Francisco Geraldes é um jogador diferente e tem feito a diferença no Moreirense. Emprestado pelo Sporting à equipa de Moreira de Cónegos, o médio soma 17 jogos em 21 possíveis e já marcou dois golos. Um frente ao Feirense, num jogo em que fez uma assistência e construiu a jogada de outro dos golos, e um ao FC Porto, que colocou o Moreirense na final-four da Taça da Liga.
 
No primeiro ano no campeonato principal, o internacional sub-21 tem agarrado a oportunidade de crescer e está focado no objetivo que tem desde sempre: chegar à equipa principal do Sporting. Essa realidade já esteve mais longe, mas ainda está a uma distância considerável. 
 
Francisco Geraldes sabe que em Alvalade estão atentos ao que tem feito em Moreira de Cónegos e tem mostrado qualidades para merecer a chamada de Jorge Jesus, mas a concorrência a meio-campo é elevada. O que joga então a seu favor? 
 
À conversa com o Maisfutebol, o próprio jogador tentou responder a essa pergunta e, mais uma vez, mostrou que trata tão bem as palavras como trata a bola. Fala do Sporting, do Moreirense e da seleção e pelo meio revela que João Mário «perdeu tempo» para o ajudar a ser melhor.
Estreou-se na Liga esta temporada, depois de 11 anos de formação e um ano na equipa B do Sporting. Como está a correr a experiência no Moreirense?
Está a correr bastante bem até agora. A nível estatístico não está a ser como ambicionava, porque só tenho dois golos e gostava de ter mais, mas o mais importante é que tenho estado a corresponder e até, se calhar, a conseguir superar as expetativas do primeiro ano.
 
E o Moreirense é o clube certo para evoluir e se mostrar ao Sporting?
Se é o certo ou não, não sei, porque nunca experimentei nenhum outro clube, mas até este momento tem corrido tudo da melhor maneira e por isso acho que é um excelente clube para evoluir e poder ganhar experiência na Liga.
 
Quando se é emprestado não há o sentimento de se estar a afastar do clube?
É um facto que acabamos por nos afastar do clube, sim, mas a política do Sporting é a de seguir os jogadores emprestados, pelo menos até hoje, e eu, porque tenho tido sempre feedback positivo do Sporting e um acompanhamento assíduo, não me posso queixar de me terem esquecido. 
 
Como foi sair de «casa»? Saiu de Lisboa pela primeira vez e do Sporting também…
Sim, foi a primeira vez e é sempre difícil. O período de adaptação não foi fácil, porque deixei tudo em Lisboa, família, amigos e o clube, mas quando a vontade de singrar é maior do que as dificuldades de estar longe, tudo é superável tendo em conta o objetivo final.
 
Chegou para ser opção de Pepa, mas Pepa saiu do comando técnico da equipa, e depois chegou Augusto Inácio, que já conhecia do Sporting. Como se lida com a mudança de treinador?
Tem de se lidar de uma forma natural porque estas situações fazem parte do desporto, e neste caso do futebol, quando os resultados não aparecem. O Pepa é um excelente treinador e de certeza que vai ter muito sucesso no futuro. Gostei de trabalhar com ele e desejo-lhe a maior sorte do mundo. Agora temos o mister Augusto Inácio que também é um grande treinador e com quem tem estado a correr tudo bem.
 
O que mudou com a troca de treinadores?
Muda sempre alguma coisa porque nenhum treinador é igual. Na forma de treinar têm métodos diferentes, mas o estilo de jogo é mais ou menos o mesmo. Em campo continuamos a fazer as mesmas coisas.
 
Tem mais liberdade com Augusto Inácio? Dá essa ideia…
Não, penso que é igual. Tenho a mesma, mas é um treinador que exige muito de mim e a cada dia que passa sinto-me melhor.
 
E jogar numa equipa com outros objetivos, diferentes dos que tinha no Sporting B, está a abrir-lhe os olhos para uma missão de sacrifício defensivo a que não estava tão habituado?
Sim, sim, isso sim. É uma realidade diferente daquela que encontrei na equipa B do Sporting, porque apesar de ser uma equipa B é sempre vista como sendo o Sporting e as equipas acabam sempre por se fechar mais. Agora é completamente o oposto. O Moreirense é que é a equipa «pequena» e, principalmente, quando joga frente aos grandes joga mais fechado e tem de explorar o contra-ataque. É diferente e isso tem sido positivo para o trabalho defensivo que, confesso, não tinha muito.
 
Gosta de marcar e, apesar de ter dito que esperava já ter marcado mais, fez dois golos importantes. Um ao Feirense, numa excelente apresentação e exibição, e outro ao FC Porto. Como foi este último golo?
Foi bom, mas acaba por ser só mais um. Mesmo assim, claro, por ter sido à equipa que foi e pelo simbolismo, de ter posto o Moreirense na meia-final, foi o mais importante de todos os que já marquei na carreira. Quando somos pequenos, pomo-nos a imaginar este tipo de golos e achamos irreal, mas consegui marcar e claro que isso me deixa satisfeito.
 
Como sportinguista, pela rivalidade, também?
(risos) Claro, como sportinguista também.
 
Esse golo colocou o Moreirense na final-four da Taça da Liga, pela primeira vez. Chegados aqui, qual é o objetivo da equipa nesta prova?
Vamos ao Algarve com a intenção de fazer as coisas o melhor possível. Quanto mais podermos sonhar e ambicionar, melhor. Já demonstrámos que nos podemos bater contra qualquer adversário e sabemos o que podemos fazer. Derrotámos o FC Porto e sabemos que não é fácil o que se segue [Benfica], mas já estarmos na meia-final é excelente. 
 
No campeonato é só a manutenção que interessa?
Sim, é obviamente que esse é o nosso objetivo. Saímos lá de baixo no último jogo e agora é continuar a subir. Já temos uma folga [pontos] maior com a vitória frente ao Belenenses e trabalhar assim será melhor. Agora vamos ao Dragão com a mesma ambição de conquistar os três pontos.
 
E tem também a ambição de marcar outra vez?
(risos) Claro, se possível.
 
Geraldes nos festejos do golo ao Feirense no início desta temporada (0-3)
Se marcar vai mostrar outra vez a caneleira, na qual tem a máscara do filme ‘V de Vingança’...
Sim.
 
Mostra-a sempre, porquê?
É uma questão que pode dar horas de conversa! Mostro porque muito do que penso está ali resumido. Tem tudo a ver com a mensagem do filme. Vi-o com o meu pai no cinema e marcou-me. Na altura não tanto porque com apenas 11 anos, não estava tão desperto e tão atento ao quão real, atual e verosímil é a mensagem do filme. Hoje, depois de ter estudado, ler muito e tentar perceber várias questões, identifico-me totalmente com a ideia revolucionária do filme.
 
Não se preocupa apenas com o futebol, não é? Há mais vida para além «disto»…
É. O futebol é a minha grande paixão, adoro este jogo, e não me vejo a fazer mais nada - agora sou jogador e um dia quero ser treinador, mas tal como não é o dinheiro que me move, não fecho os olhos à nossa sociedade, à política, economia, cultura…