A vida de Mauro passou depressa. Pelo menos até agora e se a contarmos ao ritmo com que o médio fala. Despachado, sintético, objetivo. Decalque do papel que desempenha no meio campo do Sp. Braga. Não há enfeites, ornamentos inúteis, vírgulas ou adjetivos despropositados.

Mauro é o Guerreiro – do Minho, naturalmente – invisível. Atua nas sombras, com precisão e astúcia. É um dos homens da confiança de Paulo Fonseca e um dos mais antigos no balneário do excelente Sp. Braga versão 2015/16.

A entrevista ao Maisfutebol é um tratado de simplicidade, uma lição de sobrevivência+superação+resiliência.

A poucos dias da visita ao Estádio da Luz, casa do líder do campeonato, Mauro – 27 jogos e mais de 2000 minutos oficiais esta época – recorda a infância em Livramento de Nossa Senhora, estado da Bahia, da chegada a Portugal aos 19 anos, da época no Gil Vicente e da mudança para Braga.

Tudo acaba como deve ser. A olhar para os próximos compromissos e as quatro frentes de combate. Mauro, guerreiro silencioso, andará por lá.

Conheça melhor este médio de 25 anos. Discreto e fiável. Os adjetivos ficam por nossa conta.

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Está em Portugal há quatro anos. No Brasil onde começou a jogar futebol?

«Nasci numa cidade pequena, a cinco horas de Salvador. Saí de lá com 16 anos e fui para Goiânia. É nessa altura que começo a olhar o futebol de forma séria, no Atlético Goianiense. Aos 19 anos subi ao plantel profissional e assinei contrato por quatro meses. O René Simões era o treinador e lançou-me no Campeonato Estadual».

A sua família apoiou essa mudança para tão longe?

«Entre os 16 e os 19 anos não recebia salário. Sobrevivi com a ajuda de amigos dos meus pais. Receberam-me na casa deles e ajudaram-me muito».

E já atuava no meio campo, como agora?

«Sim, sempre joguei nesta posição. Volante, como dizemos no Brasil».

Mudou-se para Portugal com 19 anos. Como foi contratado?

«Vim para o Gil Vicente através do empresário António Teixeira. Ele continua a ser o meu representante, aliás. Fiz um ano em Barcelos e ele depois apareceu-me com a possibilidade de integrar os quadros do Sp. Braga, na equipa B. Sou o mais antigo do plantel, depois do Alan e do Baiano».

Falemos um pouco da sua família. Há mais algum futebolista?

«Tenho quatro irmãos. Duas raparigas e dois rapazes. Nenhum gosta de jogar futebol (risos). O único que jogava na família era o meu pai, mas só a um nível amador. Ele sempre foi apaixonado por desporto».

O que recorda da sua infância em Livramento?

«Joguei muito futebol na rua. Os meus dias eram muito longos. Começava na escola pela manhã, jogava à bola e ainda ia ajudar o meu pai na lavoura. Aos sábados ia com a minha mãe para as feiras vender fruta e outros produtos. Dava para ganhar algum dinheirinho. Era uma vida dura. O meu pai era um guerreiro, nunca nos deixou faltar nada».

E hoje em dia consegue recompensá-lo por esse apoio?

«Os meus pais já não trabalham. Estão aposentados e bem. Sei que estão muito orgulhosos do meu trajeto no futebol e eu fico emocionado por chegar a esta idade e poder ajudá-los. Sair de uma cidade pequena do interior baiano, como Livramento é, e estar agora a disputar jogos da Liga Europa… é muito bonito».

Visita Livramento com regularidade?

«Volto lá todos os anos de férias. Levo 30 ou 40 camisolas do Sp. Braga e ofereço aos amigos todos. Eles até lutam para ter uma (risos). Sei que a população se junta para ver os nossos jogos, principalmente na Liga Europa. É bom saber que sou um embaixador do Sp. Braga no Brasil».

Está completamente adaptado a Portugal e a Braga?

«Sim, sou um rapaz tranquilo. Adoro estar em casa com a minha esposa. Dentro do campo gosto de trabalhar e procuro jogar de forma simples. Nessa posição é o que se exige. Não posso estar muito tempo com a bola. Tenho de receber e fazer a equipa jogar para a frente. Sou apaixonado por Braga. E este já é o meu clube de coração. Fui bem recebido e procuro retribuir. Adoramos viver nesta cidade, as pessoas são acolhedoras».

O Sp. Braga está em quatro provas e visita a Luz na sexta feira. Para o grupo é possível dividir todos esses compromissos e manter a qualidade?

«Sim, há muita qualidade na nossa equipa. Quem joga, joga bem. Pensamos só no próximo jogo, é mesmo assim. Conseguimos dividir bem todos os objetivos. O mister coloca em campo quem está melhor em termos físicos, não é rodar por rodar».

Como está a equipa a preparar esta visita ao Benfica?

«Temos noção da importância do jogo. Com a nossa humildade habitual, vamos para a Luz tentar a vitória. Fazer o nosso jogo e vencer».

Jonas e Renato Sanches: são eles os perigos identificados?

«Conheço bem o Jonas, do Grémio e do Valência. Tem muita qualidade, mas não é só ele. São todos. Não vale a pena pensar só no Jonas. O Renato tem qualidade e agressividade. É o futuro de Portugal. Vamos jogar da forma que temos jogado sempre. Não vamos mudar só por ser na Luz».