o Brandon Vincent (21 anos, defesa) têm qualidade e margem de progressão. Mas o melhor jogador da equipa é o Arturo Álvarez. Curiosamente, passou pelo Paços Ferreira [2011/12] sem grande sucesso. É um craque, joga muito. Temos também três avançados muito rápidos e intensos. Dois africanos, o Kennedy Igboananike e o David Accam, e um brasileiro, o Gilberto».

Na estreia perdeu 3-4 e defrontou duas figuras históricas…

«O Andrea Pirlo e o David Villa, sim (risos). Ainda jogam muito! O Villa corre, corre, corre, não se cansa. O Pirlo é o que se sabe, coloca a bola onde quer. No final do jogo falei com o Tony Taylor, meu ex-colega no Atlético e agora companheiro de equipa deles, e disse-me que são os que treinam melhor».

Conseguiu falar com algum dos dois?

«Não, perdi e fiquei com azia (risos). Não quis falar com ninguém depois do jogo».

Há quem olhe para a MLS como uma reforma dourada. É só isso?

«É isso, claro, mas muito mais. Os estádios estão sempre cheios e daqui a dois/três anos acredito que será um campeonato de referência. Não falta nada. Em Portugal andávamos a mandar vir por causa de uma camisola para treinar. Aqui o nosso cacifo tem tudo. Chego ao treino e há chuteiras novas. Estou a sentir pela primeira vez o que é ser futebolista com as condições ideais. E em casa jogamos com 17/18 mil pessoas no estádio».

O público norte-americano já olha com atenção para o soccer? Já compreende a beleza do jogo?

«Querem aprender. Adeptos e jogadores. No nosso balneário há sempre três ou quatro televisões a transmitirem futebol europeu. Conhecem os clubes e os jogadores. Antes do Zenit-Benfica diziam-me que o Renato Sanches é um craque e também adoram o Jonas e o Nico Gaitán. Há uma paixão enorme pelo futebol europeu».

O resumo da estreia de João Meira na MLS: