Em 2013 o panorama de pontas de lança disponíveis para a seleção nacional não era muito animador. Vivia-se daquilo que Hélder Postiga e Hugo Almeida ainda davam, perdera-se a vã esperança em Liedson, acreditava-se que Nelson Oliveira poderia ser a solução que há muito o país ansiava.

A verdade é que, desde Pauleta, não havia um indiscutível para o lugar, pelo que foi com um misto de espanto e esperança renovada que se encarou as performances daquele que era um perfeito desconhecido para quase todos no Mundial Sub-20 desse ano. Falamos de Aladje, autor de três golos na fase de grupos desse torneio, em que o Portugal de Bruma, André Gomes ou João Mário caiu nos oitavos de final.

Quatro anos depois, a carreira de Aladje ficou a dever muito àquilo que se esperava. Culpa do azar, das lesões, de escolhas. Hoje, prestes a fazer 24 anos, está sem jogar, depois de passar por vários clubes em Itália, quase sempre nos escalões secundários. Já é jogador do Carpi, da II Divisão de Itália, mas aguarda o final do processo de transferência para começar a ajudar a equipa.

Em quatro anos, muito mudou. Deu o salto do Aprilia, do III escalão, para o Sassuolo, depois do Mundial, mas a sorte virou-lhe as costas e entrou numa sucessão de empréstimos: Delta Porto Tolle, Pro Vercelli, Vicenza, Prato e Ischia, até à desvinculação, em 2016. Na época passada representou o ASD Ponsacco, do quarto escalão.

«Estou prestes a fechar a ida para o Carpi. Mas ainda não está fechado. Não comecei a treinar porque estamos a aguardar alguns documentos. Se tudo der certo e passar a jogar ali, acho que é bom, a II Divisão de Itália é um bom campeonato», afirma.

O Maisfutebol encontra um Aladje convencido de que o azar é parte do passado e está bem a tempo de relançar a carreira.

«Tenho mudado muito de clube. São muitas experiências. As lesões não têm ajudado. Tive uma mais grave ultimamente que me afetou, mas já está debelada. Agora é bola para a frente, acho que é praticamente começar a carreira de novo. É um recomeço», defende.

E acrescenta: «Estou quase a fazer 24 anos. Tenho ainda tempo para relançar a carreira. É só encontrar uma boa oportunidade para poder mostrar o que sei. As lesões atrapalharam, mas já passou. Agora estou bem. Estou a sentir-me bem. Tenho treinado muito sozinho mas continuar a minha caminhada e chegar bem ao novo clube.»

Aladje em ação contra Cuba no Mundial Sub-20

A entrevista que o levou à seleção nacional

A história de Aladje começa na Guiné-Bissau, o país onde nasceu. Como tantos outros, começou a jogar numa Academia, a Vitalaise, a mesma onde despontou José Gomes, avançado do Benfica e internacional sub-20. Outra promessa lusa para a posição.

«Através de um empresário tive a oportunidade de ir a Itália fazer testes numa equipa. Fiquei logo. Era o Padova. Na primeira vez que me convocaram para a seleção estava no Padova, era sub-19. Fiquei lá a jogar nos juniores e ao mesmo tempo ganhei espaço na seleção», recorda.

Dos juniores passou à equipa B do Padova até chegar o torneio de Toulon que o apresentou aos portugueses. A convocatória chegou numa altura em que já se falava em jogar por Itália.

«Dei uma entrevista em Itália onde se falou da possibilidade de jogar na seleção italiana. Já estava lá há alguns anos e eles estavam interessados. Mas eu disse nessa entrevista que o meu sonho era jogar por Portugal, porque sou português e que ia esperar essa oportunidade. Pouco depois dessa entrevista fui convocado a primeira vez para a seleção sub-19, pelo mister Edgar Borges. Fiz um bom jogo, ele disse que contava comigo e passou a chamar-me todos os jogos. Eu fiz o meu papel. Joguei, fiz golos. Correu bem em Toulon e depois no Mundial também», continua.

Portugal amarrou cedo um avançado de características bem diferentes do habitual por estes lados. Possante, forte nas disputas, jogador de poucos toques. Mas nem era preciso. Aladje, que tem nacionalidade portuguesa e guineense, garante que a escolha sempre foram as cores lusitanas.

«Na entrevista perguntaram-me onde gostava de jogar e disse logo Portugal. Gosto muito do futebol português, tenho muita pena de nunca ter jogado aí. Quando cheguei à seleção encaixei bem, muito rapidamente, até porque eram todos novos para mim. O Bruma também veio de África mas nunca jogamos juntos lá. E ali encaixamos bem», defende.

Estava lançado. E o Mundial da Turquia só ajudou.

«Tive contactos com o Belenenses, mas não houve acordo»

Como se disse, a fase de grupos de Alajde foi brilhante. Marcou nos três jogos, a Nigéria, Coreia do Sul e Cuba. Ajudou Portugal a seguir em frente. Depois de Bruma era, talvez, o jogador em maior destaque da equipa de Edgar Borges.

O golo de Aladje à Coreia do Sul:

A FIFA mostrava-se atenta e no seu site oficial chamava-lhe «o segredo mais bem guardado do futebol português». Chegaram propostas, ficou em Itália, mas subiu um degrau.

«Na altura estava num clube da III Divisão [ndr. Aprillia], mas estava a acabar o contrato. O Sassuolo contactou-me e fiz um contrato de três anos. Fiz a pré-época com eles. A ideia era ficar na equipa, mas veio uma lesão e estragou tudo», lamenta.

Foi o melhor clube por onde passou, diz o próprio. Foi, também, «a grande oportunidade» da carreira. «Estava bem, até vir a lesão e depois falaram logo do empréstimo, porque não tinha muito espaço», explica.

Seguiu-se não um, mas uma sucessão de empréstimos, sempre a clubes dos escalões secundários italianos. «Talvez um ano depois do Mundial tive contactos com o Belenenses, mas acho que não chegaram a acordo com o Sassuolo e o negócio não se fechou», revela.

«Sinceramente esperava que o Mundial fosse um trampolim. Foi um momento muito bom para mim. Estava a fazer as coisas bem. Tinha companheiros muito bons, como o João Mário e o Bruma. Eramos um conjunto bonito, não é? Uma equipa com qualidade. Imaginava que poderia ajudar-me a chegar longe», assume.

Aladje em ação contra a Nigéria no Mundial Sub-20

«Vou voltar a ser o Aladje»

No pós-Mundial, Aladje ainda foi chamado à seleção sub-21 de Rui Jorge. Jogou contra a Suíça, num particular em que Portugal goleou por 5-2. No regresso ao Sassuolo lesinou-se. «Parei logo ali três meses. Foi aquela lesão que não me deixou afirmar lá», lamenta.

«Quando recuperei da lesão ainda fui convocado para um jogo em Israel, mas não fui utilizado. Depois disso o mister Rui Jorge disse-me que achava que eu não estava em forma. Que ia esperar para voltar à minha melhor forma, porque continuava a contar comigo. Mas nunca mais me chamou», lamenta.

Garante, contudo, que não ficou desiludido, por isso. «Ele [Rui Jorge] foi sincero e eu disse-lhe que não estava, de facto, preparado porque a lesão atrapalhou. Ele queria que eu fizesse mais jogos para poder voltar em condições. Mas depois acabei por ficar sempre de fora, não fui ao Europeu e o comboio passou», admite.

Por tudo isso, acha normal que o seu nome não desperte já o mesmo interesse que despertava em 2013, o seu ano dourado.

«Muitas pessoas esqueceram-se de mim. Faz parte do futebol. Quando não estás a competir, quando estás parado, com lesões, é normal que se esqueçam. Estou à espera de uma solução. Que venha o mais rápido possível, porque vou voltar a ser o Aladje», garante.

Do seu grupo na seleção mantém contacto com vários jogadores. João Mário, Bruma, Agostinho Cá, Edgar Ié. «O André Gomes encontrei-o uma vez no aeroporto», conta. Continua atento à seleção até porque há um sonho por realizar: «Todo o jogador português tem o sonho de jogar com o Ronaldo. Seria um orgulho enorme.»

«E o André Silva está a fazer bem, agora... Tenho sempre esperança de voltar à seleção. Tenho de trabalhar muito. Estando bem, tenho sempre esperança. Estou a trabalhar para voltar a um bom patamar e para que as pessoas se lembrem de mim», promete.