Carlos Alberto esteve um ano no FC Porto e ganhou tudo: campeonato, Supertaça, Liga dos Campeões e Taça Intercontinental. Regressou repentinamente ao Brasil e deixou a imagem de um executante acima da média, um artista de nível estratosférico.

Em longa entrevista ao Maisfutebol, Carlos recorda alguns dos colegas azuis e brancos, a inesquecível final de Yokohama e declara o seu amor incondicional pelo futebol de Deco.

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Carlos Alberto ao lado de Quaresma na final de Yokohama

MF – O Carlos assistiu à transição de 2004. Primeiro para o Del Neri e depois para o Victor Fernandez.

CA – Não foi fácil. A maneira de o Mourinho trabalhar era muito própria. Com o Victor ganhámos um Mundial, mas não foi simples para ele. Era uma missão muito exigente. A cobrança, a ansiedade, o plantel remexido, o passado vitorioso. O Victor teve dificuldades e nós também tivemos com ele. O Porto depois mudou bastante de treinadores e esse não era o perfil do clube. Ainda veio o José Couceiro…

MF – O último jogo que fez foi contra o Once Caldas. E saiu como campeão do mundo.

CA – Nossa, eu fui essa viagem inteira a tocar pandeireta no avião (risos). A sambar, não deixei ninguém dormir. Havia aquela questão do jet-lag e os que dormiram mais tiveram dificuldades de adaptação no Japão. A final foi no dia 12 de dezembro e na véspera foi o meu aniversário. 20 aninhos.

VÍDEO: um golo de Carlos Alberto ao Sporting (1m15s):

MF – Houve festa ou foi tudo calminho?

CA – Calmíssimo! Estávamos no hotel, fizeram um bolo para mim e cantaram-me os parabéns. Foi fantástico. Depois ganhámos a final e na viagem de regresso eu aprontei com a minha pandeireta. Andei para a frente e para trás, fui ao cockpit… Faltava essa irreverência ao grupo, tínhamos vários atletas mais velhos e casados. Eu dei alegria ao plantel e isso foi mágico.

MF – Ainda esteve no banco de suplentes mais uma vez. Mas nunca mais jogou.

CA – Tive a despedida perfeita (risos). Ganhei quatro troféus, estive com as pessoas certas no momento certo. Acertei em cheio ao assinar pelo FC Porto. Nunca encontrei vaidade no balneário portista. Genial.

MF – Voltou à Europa em 2007. O que falhou no Werder Bremen?

CA – Tive muitas dificuldades de adaptação, o grupo não tinha nada a ver com o que encontrei no Porto. Por isso regressei ao Brasil. Talvez me tivesse faltado alguma paciência. Agradeço ao Werder por me ter contratado, mas com a minha idade e a minha qualidade eu podia ter ido mais além.

MF – No balneário do FC Porto quem era o seu melhor amigo?

CA – As pessoas acham que os brasileiros andam sempre juntos, mas eu adorava os portugueses. O Maniche, o Nuno Valente, o Nuno Espírito Santo. Eu tinha uma admiração enorme por eles. Depois, claro, o Derlei, o Deco, o Maciel, o Bruno Moraes. E o Benni McCarthy, claro. Que figuraça (risos)! Eu frequentava a casa dele, tínhamos gostos parecidos. Hip-hop, danças, brincadeira… dávamo-nos muito bem.

MF – E o maior craque com quem jogou?

CA – Posso falar do Vítor Baía, do Alenitchev… um craque fantástico, jogava de pé direito, pé esquerdo e com uma humildade fantástica. Mas o melhor… Deco, Dequinho. Era a figura mais emblemática, a referência. Trabalhava muito sem bola, apesar de ser muito técnico. Era muito educado taticamente. Foi o jogador de mais qualidade que eu conheci. Era o pilar da nossa equipa. Mantemos até hoje uma enorme amizade.

MF – Como era a sua vida na cidade do Porto?

CA – Vida boa. Vivia perto do Estádio do Bessa. Via o estádio da minha janela. Adorava ir a Matosinhos e a Leça. Adorava arroz de pato.